O submundo do crime em São Paulo é um terreno onde as linhas entre a vida e a morte são traçadas com uma precisão cirúrgica e, muitas vezes, brutal. Entre as histórias que ecoam pelas vielas da periferia e nos relatórios de investigação da Polícia Civil, poucas são tão emblemáticas quanto a trajetória de Roberto Hipólito, conhecido como “Zoio de Gato”. Sua vida, marcada por escolhas perigosas e uma ascensão meteórica na hierarquia da informalidade criminosa, culminou em um desfecho que serve como um aviso sombrio sobre as consequências da traição no ambiente das facções criminosas.
Roberto Hipólito não era um estranho ao mundo do crime. Durante anos, ele circulou pela Grande São Paulo, construindo uma reputação não como um grande líder, mas como um elemento de confiança. Sua função principal era ser o “piloto” — o motorista responsável pela logística, pelo transporte de integrantes da facção e, sobretudo, por garantir fugas rápidas e eficazes em operações de alto risco. Ele conhecia os atalhos, as rotas de escape e, mais importante, os segredos de quem operava no tráfico local.
Um desses momentos cruciais em sua vida ocorreu em janeiro de 2019, quando Roberto participou do sequestro de Cléberson do Santo Santana. A vítima, após defender sua irmã em uma discussão familiar, foi sentenciada pelo “Tribunal do Crime” por desavenças com pessoas ligadas à facção. Roberto foi o elo fundamental dessa emboscada: ele buscou Cléberson, enganando-o com a promessa de uma conversa, e o entregou aos carrascos. Este episódio marcou sua ficha criminal, mas, ironicamente, plantou as sementes do que seria seu próprio fim.
Após passar pelo sistema prisional e ganhar a liberdade condicional em maio de 2023, Roberto decidiu seguir um caminho ainda mais perigoso: o de informante da polícia, os chamados “gansos” ou “X9”. Ele utilizou seu vasto conhecimento sobre o funcionamento do tráfico na Zona Norte e em Guarulhos para vender informações valiosas a policiais civis corruptos. Esse grupo, que atuava à margem da lei, usava as dicas de Roberto para extorquir traficantes e desviar carregamentos de entorpecentes. Para Roberto, cada denúncia era um pagamento via Pix, um rastro digital que, ao invés de protegê-lo, pavimentava o caminho para sua sentença de morte.
A arrogância, alimentada pelo sentimento de proteção que imaginava ter ao colaborar com as forças policiais, levou Roberto a cometer erros fatais. Ele tornou-se ativo nas redes sociais, utilizando seu perfil no Facebook para comprar informações e desafiar abertamente a facção. Comentários ameaçadores que o rotulavam como “cagueta” inundavam suas postagens, mas ele parecia ignorar o perigo iminente.

O ápice dessa tensão ocorreu na madrugada de 3 de setembro de 2023, dentro do armazém Maia Gastrobar, em Guarulhos. Roberto estava lá com sua esposa e seu filho de dois anos, tentando manter uma aparência de normalidade. Dois homens, representantes da facção, o abordaram de forma agressiva. Ao ser confrontado sobre sua identidade e suas atividades como informante, Roberto tentou negar, numa tentativa desesperada de proteger sua família. Eles o levaram para a calçada e gravaram um vídeo de 40 segundos. Nesse registro, a vítima negou as acusações, mas o algoz, frio e implacável, profetizou seu destino: disse que ele iria morrer e que beberia seu sangue.
O vídeo foi enviado aos grupos de WhatsApp da cúpula da facção, servindo como uma condenação pública. A paranoia tomou conta de Roberto nos 13 dias que se seguiram. Ele mudava constantemente de hotel, vivia aterrorizado e, num ato de desafio extremo, chegou a publicar o vídeo da discussão em sua página no Facebook, desafiando a facção. Ele parecia acreditar que a notoriedade ou o medo poderiam salvá-lo, mas, na dinâmica do crime organizado, o desafio apenas acelerou o cumprimento da sentença.
A caçada final teve seu capítulo decisivo na noite de 16 de setembro de 2023. Enquanto retornava para casa em um carro de aplicativo, Roberto percebeu que estava sendo seguido por uma Tucson preta. A perseguição na rodovia Presidente Dutra foi cinematográfica e letal. Após ser forçado a parar, o carro de aplicativo foi interceptado. Três homens encapuzados e armados agiram com extrema rapidez. Sua esposa e filho conseguiram escapar, mas Roberto foi capturado e jogado no veículo.
O que se seguiu foi um processo logístico típico dos tribunais do crime: a transferência de Roberto de um veículo para outro — uma Fiorino — até chegar a um local isolado na Zona Norte de São Paulo. Ali, em uma estrutura montada para a execução, ele foi levado por Jeferson Rodrigues Alexandre, o “Irmão J”. Outros membros, como Alisson Alexandre Borges, o “TK”, e Michael da Silva, o “Neymar do PCC”, desempenharam seus papéis designados na execução. O vídeo daquele momento foi a prova final que, mais tarde, seria o divisor de águas para as investigações policiais.
O caso tomou um rumo inusitado quando a Polícia Civil, ao analisar os frames do vídeo da execução, conseguiu identificar Alisson Alexandre Borges. Em um confronto psicológico impactante, os policiais mostraram as imagens à mãe de Alisson. Ao reconhecer o próprio filho segurando a vítima no chão, a mulher não teve como negar a brutalidade. Essa confissão indireta permitiu a prisão de Alisson em Jacobina, na Bahia, onde ele admitiu seu envolvimento.
Jeferson Rodrigues Alexandre, por sua vez, permaneceu foragido, mas não parou. Um ano após o crime, ele foi preso por comandar um assalto milionário a uma distribuidora de medicamentos. Michael da Silva também teve sua prisão decretada, encerrando o ciclo de impunidade dos executores.
A história de “Zoio de Gato” é um lembrete contundente de que, no mundo do crime, a lealdade é a moeda mais cara. Roberto, que um dia foi o executor que transportou uma vítima para o paredão, terminou da mesma forma, pelas mãos de quem ele um dia serviu. Sua morte não foi apenas uma retaliação, mas um exemplo, uma lição de obediência imposta pelo terror. O fato de que seu corpo nunca foi encontrado apenas adiciona uma camada extra de desolação a uma narrativa que, desde o início, parecia destinada ao abismo. As instituições de segurança continuam a desmantelar essas estruturas, mas o rastro de violência deixado por esses conflitos permanece como uma cicatriz profunda na sociedade brasileira, lembrando-nos constantemente dos perigos escondidos nas entranhas da criminalidade organizada.
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