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O Importado Patinou na Subida na Frente de Todos — Um de 1973 Passou Carregado Sem Parar

Na tarde de uma terça-feira de outubro de 2023, um Scania R660 importado da Suécia, valor de fábrica acima de R$ 1.400.000, Ris. estava a patinar humilhantemente numa subida de Barro Vermelho do interior de Goiás, em frente a cerca de 40 motoristas de uma fila de camiões que se tinha formado atrás dele. A subida era conhecida pelos camionistas locais como o Morro do Apuro.

tinha aproximadamente 400 m de comprimento, inclinação variando entre, e piso de saibro misturado com barro vermelha, que ficava extremamente escorregadio depois de qualquer chuva. Era a única saída de uma enorme quinta, produtor de soja, que abastecia três cooperativas regionais. Em dia de chuva, a subida tornava-se um obstáculo sério para qualquer veículo carregado.

E naquela terça-feira de outubro tinha chovido pesado durante a noite e a manhã, deixando o monte do apuro em condição máxima de dificuldade. O Scania R660 era propriedade de uma transportadora grande de São Paulo que tinha um contrato novo com a quinta. Era a primeira viagem do camião na rota. O motorista, um rapaz de 34 anos, chamado Erivaldo, tinha sido escolhido especificamente pela empresa por ser considerado um dos mais experientes da frota.

Tinha formação europeia em operação de camiões pesados. Conhecia profundamente os sistemas eletrónicos do Scania. Estava confiante de que conseguiria subir o monte do apuro carregado com 28 toneladas de soja sem problema. A primeira tentativa tinha iniciado às 11 da manhã. Erivaldo tinha aplicado todos os procedimentos técnicos modernos.

Sistema de tração às rodas duplas traseiras ativado. Programa específico para terreno escorregadio selecionado. Marcha apropriada engrenada. Aceleração suave e progressiva. Resultado, o Scania conseguiu subir 180 ■ antes que o sistema eletrónico detetasse patinagem excessiva e cortasse a potência automaticamente. O camião tinha que voltar lentamente em marcha-atrás até ao pé da subida.

A segunda tentativa, ao meio-dia tinha conseguido 150 m antes do mesmo corte de potência. A terceira tentativa, à 1:30, tinha conseguido apenas 120 m. Cada tentativa o camião regredia em vez de progredir, porque a subida ia ficando mais escorregadia, conforme os pneus do Scania revolviam o barro, tornando o piso ainda pior para as tentativas subsequentes.

Atrás do Scânia, a fila de camiões aguardando para subir o morro do apuro tinha crescido até cerca de 40 veículos. eram camiões variados, Mercedes-Benz antigos, modelos de várias gerações, Volvos brasileiros mais novos, Scanias mais antigos, Iveco, Volkswagen, todos carregados com soja da exploração, todos com horários para cumprir nas cooperativas regionais, todos esperando que o Scania importado conseguisse subir para libertar a passagem.

Erivaldo estava ficando cada vez mais frustrado. Ao telefone com o despachante da empresa, estava a tentar perceber o que estava errado com o camião. O despachante, depois de consultar o suporte técnico da Scânia, estava a dizer que o camião estava a funcionar perfeitamente. O problema era a programação da proteção, que estava a cortar potência por segurança quando detetava patinagem excessiva.

era a proteção operacional correta, mas que tornava o camião inadequado para situações específicas, como aquela subida. Foi quando o velho Scania 113 H, de 1973, verde-escuro, saiu da fila de espera e aproximou-se da frente, parando junto do importado parado ao pé da subida. O camião era visivelmente antigo. 50 anos de funcionamento tinham deixado marcas evidentes na chapa, na pintura, em pequenos detalhes exteriores.

Mas o camião estava em condição operacional plena. Os pneus eram novos, o motor soava firme, a carroçaria estava reforçada com estrutura interna que apenas quem conhecia o veículo conseguia perceber. O motorista que desceu tinha 73 anos. Era o senhor Genival Carvalho. Era motorista profissional por conta própria.

Havia 56 anos. Tinha o Scânia, 113 Yaras de 1973. Havia 43 anos. Comprado em 1980 quando ainda era relativamente novo. Segundo dono. Genival rodava aquela região do interior goiano há décadas. Conhecia o monte do apuro como conhecia a palma da própria mão. Tinha subido o monte do apuro carregado em chuva forte dezenas de vezes ao longo dos anos, sempre passando sem problemas de maior.

Genival caminhou calmamente até onde Eriivaldo estava parado ao telefone com o despachante. esperou educadamente o motorista importado terminar a ligação. Quando Elivaldo desligou com expressão de derrota acumulada, Genival cumprimentou-o com um aceno simples e perguntou se podia oferecer alguma sugestão técnica.

Eivaldo olhou para o velho com aquela disposição específica de quem está suficientemente desesperado aceitar qualquer ajuda, mesmo que provenha de fonte aparentemente improvável. disse que aceitava qualquer sugestão. Genival explicou. Disse que o problema do Scania importado era específico e que tinha visto várias vezes ao longo dos anos com diferentes camiões modernos no Morro do Apuro.

O sistema eletrónico do camião estava cortando potência preventivamente quando detetava a patinagem prolongada. Era proteção concebida para evitar dano aos pneus e à transmissão. Em condições normais, era uma proteção apropriada, mas no monte do apuro com piso escorregadio, era proteção que tornava a subida impossível para o camião, porque alguma patinagem era inevitável naquela situação, e o sistema cortava potência exatamente quando o condutor mais precisava dela.

Ivaldo escutou com atenção crescente. Era a explicação que fazia sentido com o que tinha experimentado nas três tentativas. perguntou ao velho se havia alguma forma de desativar essa proteção temporariamente para conseguir subir. Genival respondeu que tecnicamente sim, mas que exigia entrar em modo específico do sistema eletrónico que normalmente só era acessível para os técnicos autorizados da concessionária.

Não era algo que o condutor comum tivesse acesso fácil. Erivaldo ligou novamente para o despachante e explicou. O despachante consultou novamente o suporte da Scânia. A resposta foi que sim. Era possível entrar em modo de manutenção que desabilitaria temporariamente a protecção de patinagem, mas que isso só poderia ser feito por técnico credenciado por questões de garantia do veículo.

O técnico credenciado mais próximo encontrava-se em Anápolis, a 85 km de distância. Seriam necessárias pelo menos duas horas para chegar se chegasse no mesmo dia. Eriivaldo estava cada vez mais frustrado. Estava a começar a aceitar que o camião dele ia ter de voltar para a estrada principal pela ré e aguardar por outra solução técnica, talvez no dia seguinte, quando o sol secasse mais o monte do apuro.

Foi então que Genival fez uma proposta diferente. disse que se Erivaldo concordasse, ele tentaria subir o monte do apuro com o próprio Scânia 113 H de 1973, carregado com 28 toneladas de soja na frente de todos. Se conseguisse, isso demonstraria visualmente que a subida era possível com a abordagem técnica correta.

Se conseguisse, Erivaldo poderia então tentar mais uma vez com o camião importado, talvez modificando a abordagem operacional para minimizar a patinagem que estava a ativar o corte de proteção. Erivaldo aceitou imediatamente. Era curiosidade técnica genuína misturada com necessidade prática de resolver a situação. E os 40 os condutores da fila atrás iam ter algo observar enquanto esperavam.

Genival regressou ao ScaniaH, manobrou cuidadosamente até à posição de partida no sopé da subida. Verificou pressão dos pneus uma última vez. Verificou que a carga estava bem distribuída. verificou que tudo estava em ordem no camião. Em seguida, ligou o motor. O som que saiu era inconfundível para qualquer profissional que percebia de Scania antigo.

Era o ronco característico do motor DS11, motor histórico da Scania, 8 L, 6 cilindros, turbocompressor mecânico simples, sem qualquer eletrónica de gestão. Era motor que entregava potência diretamente sob comando pedal do acelerador, sem mediação do sistema eletrónico nenhum, sem proteção automática de patinagem, sem nada que pudesse interferir entre a vontade do condutor e a tração das rodas.

Genival engrenou primeira marcha reduzida, soltou a embraiagem suavemente. O Scania 113H começou a subir o monte do apuro carregado com 28 toneladas de soja em piso escorregadio depois da chuva e subiu. Subiu sem parar, sem patinar excessivamente, sem que nenhuma proteção eletrónica interferisse.

Genival aplicou técnica específica que tinha desenvolvido ao longo de quatro décadas no monte do apuro. Mantinha a rotação do motor constante em gama otimizada para entrega de binário. Permitia a patinagem controlada quando necessário, sabendo intuitivamente quando deixar os pneus revolverem o barro um pouco para encontrar tração e quando aliviar para evitar afundar.

mudava de velocidades em pontos específicos da subida que conhecia de memória. Distribuía a carga sobre os pneus motrizes de forma a maximizar a tração disponível. Em 4 minutos e 40 segundos, o Scania 113H de 1973 chegou ao cimo do monte do apuro. Estacionou em terreno plano. Genival parou o motor, desceu calmamente, como se tivesse acabado de fazer uma operação trivial.

Atrás dele, a fila de condutores estava em silêncio. 40 Os camionistas tinham acabado de ver um camião de 50 anos subir carregado uma subida, onde o melhor camião importado moderno estava a patinar humilhantemente havia 3 horas. Erivaldo subiu a correr o monte do apuro a pé para encontrar Genival no topo. Quando chegou, estava ofegante, mas determinado a compreender o que tinha acontecido tecnicamente.

Perguntou ao velho o que tinha feito diferente. Genival explicou com paciência. Disse que tinha feito quatro coisas específicas. Primeiro tinha permitia a patinagem controlada em vez de tentar eliminá-la completamente. A patinagem em terreno escorregadio era inevitável e parte natural da operação. Tentar eliminá-la com proteção electrónica era luta perdida em situação como o monte do apuro.

Segundo, tinha mantido rotação do motor constante em gama específica, evitando picos de aceleração que iriam aumentar a patinagem para além do controlo. Terceiro, tinha mudado de velocidades em pontos específicos da subida que tinha aprendido por décadas de prática. Cada subida tinha pontos ótimos para troca de marcha.

E operadores que não conheciam estes pontos faziam trocas em momentos erros errados que comprometiam a atração. Quarto e principalmente tinha mantido o contacto mental constante entre o pé do acelerador e a tracção das rodas, sem deixar sistema eletrónico nenhum interferir nessa comunicação direta. Eriivaldo absorveu cada palavra. Era formação técnica que nunca tinha recebido formalmente.

Era exatamente o tipo de conhecimento que os profissionais veteranos transportavam, mas que raramente conseguiam transmitir aos profissionais mais jovens em formato estruturado. Voltou a descer o monte do apuro a pé para a posição do camião importado. Tinha plano. Ia tentar uma quarta vez, aplicando os princípios que tinha acabado de aprender.

não ia conseguir desativar a proteção eletrónica do Scania moderno sem o técnico acreditado, mas ia tentar minimizar a patinagem para que a proteção não fosse ativado, aplicando a técnica de rotação constante e troca de velocidades em pontos específicos que Genival tinha descrito. subiu à cabine, iniciou a quarta tentativa às 3:45 da tarde, engrenou primeira reduzida, soltou embraiagem suavemente.

O Scania importado começou a subir, aplicou as técnicas, manteve rotação constante em faixa específica, não acelerou abruptamente em ponto nenhum, trocou marcha em ponto que Genival tinha indicado como ótimo, a 140 m de subida, antes do ponto onde a inclinação aumentava ligeiramente. Manteve aceleração suave através de todo o trajeto.

A proteção eletrónica do Scania importado disparou três vezes durante a subida, mas de cada vez foi por períodos muito curtos, apenas alguns segundos, em pontos onde a patinagem foi mínima. O sistema cortou a potência durante dois ou três segundos, depois voltou a libertar. Erivaldo aprendeu rapidamente a aproveitar estes breves cortes para diminuir ligeiramente a aceleração, deixando o sistema relaxar antes de aumentar novamente.

Em 7 minutos e 12 segundos, o Scania importado chegou ao topo do monte do apuro. Carregado, sem parar, definitivamente, sem voltar. Erivaldo desceu da cabine no topo com expressão completamente diferente da que tinha durante as três primeiras tentativas. Não era expressão de triunfo arrogante, era expressão de humilde aprendizagem.

Tinha conseguido subir, mas só o conseguiu porque tinha aplicado técnica que o velho de Scania 103 H tinha ensinado. Caminhou até Genival, que aguardava próximo do próprio camião. Estendeu a mão. Os dois apertaram mãos durante vários segundos. Erivaldo agradeceu formalmente, perguntou se podia continuar a aprender com Genival noutras ocasiões.

Genival respondeu com calma. Disse que estava disposto a ensinar quem quisesse aprender sem cobrar. Era a forma dele preservar conhecimento que tinha levado seis décadas para construir. Disse que se Eivaldo tivesse oportunidade fosse visitá-lo na sua quinta em Anápolis algum fim de semana. tinha muito conhecimento prático para partilhar.

Erivaldo prometeu ir. Não foi uma promessa vazia. Foi visitar Genival três vezes durante os meses seguintes. Aprendeu mais técnicas. Aplicou no trabalho diário. Tornou-se ao longo de 2024 motorista reconhecido pela transportadora como especialista em operações em terreno difícil. Foi promovido a coordenador técnico em janeiro de 2025.

Mas o efeito mais profundo daquela tarde de outubro foi nos 40 camionistas que tinham assistido a tudo da fila de espera. A história espalhou-se rapidamente. Cada um dos 40 condutores contou em postbustível, em paragens de estrada, em conversas com colegas. A história do Scania 113 de 1973, que tinha subido o monte do apuro carregado quando o Scania R660 importado tinha falhado três vezes, tornou-se referência regional.

A transportadora proprietária do Scania importado alterou as políticas operacionais em consequência do que tinha acontecido. Estabeleceu programa de formação adicional para os motoristas que operavam em percursos com subidas difíceis. O programa incluía a contratação de consultores veteranos para transmitir técnicas tradicionais.

Genival foi um dos primeiros consultores contratados. recebeu valor modesto pelas consultorias, mas o reconhecimento profissional foi significativo. O Scania 113 H de 1973 continua na operação de Genival. Em 2025, com 52 anos de idade, o camião ainda corre em rotas regionais. Genival completou 75 anos em 2025 e está reduzindo o ritmo.

Tem treinado o sobrinho mais novo, Cléber, de 28 anos. para eventualmente assumir o camião e a operação. Cléber demonstra capacidade técnica e interesse genuíno na continuidade. O monte do apuro continua sendo o monte do apuro. Continua a ser desafio sério para qualquer camião moderno em dia de chuva. Mas agora, depois da história de outubro de 2023, Os condutores modernos que enfrentam o Morro do Apuro pela primeira vez geralmente perguntam antes a colegas mais experientes sobre técnicas específicas para subir aquela subida. A

história do velho do 113 passou a fazer parte do conhecimento informal partilhado entre os motoristas que operam naquela região. O importado patinou na subida porque a sua programação de proteção eletrónica projetada para condições normais interferia numa situação específica que exigia maior tolerância à patinagem controlada.

Não era falha do equipamento, era inadequação entre programação genérica e condição específica do morro do apuro. de 1963 passou carregado sem parar porque transportava motor com características operacionais que tinham sido removidas dos motores modernos por boas razões, mas que ainda tinham valor em situações específicas, combinado com o condutor que tinha 60 anos de conhecimento prático sobre aquela subida específica.

A lição dessa tarde não foi sobre tecnologia antiga superior à moderna. foi sobre como cada tecnologia tem aplicação ideal e como combinar conhecimento prático tradicional com Os equipamentos modernos frequentemente produz melhor resultado do que apostar exclusivamente em qualquer dos dois isoladamente. Erivaldo aprendeu essa lição.

Os outros motoristas que assistiram a tudo levaram a lição para as suas próprias operações. A transportadora de São Paulo mudou políticas operacionais. Genival passou a ensinar formalmente o que tinha aprendido informalmente durante seis décadas. E em algures no interior goiano, em dia chuvoso de outubro, um Scania 113H verde escuro vai estar pronto para subir o Morro do apuro mais uma vez quando necessário, não como ferramenta principal de operação, mas como reserva técnica preciosa para situações específicas onde a tecnologia moderna

sozinha encontra os seus limites operacionais. Esse é o local apropriado para equipamento como o de Genival. não é substituto da modernidade, é complemento essencial dela e vai continuar a ser enquanto houver Cléber Carvalho aprendendo com o tio, enquanto houver Eriivaldo Souza a ensinar aos condutores mais novos o que aprendeu com o velho, enquanto houver memória institucional dentro das transportadoras grandes sobre o valor de manter O conhecimento tradicional vivo, quando essa memória institucional desaparecer.

Quando o último Cléber se aposentar sem ter ensinado ninguém, quando os últimos Eivaldos terem-se aposentado também, por isso sim, alguma capacidade operacional vai perder-se definitivamente do Brasil. Mas até lá, em outubro de cada ano, vai continuar a ter velhos de Scânia 113 verde-escuro, subindo o monte do apuro carregado de soja, lembrando a todo o mundo que 50 anos de experiência prática ainda valem alguma coisa em terra de Barro Vermelho. Jo.

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