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ROBERTO DINAMITE: CONFESSOU ANTES DE MORRER O QUE FEZ COM A MULHER NA MACA

Maior goleador da história do Campeonato Brasileiro, ídolo do Vasco da Gama, duas vezes mundialista. E esse mesmo homem, morto numa maca por uma escura doença, que o perseguia desde os 12 anos e que nunca contou ao mundo. Pouco antes vendo a própria mulher destruída numa mesa de operações num hospital do Rio de Janeiro, deixando sozinhas duas filhas pequenas em casa, à espera da mãe que já não voltou.

Hoje saberá a verdade brutal do que realmente aconteceu no dia da sua morte e a doença que escondeu até ao dia da morte. Mais escuro ainda, como foi aquela sala de operações do Rio de Janeiro, onde a sua mulher faleceu. Mas antes, irmão, precisa de compreender como Roberto, pobre de Duque de Caxias, virou dinamite.

Duque de Caxias é um subúrbio pobre da zona norte do Rio de Janeiro. Casas de madeira, ruas de barro, estação de comboio, onde os operários descem às 5 da manhã a carregar marmita e sobem às 9 da noite com o corpo destruído do porto. Nos anos 50, quase ninguém de Duque de O Caxias entrava na primeira divisão do futebol brasileiro.

É aí que nasce Carlos Roberto de Oliveira, em 13 de Abril de 54, terceiro filho de uma família de seis, pai operário da prefeitura do Rio, mãe dona de casa. Irmãos mais velhos a trabalhar na rua aos 15 anos para ajudar com o dinheiro de casa. A família toda era do Vasco da Gama. O pai levava o pequeno Carlos Roberto ao estádio de São Januário desde os 4 anos.

Sentava-o no ombro durante as partidas. Contava quem tinha sido Vavá, que tinha sido Beline. Aos 5 anos, já jogava descalço na rua de Barro, em frente à casa, com uma bola de pano atada com cordão. Aos sete, os Os vizinhos do bairro começaram a notar que o miúdo do Oliveira tinha algo diferente nos pés. Driblava molecada de 10, sem esforço, chutava com as duas pernas, mas aos 12 anos chegou o primeiro aviso. Março de 66.

O pai notou durante várias semanas que o miúdo andava diferente, coxeava um pouco ao subir as escadas, queixava-se de uma dor surda na parte de trás da perna esquerda em cima do joelho. Até que o garoto acordou numa madrugada a chorar com a coxa esquerda inchada do tamanho de uma laranja.

A mãe carregou-o até ao hospital municipal de Duque de Caxias. O médico de serviço apalpou a perna e ficou em silêncio vários minutos antes de falar. mandou o miúdo ao consultório de um especialista do centro do rio. O especialista fez radiografias, tirou uma amostra com uma agulha comprida, mandou a amostra ao laboratório. Uma semana depois, fechou a porta da sala, sentou o pai e a mãe em duas cadeiras de madeira, deixou o miúdo do lado de fora com uma revista velha e disse-lhes que o miúdo tinha um tumor no osso da perna esquerda, duas cirurgias distintas, uma palavra técnica comprida, que soava a sentença que nem o pai nem a mãe tinham escutado na vida.

O pai, que mal tinha terminado o ensino primário, pediu ao médico que repetisse. O médico repetiu. O pai pediu-lhe que escrevesse. O médico escreveu num pequeno papel. O pai guardou o papel no bolso das calças. Três dias depois, escondeu numa caixa de sapatos dentro do armário do quarto matrimonial. E a família decidiu nessa mesma tarde no consultório, que o miúdo Carlos Roberto nunca ia saber o que dizia exatamente o papel. Disseram ao miúdo apenas duas coisas, que tinha uma bolinha estranha na perna e que o médico ia tirar para que pudesse voltar a jogar futebol.

As duas cirurgias foram em maio e em julho do 66. Hospital municipal de Duque de Caxias, anestesia geral. Cicatriz de 14 cm na parte de trás da coxa esquerda que durante o resto da carreira de Roberto Dinamite ficou escondida debaixo do calção do Vasco. Nenhum jornalista desportivo do Brasil soube nunca porque estava ali. O pequeno papel com a palavra técnica do especialista ficou intacto na caixa de sapatos do armário os 57 anos seguintes. Guarda esse dado, irmão. A caixa de sapatos, o papel, a palavra técnica, os 57 anos de silêncio. Vamos voltar nisso.

Os médicos disseram ao pai que o miúdo ia poder andar normal, mas que provavelmente não ia voltar a correr forte, nem a fazer esforço de competição durante vários anos. A perna esquerda ia ficar mais fraca que a direita. O pai escutou o médico, sentiu-a com a cabeça e nunca repetiu ao miúdo uma só palavra daquele prognóstico. A única coisa que fez foi comprar no regresso uma bola de couro nova. custou ao pai o equivalente a três dias de salário completo da câmara municipal. Entregou a bola ao miúdo no portão da casa com uma única frase. Disse: “Agora vai jogar a sério.”

O miúdo saiu pro campo de terra batida e chutou 1 hora e meia seguida. Voltou para casa com a coxa inchada de novo. A mãe colocou o gelo. O pai fingiu não ver. Isso repetiu-se todos os dias durante 4 anos. Aos 16, Carlos Roberto era o melhor miúdo do norte do Rio inteira. Um olheiro do Vasco chamado Dr. Aníbal Borges viu-o num torneio amador do subúrbio. Ficou parado na linha do campo durante todo o partida sem se mexer. No final foi falar com o pai.

Trs meses depois, Carlos Roberto assinava contrato profissional com o Vasco da Gama. Tinha 17 anos. A cicatriz de 14 cm na perna esquerda não apareceu em nenhum exame médico do clube e o pai decidiu que enquanto o moleque pudesse jogar a palavra técnica do consultório do 66 estava na caixa de sapatos do armário.

A estreia de Carlos Roberto no time profissional do Vasco foi contra o Internacional de Porto Alegre pelo Campeonato Brasileiro, Maracanã, com 60.000 pessoas. O miúdo entrou do banco no final da primeira parte, substituindo um atacante veterano com o tornozelo magoado. Aos 7 minutos do segundo tempo, recebeu um lançamento longo do Brito dentro da área do Internacional. Ajeitou a bola com a coxa esquerda, a mesma perna que 5 anos antes tinha sido operada duas vezes e cruzou com o pé direito dentro do ângulo do guarda-redes gaúcho. Golo! Estreia com gol do moleque de 17 anos no Maracanã. Às 9 da noite, o redator esportivo do Jornal dos Esportes, Aparício Pires, escreveu na primeira página do diário: “O garoto dinamite explodiu”.

O pai comprou três cópias do diário na banca da esquina. Guardou uma na caixa de sapatos do armário, ao lado do pequeno papel do especialista do 66. Em duas semanas, a imprensa esportiva do Rio já chamava ele só de dinamite. Em seis meses, o Brasil inteiro pegou, viu? O apelido do miúdo deixou de ser Oliveira e tornou-se dinamite. Roberto Dinamite, com R, com N e com som de bomba que rebentava cada vez que o miúdo chegava perto da área adversária.

Fevereiro de 72, o miúdo do Vasco tinha 17 anos e 9 meses. Era titular da equipa principal, vivia ainda na casa dos pais. Andava de autocarro igual a qualquer operário do bairro. Numa tarde de Carnaval, dentro de um autocarro da linha da praça Mauá até Duque de Caxias, sentou-se ao lado de uma rapariga morena que usava um vestido florido. Tinha 24 anos, era 6 anos mais velha que ele. Era viúva, tinha um filho pequeno em casa, chamava-se Jurema Crispin. Conversaram 30 minutos durante o trajeto. A Jurema desceu no seu ponto antes do moleque. Antes de descer, disse onde ia estar no sábado seguinte num baile de carnaval do bloco do bairro Caju. O miúdo anotou num papel pequeno. No sábado foi ao baile. Dançou com a Jurema 6 horas seguidas. Às 4 da manhã caminharam até o ponto do autocarro de mãos dadas pela primeira vez.

Mas o namoro começou com um problem. As duas famílias não aceitavam. A família do Roberto não aceitava porque a Jurema era 6 anos mais velha, viúva e com um filho de 3 anos. A família da Jurema não aceitava porque o miúdo era um futebolista de 17 anos recém-completados, sem estudos, com o corpo cheio de cicatrizes que ninguém da família percebia de onde vinham. E o gajo era 6 anos mais novo que ela. A massa adepta do Vasco também não aceitava. Nesses anos, os ídolos do clube tinham de casar com raparigas escolhidas pela direção. A Jurema era uma mulher do bairro do Caju, separada cedo demais pela morte do primeiro marido, considerada pela claque mais conservadora do Vasco como inadequada pro futuro ídolo da Cruz de Malta. Romeu e Julieta do subúrbio do Rio dizia a imprensa desportiva três anos depois.

Casamento clandestino, estás a ver? Escondido de pai, de mãe e de adeptos. No dia 22 de Dezembro de 72, casaram numa pequena igreja do bairro da Penha, 50 convidados. O pai do miúdo chorou durante toda a cerimónia. A mãe da Jurema chorou também de tristeza, porque seguia sem aceitar o casamento. A claque do Vasco não foi, a imprensa desportiva também não. Durante os 11 anos seguintes, Jurema Crispin foi também a empresária do marido, a que negociava os contratos com os dirigentes do Vasco. A que no 79 aceitou a oferta do Barcelona e assinou os papéis do primeiro passe do Roberto para o futebol europeu. que em 1980, depois de o miúdo não se ter adaptado ao futebol catalão, organizou o regresso ao Vasco e a festa com 100.000 pessoas no Maracanã.

Tiveram duas filhas, Datiana no 74, Luciana no 77. A Jurema criou também como próprio o filho do primeiro casamento, Alexandre, que no 84 já tinha 15 anos. Em Julho de 83, durante uma viagem do Vasco a São Paulo, a Jurema começou a sentir-se mal de forma contínua, cansaço extremo, náusea, dor no lado direito das costas. No começo atribuiu ao cansaço até que em Agosto de 83 foi a uma consulta médica particular num consultório do bairro de Botafogo, sem avisar ao marido. Três dias depois, o médico fechou a porta da sala, sentou-a numa cadeira, deu o diagnóstico. Insuficiência renal crónica, doença inflamatória sistémica. Os rins estavam a funcionar a 30%. Hemodiálise três vezes por semana enquanto esperavam transplante. Lista de espera por um rim no Rio em 83, 18 meses.

A Jurema escutou o médico sem chorar, pagou a consulta, saiu e caminhou dois quarteirões até ao Café Lamas. Sentou-se numa mesa do fundo, tirou da bolsa uma pequena agenda e anotou três coisas. A terceira foi uma frase de três palavras que dois anos depois a filha da A Tiana ia ler e guardar o resto da vida sem o mostrar a ninguém. A frase dizia: “O Roberto não.” O Roberto não, irmão. Três palavras. Pode parecer pouco, mas vamos voltar nestas três palavras no final. A Jurema decidiu não contar nada ao marido, fazer a hemodiálise três vezes por semana em segredo, esperar pelo transplante sozinha.

A Jurema aguentou 11 meses em silêncio. 11 meses a fazer hemodiálise nas segundas, quartas e sextas-feiras às 6 da manhã numa clínica do bairro da Tijuca, para onde ia sozinha de táxi enquanto o Roberto treinava em São Januário. 11 meses a cuidar das filhas, gerindo os contratos do Vasco, escondendo os hematomas que ficavam nos braços pela diálise. No dia 7 de Agosto de 84, os rins começaram a falhar por completo. a internaram de urgência no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, conhecido no Rio como o Hospital do Fundão. Explicaram que precisavam de uma intervenção cirúrgica menor para introduzir um cateter venoso central. 40 minutos de cirurgia, mortalidade operatória inferior a 1%.

Naquela mesma tarde, pela primeira vez in 11 meses, a Jurema decidiu contar ao marido o que estava a acontecer. O Roberto chegou ao hospital às 9 da noite. Encontrou-a num quarto do sétimo andar, com soro no braço direito, com o rosto inchado. Sentou-se na cama, pegou na mão dela. A Jurema contou durante 1 hora e meia tudo o que tinha acontecido desde agosto do ano anterior. Consulta do Café As lamas, a hemodiálise secreta, a cirurgia do cateter para o dia seguinte ao meio-dia. O Roberto Dinamite escutou sem interromper. Quando ela terminou, levantou-se, saiu do quarto, caminhou até à casa de banho do corredor, fechou a porta com tranca e chorou durante 40 minutos. Às 11 da noite, voltou a pro quarto, deitou-se ao lado da Jurema, na cama estreita do hospital. Os dois dormiram juntos 6 horas.

No dia 12 de agosto de 84, às 12h10 da tarde, a Jurema Crispin entrou na sala de operações número 3 do sétimo piso do hospital do Fundão. O Roberto Dinamite ficou na sala de espera com as duas filhas. Datiana tinha 10 anos, a Luciana tinha sete. As duas sentadas em cadeiras de plástico verdes, olhando o pai que não se mexia. Às 12:35, uma enfermeira saiu da sala de operações com passo rápido e chamou o cirurgião de plantão. Às 12:40 entraram dois médicos a mais. Às 12:47 saíram três enfermeiras com bacias com materiais que o Roberto Dinamite não chegou a identificar. A 1 e do cirurgião principal saiu da sala de cirurgia. Chamava-se Dr. José Henrique Lima, 47 anos, chefe do departamento de cirurgia vascular do Fundão. Avental verde com manchas de sangue no peito. Caminhou até ao local onde o Roberto estava sentado com as filhas. Sentou-se numa cadeira de plástico verde à frente deles. Falou 90 segundos.

explicou que durante a cirurgia a Jurema tinha sofrido um evento embólico imprevisto. Um coágulo de sangue tinha-se desprendido no momento da introdução do catéter na veia jugular direita. Tinha percorrido pelo sistema circulatório até aos pulmões. A equipa tinha tentado reanimar 18 minutos. Tinham entubado, tinham tentado a massagem cardíaca direta, o coágulo era demasiado grande. O Dr. Lima disse a frase que o Roberto Dinamite ia guardar o resto da vida, palavra por palavra. disse: “A sua mulher morreu na marquesa de cirurgia às 12:58 desta tarde.”

12:58, irmão. 48 minutos depois de entrar na sala de operações para uma cirurgia de 40 minutos por um coágulo que não aparecia em nenhum estudo prévio por uma complicação menor a 1% de probabilidade estatística. E pronto, a mulher do ídolo do Vasco morta numa maca de hospital com duas filhas pequenas à espera dela em casa. Você imagina, viste? Imagina ser este gajo. O Roberto Dinamite não disse nada durante vários minutos. Ficou sentado na cadeira de plástico verde com as duas filhas dos lados, olhando o cirurgião sem piscar. Depois levantou-se, pegou nas duas meninas pela mão, caminhou até ao elevador do sétimo andar, desceu ao estacionamento, subiu para o carro com as filhas no banco de trás, conduziu até ao casa do bairro da Penha, sem ouvir o rádio, estacionou em frente à porta, desligou o motor, ficou sentado ao volante durante 40 minutos em silêncio.

A única coisa que disse naquela tarde, antes de entrar em casa com as duas filhas foi uma frase curta dirigida a Datiana, a mais velha. disse: “Tua mãe não vai voltar mais para casa.” As filhas tinham 10 e 7 anos. Estavam esperando a mãe desde amanhã. Tinham deixado o café da manhã preparado em cima da mesa da cozinha. Dois pães com manteiga e um copo de leite. O café da manhã ficou intacto sobre a mesa da cozinha os três dias seguintes. Ninguém comeu, viu? Nem o pai, nem as filhas, nem o Alexandre. Aquele café ficou ali três dias esperando uma mãe que não voltou.

O enterro da Jurema Crispim foi no 14 de agosto de 84, cemitério do bairro Caju, o mesmo bairro onde 11 anos antes o Roberto Dinamite tinha conhecido ela naquele baile de carnaval. 400 pessoas, os dirigentes inteiros do Vasco, os companheiros de time, jornalistas que durante 12 anos tinham tratado com a viúva do Rio, que tinha virado a empresária mais respeitada do futebol carioca. O Roberto Dinamite carregou o caixão com três companheiros de time durante os 200 m que separavam o portão do cemitério do lugar do enterro. Não falou com ninguém, não cumprimentou ninguém. Quando baixaram o caixão ao fundo do túmulo, as duas filhas da Tiana e Luciana estavam ao lado dele. Alexandre, o filho do primeiro casamento da Jurema, também os três meninos, sem saber direito o que acontecia, olharam o pai durante toda a cerimônia, esperando um sinal que não chegou.

Em três semanas depois do enterro, o Roberto Dinamite voltou a treinar em São Januário. Os dirigentes do Vasco não pediram para ele voltar. voltou por decisão própria. Chegou ao campo de treinamento numa segunda às 8 da manhã com a mochila no ombro, cumprimentou o roupeiro, se trocou em silêncio, fez os exercícios do dia e no final do treino ficou sozinho no campo durante 40 minutos cobrando faltas no gol vazio. Aquela rotina do treino sozinho no final, o ídolo do Vasco repetiu todos os dias dos 14 meses seguintes. chegava com o time, saía depois que o último companheiro deixava o vestiário, cobrava 40 minutos, voltava para casa. As duas filhas o esperavam com a comida já servida, porque o Alexandre, que aos 15 anos tinha virado o cuidador improvisado das irmãs pequenas, tinha aprendido a cozinhar arroz e feijão pros três.

Dois meses depois do enterro, em outubro de 84, Datiana, a filha mais velha, abriu a gaveta de cima da cômoda do quarto matrimonial, procurando um pente. Fundo da gaveta, embaixo de uma blusa da Jurema, que cheirava ainda ao perfume Old Toyilete do Boticário, encontrou uma agenda pequena de capa marrom. Datiana tinha 10 anos, sabia ler. Abriu a agenda na primeira página, começou a foliar, chegou a uma página onde a mãe tinha anotado três coisas em letra apressada. A data ao lado dizia: 12 de agosto do 83. Hemodiálise: segundas, quartas e sextas. Lista transplante, 18 meses. O Roberto não. Datiana não entendeu as duas primeiras anotações, mas entendeu a terceira. O Roberto não. O Roberto não. O quê? O Roberto não podia saber. O Roberto não podia estar. O Roberto não podia sofrer. A filha guardou a agenda, fechou a gaveta e durante os 39 anos seguintes nunca mostrou aquela página a ninguém, nem ao pai, nem a irmã Luciana, nem ao Alexandre, nem a madrasta Liliane, que ia chegar à família 3 anos depois. A agenda ficou na gaveta de cima da cômoda até janeiro do 23, quando Datiana, depois do enterro do pai, finalmente tirou ela do fundo e leu em voz alta pra família inteira.

A temporada do 85 do Vasco da Gama foi uma das melhores da história do clube. Roberto Dinamite, com 31 anos de idade e com a cabeça ainda quebrada pela morte da Jurema, fez 28 gols no Campeonato Carioca. O Vasco foi campeão estadual. A torcida da Cruz de Malta gritou o nome do ídolo todos os domingos daquele ano durante 90 minutos seguidos. Nas entrevistas posteriores aos jogos, o Roberto Dinamite respondia sempre às mesmas duas ou três frases curtas. agradeceu ao time, dedicou o gol às filhas, voltou ao vestiário sem acrescentar nada mais. A imprensa esportiva do Rio respeitou o luto durante todo o 85. Nenhum jornalista fez perguntas sobre Jurema, sobre as filhas ou sobre o que ia acontecer depois.

As portas do 86, duas coisas aconteceram na vida do Roberto Dinamite, que mudaram a direção dos meses seguintes. A primeira foi uma mulher. Liliane Martins era recepcionista da sede administrativa do Vasco da Gama, no bairro de São Cristóvão. Tinha 29 anos, era separada, sem filhos. O Roberto tinha visto ela durante anos, todas as segundas e quartas quando ia assinar papéis na sede. Tinham conversado talvez 20 vezes no total. Frases curtas: “Cumprimento da manhã, comentário sobre o tempo.” Em Dezembro de 85, Roberto Dinamite convidou-a para tomar um café numa confeitaria do bairro do Botafogo. A confeitaria se chamava-se Confeitaria Colombo, uma filial antiga da tradicional do centro do Rio. Conversaram 30 minutos durante o trajeto. A Liliane contou da separação recente, o Roberto contou das filhas. Não mencionaram a Jurema durante toda a conversa. Quando se levantaram da mesa, eram já 11 da noite e a confeitaria estava a fechar.

A segunda coisa que mudou a vida do Roberto Dinamite à portas do 86 foi uma ligação telefónica. A casa do Roberto Dinamite situava-se na rua Goiás do bairro da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro. Casa de dois andares com um pequeno quintal no fundo e um telefone preto em baquelite instalado em cima de uma pequena mesa de madeira ao lado da sala. O telefone tocava em média quatro vezes por dia. Jornalistas, patrocinadores, familiares, colegas de equipa, funcionários do Vasco, mas tinha uma ligação que Roberto Dinamite estava esperando desde Outubro de 85, a ligação da Confederação Brasileira de Futebol, a que confirmava que o goleador do Vasco da Gama estava na lista preliminar de convocatória pra Copa do Mundo do México do 86.

Nesse momento, a selecção brasileira era treinada por Telê Santana, o mesmo técnico que 3 anos e meio antes, no Mundial da Espanha do 82, tinha levado o Roberto Dinamite como reserva do avançado-centro titular Careca. O mesmo técnico que durante toda aquela Taça de Espanha, 32 anos antes do momento em que estou contando isto, não tinha colocado o ídolo do Vasco da Gama nem um único minuto dentro do campo, em nenhum dos cinco jogos que a seleção disputou nesse torneio. Cinco jogos, zero minutos. Banco do Sarriá, os 90 minutos de cada jogo. Guarda esse dado, irmão. A Mundial de 82, o banco do Sarriá. Os cinco jogos 100 minutos. Vamos voltar.

Mas as portas do 86, o Roberto Dinamite tinha 31 anos, era melhor marcador do Vasco da Gama por 9o ano consecutivo e tinha feito a melhor época estadual da história recente do clube. A imprensa desportiva inteira do Brasil dava por certo que ia estar convocado para o Mundial do México. As casas de apostas do Rio de Janeiro já tinham Roberto Dinamite como um dos goleadores favoritos do torneio. A revista Placar tinha colocado o ídolo do Vasco na capa do número de Janeiro de 86 com o título Caminho para o México. Roberto Dinamite estava à espera só do papel oficial.

O telefone preto em baquelite em cima da mesinha de madeira do bairro Penha tocou pela primeira vez relacionado com a convocação no 14 de fevereiro às 16h20. Antes daquela chamada do 14 de fevereiro, durante as quatro semanas anteriores, o telefone de casa do Roberto Dinamite tinha tocado uma média de 12 vezes por dia. Jornalistas a pedir entrevistas prévias ao Mundial, patrocinadores desportivos oferecendo contratos publicitários atados à convocação. Familiares de Duque de Caxias a ligar para perguntar se já tinha a confirmação. Os vizinhos do bairro Penha a pedir autógrafos em camisolas que pensavam levar ao estádio Azteca do México no dia em que o Brasil estreasse no torneio.

À Liliane, que já vivia com Roberto na casa do bairro Penha desde Fevereiro de 86, sem ainda estar oficialmente casados, tinha-se tornado a secretária informal do ídolo do Vasco. Atendia ela própria o telefone quando o Roberto estava em treino. Anotava mensagens num caderno pequeno que mantinha ao lado do aparelho. repetia ao marido à noite as chamadas mais importantes do dia. O caderno de 14 de fevereiro tinha registadas sete chamadas até às 4:20 da tarde. A oitava chamada do dia foi a do Dr. Aldo Rebelo da Confederação Brasileira de Futebol. A Liliane estava na sala a ver a novela da TV Globo. As duas filhas estavam na cozinha a preparar o lanche. Alexandre estava estudando no quarto do primeiro andar.

O Roberto Dinamite estava sentado na poltrona do fundo da sala, a ler o caderno de desporto do Jornal do Brasil. Atendeu o telefone ao terceiro toque. Do outro lado da linha estava um funcionário da Confederação Brasileira de Futebol chamado Dr. Aldo Rebelo. O Dr. Rebelo era o secretário geral da entidade. Trabalhava no departamento de seleções. Havia 18 anos. Conhecia o Roberto Dinamite desde 1975, quando o miúdo de 21 anos tinha sido convocado pela primeira vez para a seleção brasileira pelo técnico Coutinho. O Dr. Rebelo pediu ao Roberto Dinamite que se sentasse antes de começar a falar. O Roberto Dinamite, ainda de pé, ao lado da mesinha do telefone disse que estava sentado. Era mentira.

O secretário-geral da CBF respirou do outro lado da linha e iniciou a conversa com uma frase que o ídolo do Vasco da Gama não esperava naquela tarde. Disse: “Roberto, antes que isto saia nos jornais, o técnico O Telê Santana pediu-me que te avisasse diretamente: “O teu nome não está na lista preliminar de 40 jogadores para a Taça do Mundo do México. O teu nome não está.” Você consegues imaginar essa porrada, irmão? O goleador maior da história do brasileiro no auge da carreira em casa, receber uma chamada assim, pá, é demais.

O Roberto Dinamite ficou em silêncio do outro lado da linha durante 18 segundos, segundo o relógio de pulso do Dr. Rebelo, que tinha começou a contar os segundos para escrever depois um relatório interno daquela ligação. 18 segundos exatos. Depois, o ídolo do Vasco da Gama falou com voz neutra, sem tremer, sem levantar a voz, sem acrescentar adjetivos. Perguntou: “Qual foi o motivo.” O Dr. Rebelo explicou que o técnico Tel Santana tinha decidido apostar num ataque mais novo, que Careca era o avançado centro titular. Que éedinho do Atlético Madrid, Casagrande do Corinthians, Renato Gaúcho do Grêmio e Müller do São Paulo eram as opções do banco, que Roberto Dinamite, com os seus 31 anos completados não entrava no projeto do treinador para o Mundial do 86.

O Roberto Dinamite escutou a explicação inteiro sem interromper. Quando o secretário da CBF terminou, agradeceu a ligação com três palavras. disse: “Obrigado, Dr. Rebelo.” Desligou o telefone, ficou parado junto da mesinha de madeira durante quatro ou 5 minutos sem se mexer, olhando para a parede branca do fundo da sala. A Liliane entrou na sala desligando a televisão, aproximou-se do Roberto, pegou-lhe na mão dele e perguntou o que tinha acontecido. As duas filhas, Datiana e Luciana, chegaram também da cozinha com o lanche nas mãos. Roberto Dinamite respondeu com uma frase de seis palavras. dirigida a Liliane e as filhas ao mesmo tempo, disse: “Não vou ao Mundial do México”. Não acrescentou mais nada. Subiu ao quarto do primeiro andar, fechou a porta, esteve no interior durante 6 hours. Quando desceu para jantar já era quase meia-noite.

Três meses depois, em maio de de 86, Roberto Dinamite viu a Taça do Mundo do México do sofá do fundo da sala da casa do bairro da Penha. Viu a estreia do Brasil contra a Espanha. viu o jogo frente à Argélia, viu o empate frente à Irlanda do Norte, viu o 5-0 contra a Polónia nos oitavos, viu a eliminação do Brasil contra a França nas quartos de final no dia 21 de junho de 86. O jogo dos penaltis falhados do Sócrates, do Júlio César e do Zico. O ídolo do Vasco da Gama viu os cinco jogos do Mundial do México do sofá do fundo da sala, sem se levantar, sem se mexer, com a Liliane ao lado em silêncio, com as duas filhas pequenas a fazer os trabalhos escolares em cima da mesinha do telefone preto de Baquelite, por onde três meses antes tinha chegado a notícia do Dr. Rebelo.

Mas o 14 de Fevereiro do primeira vez que o selecionador Telê Santana decidiu não contar com Roberto Dinamite para um mundial. 3 anos e meio antes, no Verão de 82, o Roberto Dinamite tinha sido convocado pelo mesmo Telê Santana para integrar a seleção brasileira que disputou o Mundial da Espanha. Aquela seleção de Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo, Júnior, Éder, a geração que a imprensa desportiva mundial considera a melhor seleção brasileira que nunca ganhou um mundial, a que perdeu contra a Itália no Sarriá no 5 de Julho de 82 por 3-2 no jogo que selou o destino do torneio. Roberto Dinamite esteve nessa convocatória como reserva do avançado-centro titular Careca, mas o Careca lesionou-se três semanas antes do torneio.

Durante um jogo do São Paulo no Campeonato Brasileiro, o médico da seleção descartou o Careca da lista definitiva do Mundial e o Telê Santana, que tinha Roberto Dinamite como segundo avançado-centro do banco, manteve-o na lista, mas decidiu alterar o esquema tático da seleção para jogar sem avançado centro clássico. O que aconteceu naquele torneio de Espanha é o que vem a seguir. O Brasil ganhou a estreia frente à União Soviética por 2-1 com golos de Sócrates e Éder. Roberto Dinamite ficou os 90 minutos no banco. Depois veio a vitória contra a Escócia por 4-1 com golos de Zico, Oscar, Éder e Falcão. Banco novamente para o artilheiro do Vasco contra a Nova Zelândia, jogo em que o Brasil venceu por 4-0. O avançado centro titular foi Serginho Chulapa do São Paulo, que o Telê tinha colocado no lugar do Careca lesionado. Roberto Dinamite viu o jogo da linha lateral.

A vitória contra a Argentina por 3-1 no Sarriá foi presenciado pelo ídolo do Vasco também do banco, vestido com uniforme de aquecimento, sem ter saído para aquecer em nenhum momento do segundo tempo. E a eliminação do Brasil frente à Itália por 3-2 do 5 de julho do 82. O jogo final da selecção nesse torneio terminou sem que Roberto Dinamite tivesse tocado na bola em território espanhol durante os cinco jogos. 450 minutos de futebol oficial, irmão. O goleador do Vasco da Gama, o melhor marcador do Campeonato Brasileiro da história, sentado no banco do Sarriá os cinco jogos consecutivos. Zero minuto, zero toque na bola, zero hipóteses de mostrar serviço.

O Telesantana nunca explicou ao Roberto Dinamite porque não tinha-o colocado nem durante o torneio, nem depois do torneio, nem nas 20 vezes que se encontraram por acaso nos 37 anos seguintes nos aeroportos, estádios, hotéis e eventos oficiais do futebol brasileiro. Até o dia da morte do Telantana, a 21 de Abril do 22, o técnico nunca falou publicamente sobre a decisão de não utilizar Roberto Dinamite no Mundial de Espanha do 82. E o Roberto Dinamite, depois da chamada do Dr. Belo de 14 de Fevereiro, depois de ver o Mundial do México do sofá do fundo da sala do bairro da Penha durante os 37 anos seguintes até ao dia da própria morte no dia 8 de Janeiro do 23, também nunca falou publicamente sobre o que Telantana lhe tinha feito em dois mundiais seguidos. A imprensa desportiva brasileira não ligou nunca as duas coisas numa única história. No 82 não conectou. No 86 também não. No 23, quando o enterraram, nenhum jornal desportivo do Brasil tocou no assunto. Até hoje, irmão, até esse vídeo.

Depois do 21 de Junho de 86, dia em que o Brasil foi eliminado do Mundial do México contra a França nos quartos de final, o Roberto Dinamite não voltou a falar da seleção brasileira em nenhuma entrevista pública durante os 37 anos seguintes. Durante os 6 anos que se seguiram, até ao final da carreira no 92, o ídolo do Vasco da Gama marcou mais 128 golos pelo clube. Levou total à cifra que ia ficar de recorde histórico até ao dia da morte. 708 golos pelo Vasco, mais do que nenhum outro jogador. E 190 golos no Campeonato Brasileiro marca que no momento da contar esta história, em 26 continua a ser o recorde vigente do futebol brasileiro.

No 87, 12 meses depois do Mundial do México, Roberto Dinamite casou com Liliane Martins numa pequena cerimónia na igreja de Nossa Senhora da Penha. As duas filhas da Tiana e da Luciana foram as madrinhas. Alexandre levou as alianças. A claque do Vasco desta vez sim mandou uma delegação oficial ao casamento. A Liliane e o Roberto tiveram dois filhos nos 6 anos seguintes. A Roberta nasceu no 89, o Rodrigo no 92, o mesmo ano da reforma profissional do pai. Rodrigo foi o único filho varão biológico do Roberto Dinamite. Anos depois, na adolescência, jogou o futebol profissional pelo Duque de Caxias, a equipa do bairro onde o pai tinha nascido.

O Roberto Dinamite se aposentou-se oficialmente em dezembro do 92. Tinha 38 anos. A cicatriz de 14 cm na perna esquerda, oculta durante 21 anos de carreira profissional debaixo do calção do Vasco, saiu do campo sem que qualquer jornalista desportivo do Brasil tivesse escrito nunca uma linha sobre ela. O pai de Roberto Dinamite morreu em Março do 97 por causa natural aos 75 anos. A mãe morreu dois anos depois. A caixa de sapatos com o papel do especialista do 66 ficou no fundo do armário de Duque de Caxias durante os 26 anos seguintes. Terminou em casa da irmã mais velha do Roberto, Marisa, no bairro do Cordovil. A Marisa guardou-a no armário do quarto de hóspedes, sem nunca abrir. Numa visita de maio, Marisa disse ao Roberto que tinha coisas velhas do pai por se quisesse passar para rever algum dia. O Roberto agradeceu o aviso, disse que iria na semana seguinte e nunca foi.

Depois da reforma do futebol, o Roberto Dinamite entrou na política. Em Outubro de 92, foi eleito vereador do município do Rio de Janeiro pelo PSDB. Dois anos depois se elegeu deputado estadual do Rio. Se reelegeu quatro vezes seguidas, cinco mandatos consecutivos até 2010. Em junho de 2008, o Roberto Dinamite foi eleito presidente do Vasco da Gama, sucessor de Eurico Miranda. O mesmo ano em que assumiu a presidência, o Vasco foi despromovido pela primeira vez na história a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. O Roberto organizou a subida imediatamente. O Vasco voltou à primeira divisão em 2009. Em 2011, o Vasco ganhou a Taça do Brasil, primeiro título nacional do clube, em 22 de anos. A noite do título, no Maracanã, 80.000 pessoas gritaram o nome do presidente do clube durante 40 minutos seguidos.

Do anos mais tarde, em 2013, o Vasco foi despromovido pela segunda vez à segunda divisão. Os dirigentes decidiram não apoiar a reeleição. O ídolo do clube deixou o cargo em dezembro do 13. Nessa mesma semana, a Liliane Martins foi diagnosticada com um cancro na glândula tiroideia. A cirurgia se realizou em Fevereiro do 14, num hospital privado do bairro de Botafogo. Saiu bem. A Liliane se recuperou completamente. O Roberto, durante todo aquele processo, não falou com a família sobre o facto de estar voltando a entrar num hospital do Rio de Janeiro, quase 30 anos depois da última vez que tinha feito aquilo a uma mulher que amava. A última vez tinha sido no 12 de Agosto de 84 com a Jurema Crispin.

No finais de Novembro do 21, o Roberto Dinamite começou a sentir-se mal. Cansaço extremo, perda de apetite, dor abdominal contínua do lado direito, hemorragia intestinal ocasional. Tinha 67 anos. A Liliane Martins convenceu-o a fazer uma colonoscopia preventiva. O exame realizou-se no dia 21 de dezembro e um num hospital privado do bairro Barra da Tijuca. O médico, um proctologista chamado Dr. Paulo Reis, identificou uma obstrução intestinal severa provocada por uma massa de tecido que o médico suspeitava ser tumor. Operação de urgência do dias antes do Natal. Roberto Dinamite entrou no hospital no dia 23 de dezembro de 20 e 1 às 6 da manhã. A cirurgia durou 4 horas. Saiu bem. Passou a véspera de Natal do 24 internado no hospital. A Liliane e os dois filhos do Roberto, a Roberta e o Rodrigo, levaram a ceia de Natal em embalagens de plástico ao quarto do hospital.

Teve alta no dia 31 de dezembro do 21. No 9 de janeiro do 22, 8 dias depois da alta, o Roberto Dinamite fez uma publicação no perfil de Instagram em que anunciou ao mundo que tinha sido diagnosticado com tumores no intestino e que ia iniciar tratamento de quimioterapia. No 23 de maio de 22, 5 meses depois do diagnóstico, o Roberto Dinamite passou por uma segunda cirurgia, desta vez para retirar um tumor identificado numa sessão específica do intestino. A cirurgia durou 6 horas. O Dr. Paulo Reis voltou a ser operado. 10 dias depois da segunda cirurgia, o Roberto Dinamite assistiu à inauguração da própria estátua no estádio de São Januário. Quase 3.000 pessoas, Zico, Júnior, Bebeto, Mauricinho, Tita e outros companheiros do 70 e 80. Roberto Dinamite falou ao microfone durante 6 minutos nessa tarde. Disse com a voz quebrou uma frase que a imprensa desportiva do Brasil reproduziu no dia seguinte. disse: “O vasco continua a ser importante na minha vida.”

O que o Roberto Dinamite não acrescentou naquela tarde era que o cancro do intestino, diagnosticado em Dezembro do 20, Ion tinha uma característica oncológica específica que os oncologistas do hospital da Barra da Tijuca tinham, identificado durante a análise do tecido tirado na segunda cirurgia. A característica oncológica ligava o cancro do 21 com algo mais antigo, algo do 66. Em Junho do 22, o Roberto Dinamite foi internado por uma infeção bacteriana pós cirurgia. Em agosto do 22, foi submetido a uma terceira cirurgia para retirar uma bolsa deostomia. Em setembro do 22, perdeu 20 kg por causa dos efeitos da quimioterapia. 20 kg, estás a ver? Ficou só uma sombra do gajo que tinha sido. A torcida do Vasco começou a aparecer nos hospitais do Rio cada vez que o ídolo se internava. cartazes, bandeiras, cantos da rua.

O que o Roberto Dinamite ainda queria fazer antes que o corpo cedesse de vez era voltar uma última vez ao estádio de São Januário. A oportunidade chegou em novembro do 22. No sábado 3 de novembro do 22, o Vasco da Gama jogou o último jogo da época da segunda divisão contra o Náutico de Pernambuco. Precisava de ganhar para garantir o acesso à primeira divisão do Campeonato Brasileiro do 23. Os dirigentes do clube, sabendo que o Roberto Dinamite encontrava-se em fase terminal do tratamento do cancro, ofereceram-lhe para ir ao estádio nessa tarde. O Roberto Dinamite aceitou. Era a primeira vez em 10 meses que saía de casa para alguma coisa que não fosse uma sessão de quimioterapia ou uma visita médica de controle. Pesava menos 20 kg que no ano anterior. Andava apoiado numa bengala. A voz estava enfraquecida pelo efeito acumulado do tratamento. Chegou ao estádio de São Januário às 5 da tarde.

A claque do Vasco recebeu-o de pé na bancada principal. 50.000 pessoas a aplaudir o ídolo durante 15 minutos seguidos antes do início do jogo. O Roberto Dinamite sentou-se no camarote oficial ao lado da Liliane e dos quatro filhos, Datiana, Luciana, Roberta, Rodrigo. E ao lado dos dois netos, Valentina e Bento. Valentina tinha 7 anos naquela tarde de novembro do 22. era a filha mais velha do Roberta, cabelo castanho comprido, camisa do Vasco com o número 10 nas costas e o apelido Dinamite em cima. Durante o segunda parte do jogo, quando o Vasco ganhava por 2-1 e o acesso à primeira divisão estava praticamente garantido, o Roberto Dinamite abraçou a neta Valentina com o braço esquerdo. A neta aconchegou-se no ombro do avô e os dois viram juntos os 21 minutos finais do jogo do Vasco contra o Náutico.

Um fotógrafo do Jornal dos desportos, o mesmo jornal que 51 anos antes tinha batizou o miúdo de 17 anos com o alcunha de miúdo dinamite, tirou uma foto do Roberto Abraçado com a Valentina. A foto saiu na capa do jornal no dia seguinte. Aquela imagem da neta abraçada ao ídolo terminal do Vasco foi a última foto pública do Roberto Dinamite com vida num estádio de futebol. Última foto, irmão, última visita. 10 semanas depois estava morto.

No dia 29 de dezembro do 22, às 15:27, Edson Arantes do Nascimento, Pelé, faleceu no Hospital Albert Einstein de São Paulo aos 82 anos, também de cancro. O Brasil inteiro entrou em luto oficial de três dias por decreto do Presidente da República. Nessa mesma tarde, às 18h42, Roberto Dinamite publicou no perfil oficial do Twitter uma homenagem ao ídolo maior do futebol brasileiro. A publicação tinha 14 palavras. Dizia: “Hoje se foi o meu ídolo eterno. Descansa em paz, rei Pelé. levar-te-ei sempre comigo. Aquela publicação de 29 de Dezembro do 22 foi a última publicação pública do Roberto Dinamite. Não voltou a publicar nada em nenhuma rede social durante os nove dias seguintes.

No 7 de Janeiro do 23, o Roberto Dinamite começou a piorar rapidamente na casa do bairro da Penha. A Liliane ligou ao dr. Paulo Reis nessa mesma tarde. O médico aconselhou interná-lo de urgência no hospital da Barra da Tijuca. A ambulância chegou às 9 da noite. As duas filhas do primeiro casamento, Datiana e Luciana, foram ao hospital nessa mesma noite com os maridos e os filhos. A Roberta e o Rodrigo chegaram também. O Alexandre, o filho que a Jurema tinha tido do primeiro casamento antes de conhecer o Roberto, chegou de madrugada do 8. Às 9 horas da manhã de domingo, 8 de Janeiro do 23, o Roberto Dinamite estava já na unidade de cuidados intensivos do sétimo andar do hospital da Barra da Tijuca, ligado a tubos de oxigénio, sedado parcialmente, consciente do que estava a acontecer.

Às 11:17 da manhã do 8 de janeiro, de 23, 39 anos depois da morte de Jurema Crispin, noutra mesa de cirurgia de um outro hospital do Rio de Janeiro, o Roberto Dinamite morreu. O, irmão. Acabou. 10 dias depois do Pelé. O velório de Roberto Dinamite foi no centro do relvado do estádio de São Januário. Os dirigentes do Vasco abriram as portas do estádio às 6 horas da manhã do segunda-feira, 9 de janeiro de 23. 40.000 pessoas passaram pelo caixão do ídolo durante as 14 horas seguintes. Zico esteve no velório, Júnior esteve. Bebeto, Tita, Mauricinho, Sócrates Júnior, Romário, o atual presidente do Vasco, os técnicos históricos do clube, ex-companheiros de equipa da seleção brasileira do 78 e do 82.

No momento exato em que o sol se punha atrás do pão de Açúcar, às 18h49, 80.000 pessoas reunidas nas bancadas do São Januário entoaram o hino do Vasco da Gama durante 12 minutos seguidos. A família Dinamite, parada junto do caixão, no centro do relvado, escutou o hino completo em silêncio. O enterro foi no dia seguinte, 10 de Janeiro de 23, no cemitério do bairro da Penha, a poucos quarteirões da casa, onde o Roberto tinha vivido os últimos 40 anos com a Liliane e os filhos.

12 dias depois do funeral, a irmã mais velha do Roberto Dinamite, Marisa, ligou paraa Liliane Martins. Disse que tinha uma caixa de sapatos velhos do pai do Roberto, que tinha ficado guardada no seu armário durante os últimos 26 anos. Disse que achava que era a altura da família imediata do ídolo abrir. Perguntou se podia passar pela casa do bairro da Penha nessa mesma tarde para entregar. Marisa chegou ao bairro da Penha no dia 20 de Janeiro das 23 às 5 da tarde. Quatro dos seis filhos do Roberto Dinamite foram na sala da casa quando chegou. Datiana, Luciana, Roberta e Rodrigo. Alexandre, o filho do primeiro casamento de Jurema, estava em viagem de trabalho e só chegou dois dias depois. A Liliane serviu café para todos. Marisa colocou a caixa de sapatos em cima da mesa da sala de jantar. Era uma caixa velha de cartão castanho com a marca B impressa na tampa. Tinha colada com fita-cola amarelada, um papel pequeno onde o pai do Roberto tinha escrito há anos com letra tremida duas palavras. As duas palavras diziam para o Carlos, para Carlos. Carlos Roberto de Oliveira, o miúdo do bairro centenário que se tinha tornado o dinamite do Vasco da Gama.

E sabe o que estava dentro daquela caixa, irmão? Vai-se lá entender porque o pai do ídolo do Vasco guardou-a 57 anos seguidos sem mostrar a ninguém. Dentro da caixa estavam várias coisas, três recortes de jornais com golos do pai, quatro fotografias a preto e branco da família, uma carta velha da Jurema Crispin ao sogro datado de 72, um boletim escolar do Carlos Roberto do ano 62, quando tinha 8 anos, duas medalhas pequenas de torneios amadores do bairro de Duque de Caxias do ano 70 e um papel pequeno dobrado em quatro, amarelado pela idade, escrito com caneta de tinta azul, com a letra apertada e vertical de um médico especialista do Rio de Janeiro do ano 66. A Datiana desdobrou o papel, leu em silêncio durante 10 segundos, passou o papel pra Luciana, Luciana leu, passou o papel pra Roberta, Roberta leu, passou o papel pro Rodrigo, Rodrigo leu, passou o papel pra Liliane. A Liliane leu por último e começou a chorar em silêncio.

O papel pequeno que o especialista da clínica do centro do Rio tinha escrito em 66, durante o exame do moleque Carlos Roberto de Oliveira, de 12 anos, com um tumor na perna esquerda, continha exatamente três linhas escritas à mão. A primeira linha era o nome do moleque e a idade. Carlos Roberto de Oliveira, 12 anos, Duque de Caxias. A segunda linha era o diagnóstico técnico que o pai no consultório daquela tarde de março do 66 tinha pedido ao médico que escrevesse. Era uma palavra técnica longa em latim, que o pai tinha guardado durante 26 anos sem mostrar a ninguém. Era uma palavra do campo da oncologia pediátrica. A terceira linha era uma recomendação médica do especialista. A recomendação do médico tinha sete palavras. As sete palavras diziam: “Recidiva provável em 40 ou 50 anos”.

recidiva provável em 40 ou 50 anos. Irmão, você consegue acreditar nisso? O médico do 66 previu. O pai escondeu: O moleque jogou 21 anos sem saber. E 57 anos depois, o câncer voltou para cobrar a conta. 57 anos depois do papel do especialista do 66, o câncer que tinha aparecido no intestino do Roberto Dinamite em dezembro do X e um tinha sido identificado pelos oncologistas do hospital da Barra da Tijuca como uma recidiva da mesma doença da perna esquerda do 66, conectada geneticamente, conectada celularmente, conectada pelo mesmo tipo histológico. A doença escura que perseguiu o Roberto Dinamite desde os 12 anos, a que a família escondeu durante 57 anos, a que a imprensa esportiva brasileira não conectou nunca com a cicatriz de 14 cm oculta embaixo do calção do Vasco. Essa mesma doença foi a que terminou matando o maior artilheiro do campeonato brasileiro numa cama do hospital da Barra da Tijuca no 8 de janeiro do 23. A previsão do especialista do 66 tinha sido quase exata. 57 anos, apenas 5 anos a mais do que o médico tinha estimado no papel.

Uma semana depois da abertura da caixa de sapatos, a Datiana foi ao quarto do fundo da casa do bairro Penha, onde a Liliane Martins tinha guardado durante anos uma parte das coisas velhas da família Dinamite. A Datiana procurou dentro de um armário antigo de madeira, cheio de papéis dos anos 70 e 80. Encontrou o que estava procurando. A agenda pequena de capa marrom que em outubro de 84, dois meses depois da morte da mãe, ela mesma tinha encontrado na gaveta de cima da cômoda do quarto matrimonial. A mesma agenda com a página onde a Jurema Crispin tinha anotado três coisas no 12 de agosto de 83 numa mesa do fundo do café Lamas de Botafogo.

A Datiana tirou a agenda, levou pra sala da casa, onde a família inteira estava reunida tomando café, abriu a agenda na página das três anotações e, pela primeira vez, em 39 anos, leu as três linhas em voz alta na frente da madrasta Liliane, dos irmãos Luciana, Roberta e Rodrigo e do Alexandre. Emodiálise segundas, quartas e sextas. lista transplante 18 meses. O Roberto não. A frase de três palavras que a filha tinha guardado durante toda a adolescência, durante toda a juventude, durante os 49 anos de vida até aquela tarde de janeiro do 23, finalmente saiu da página da agenda e entrou no ar da sala do bairro Penha. O Roberto não.

A Jurema Crispin tinha decidido no 12 de agosto de 83 numa mesa do fundo do Café Lamas de Botafogo, exatamente um ano antes de morrer na mesa de cirurgia do hospital do Fundão, que o Roberto Dinamite não podia saber o que estava acontecendo com ela, nem do diagnóstico de insuficiência renal, nem dos 18 meses de espera por um transplante de rim, nem das sessões de hemodiálise que ela ia fazer em segredo durante os 11 meses seguintes. A Jurema decidiu carregar sozinha todo o peso da doença para que o marido pudesse seguir jogando futebol sem nada na cabeça que o distraísse.

39 anos depois, no momento em que a Datiana leu as três palavras da agenda em voz alta, a família inteira entendeu pela primeira vez que entre o 12 de agosto do e o 12 de agosto do 84, durante exatamente 365 dias seguidos, a Jurema Crispin tinha vivido em silêncio uma doença que sabia que ia terminar matando ela. Quase a mesma quantidade de tempo, quase o mesmo tipo de silêncio, quase o mesmo tipo de solidão familiar que o Roberto Dinamite tinha vivido entre dezembro do 20 e 1 janeiro do 23, com o cancro do intestino que ele próprio quase não contou ao mundo até aos últimos meses. Naquela tarde do dia 27 de janeiro do 23, a Liliane Martins, depois de escutar a Datiana ler a agenda da Jurema, saiu para o quintal do fundo da casa do bairro Penha e ficou parada em silêncio durante uma hora.

Quando voltou para a sala de jantar, disse à família uma frase que ia resumir tudo o que a imprensa desportiva brasileira não tinha contado nunca sobre Roberto Dinamite. disse: “O Roberto e a Jurema morreram da mesma forma, 39 anos de distância, a mesma solidão, a mesma cama, a mesma maca, a mesma maca, irmão, a da Jurema Crispim, na sala de cirurgia número 3 do sétimo andar do hospital do Fundão, no dia 12 de Agosto do 84 às 12:58 do meio-dia”. A do Roberto Dinamite na unidade de cuidados intensivos do sétimo andar do hospital da Barra da Tijuca, no 8 de janeiro do 23 às 11h17. Dois hospitais do Rio de Janeiro, duas macas, duas doenças silenciadas durante décadas pelas pessoas que decidiram carregar o peso sozinhas para não preocupar a família. E duas mortes que a A imprensa desportiva do Brasil contou durante anos como histórias separadas, sem ligar nunca na única história que realmente eram.

Em dezembro do 24, quase 2 anos depois do enterro, a Confederação Brasileira de Futebol criou oficialmente o Troféu Roberto Dinamite. É o troféu que recebe todos os anos o jogador melhor marcador do Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão. Leva o nome do ídolo do Vasco da Gama de forma permanente. No 25 recebeu o avançado Pedro do Flamengo. No 26, no momento em que estou a contar esta história, recebeu um jogador do Palmeiras. O recorde de 190 golos no Campeonato Brasileiro que o Roberto Dinamite estabeleceu durante os 22 anos de carreira no Vasco da Gama segue sendo o recorde absoluto do futebol brasileiro no 26. nunca foi atingido por nenhum outro jogador nos 49 anos, desde que o ídolo do Vasco o estabeleceu no 74.

E a cicatriz de 14 cm na parte de trás da perna esquerda do Roberto Dinamite, escondido durante 21 anos de carreira profissional por baixo do calção do Vasco da Gama, escondida durante 57 anos seguidos do público brasileiro, por baixo da palavra técnica do papel da caixa de sapatos do armário do bairro centenário, esta cicatriz foi a única marca visível do corpo do ídolo quando o sepultaram no cemitério do bairro da Penha, no dia 10 de janeiro do 23. Marca que poucos viram, marca que ninguém compreendeu, marca que durante meio século seguido foi o segredo físico mais íntimo do maior goleador da história do Campeonato Brasileiro.

Até hoje tem uma questão que a família Dinamite não fez nunca em voz alta, mas que aparece atrás de tudo o que aconteceu entre o 12 de agosto do 84 e o 8 de janeiro do 23. Porque a Jurema decidiu não contar ao Roberto que estava a morrer? Por que razão o O pai do Roberto decidiu não contar ao filho o que dizia exatamente o papel do especialista do 66? Por que razão o próprio Roberto Dinamite decidiu não dizer à imprensa desportiva brasileira durante 37 anos seguidos o que Telê Santana tinha que lhe foi feito em dois mundiais consecutivos?

A resposta não aparece em nenhum papel da caixa de sapatos, nem tão pouco em nenhuma linha da agenda do Café Lamas, nem tão pouco em nenhuma entrevista desportiva do Arquivo da TV Globo dos anos 70 e 80. A resposta é algo que só a família do bairro da Penha entendeu em silêncio durante aquela tarde do dia 27 de janeiro de 23, quando estiveram todos juntos pela primeira vez na sala de jantar, a ler o papel do 66 e a agenda do 83.

O silêncio era a forma em que os homens e as mulheres daquela geração do Brasil decidiam proteger a família. Era uma herança cultural, era um código tasto, era a forma como as pessoas que mais se amavam no bairro de Duque de Caxias, no bairro do Caju, no bairro da Penha do Rio de Janeiro, decidiam carregar sozinhas o peso das doenças graves, das traições profissionais, das cicatrizes do corpo, dos diagnósticos terminais. É por isso, irmão, porque contar teria sido passar a dor. E porque amar naquele tempo, naqueles bairros, naquelas casas pequenas com telefones pretos de baquelite em cima de mesinhas de madeira era carregar sozinho.

Se essa história fez-te pensar em alguém da própria família que carregou sozinho durante anos uma doença, uma traição ou um segredo, sem nunca te contar o peso real que estava a levar, partilha este vídeo esta noite, irmão. Se subscreve o canal para continuar acompanhando histórias que ninguém teve coragem de contar.

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