Dizem que assombração de gente desconhecida já é má, mas o verdadeiro terror quando o morto tem o seu próprio sangue. Hoje já tenho 80 anos e de tudo o que vi na vida, nada supera o pesadelo que passei quando era apenas um menino de 9 anos. O meu nome é João Batista. Naquele tempo, eu vivia num pequeno povoado no sertão da Paraíba.
Eu nunca gostei do cemitério da região. Aquilo causava-me um medo terrível. Era um lugar assustador mesmo. Mas acabei crescendo a ir para lá porque a minha avó era a zeladora do local. Na verdade, quem cuidava do chamado campo santo era o meu avô. Mas quando faleceu alguns anos antes, a minha avó pediu para continuar no lugar dele, tomando conta de tudo.
Ela recebeu muitos nãos porque não era nada comum uma mulher fazer este tipo de trabalho pesado na época. Mas no fim das contas, ela bateu o pé e conseguiu. Só que ela não se contentou apenas com o trabalho. Ela foi viver lá para dentro, no meio das cruzes de madeira, das imagens de santo e daquelas sepulturas muito antigas.
Quando a gente perguntava por a minha avó tinha-se apegado tanto a cuidar dos mortos, da minha mãe ou dos meus tias diziam que ela fazia isso porque à noite o meu avô aparecia-lhe. Diziam que ele estava sempre a fumar um cigarro de palha enquanto conversava com o meu avó e depois voltava para o túmulo dele e que toda a madrugada era a mesma coisa.
Pelo menos nunca acreditei que isso fosse totalmente verdade. Eu era criança, é certo, mas não engolia muito essas coisas. Eu achava que elas diziam isso mais para nos assustar, para ninguém ir ao cemitério incomodar minha avó. E até certo ponto, este funcionava muito bem, pelo menos com os meus primos.
Bom, eu também me assustava um pouco pela forma como elas contavam a história. Era de uma forma que fazia a gente sentir pavor, mesmo em plena luz do dia. A nossa casa ficava a uns 10 minutos de caminhada a partir daí. Na verdade, o cemitério nem sequer ficava tão distante assim. O caminho de terra batida era muito solitário e cheio de pó, com muito mato seco e terrenos vazios por todos os lados.
Não se ouvia um latido de cão sequer. Num certo pedaço da estradinha, sentíamos uma sensação muito esquisita, como se alguém estivesse a vigiar-nos o tempo todo. Além disso, este pedaço do caminho tinha um vento muito gelado. A gente passava a correr por ali porque dava muito medo, mas não havia outro jeito. Em algumas ocasiões, eu e os meus primos combinávamos de nos revesar para levar alguma coisa para a nossa avó comer.
Às vezes a gente ia duas ou mesmo três vezes durante o dia, mas quando chegava a hora do jantar, aí a situação era outra. A gente ia muito depressa por volta das 17h30 e nunca ia um de nós sozinho. A gente juntava dois ou três, prestando sempre muita atenção para não deixar escurecer nem pensar, porque nenhum de nós queria dar de caras com o cadáver do meu avô, cheio de terra e com os ossos aparecendo.
Era exatamente assim que a gente imaginava-o na nossa cabeça. A minha avó vivia numa casinha colada à entrada do cemitério. tinha apenas um pequeno quarto com o teto de zinco. Lá dentro estava uma cama velha para ela dormir, uma mesa de madeira e um candeeiro muito fraco que quase não iluminava nada. E era só isso. Desde que eu era bem miúdo, habituei-me a ver a minha avó a andar no meio das tumbas.
Ela ia varrendo as folhas secas ou arrancando o mato com as próprias mãos. Uma coisa que me chamava muita atenção era que ela estava sempre falando sozinha. Não era a gritar, mas também não era um sussurro baixinho. Quando ela falava, ia mexendo as mãos sem parar. Parecia mesmo que estava tendo uma conversa com os mortos. Eu ficava com o coração acelerado de medo quando ela começava a dar umas gargalhadas do nada e ficava a olhar para todos os lados.
Ela chegava a olhar para as árvores, como se houvesse alguém ali escondido no meio dos ramos secos. Em muitas ocasiões, ela tinha-me avisado, num tom muito sério, para eu nunca olhar para trás se ouvisse alguém chamando-me pelo meu nome. Mas ela nunca explicava-me o motivo, e isso era uma coisa que se colou muito forte na minha cabeça.
Uma vez, quando o tempo fechou de repente, e parecia que ia desabar uma chuva daquelas, tive de ir sozinho levar o jantar da minha avó. Eu andei o mais rápido que as minhas pernas conseguiam. Já iam dar quase 6 horas da tarde quando cheguei. Eu lembro-me muito bem que o portão do cemitério já estava trancado, por isso tive que me espremer e entrar por uma brecha no muro.
Eu não queria que ficasse totalmente escuro de todo. Para o meu azar, a minha avó não estava em lugar nenhum. Eu gritei várias vezes: “Avó, onde está a senhora? Não lhe estou a achando.” Mas ela não aparecia. Eu deixei a comida na mesa e já me estava a virando-se para ir embora. Quando vi a minha avó a vir na minha direção, ela caminhava muito devagar pelo meio das tumbas.
Ela olhou para mim e fez um sinal com a mão, pedindo para eu esperar. Como se podia ver que ela ia demorar muito tempo a chegar, achei melhor apertar o passo e ir até ao encontro dela. A gente devia estar a uns 40 m de distância da entrada. Eu cheguei perto, cumprimentei a minha avó e dei-lhe um beijo na mão dela. Depois segurei o braço dela para ela se apoiar em mim e conseguir andar mais depressa.
A casinha parecia estar a quilómetros de distância. Enquanto andávamos, o lugar começou a ficar cada vez mais escuro, engolido pela noite. A gente tinha andado só uns 4 m quando ouvi a voz de um homem. Falava diretamente comigo, chamando o meu nome. Eu já ia virar a cabeça para olhar para trás, mas a minha avó apertou minha mão com uma força absurda.
Ela me lembrou-se daquele aviso que sempre me dava. Não olhe para trás se alguém falar consigo. Senti um frio na espinha quando reconhecia aquela voz. O Tom não deixava dúvidas na minha cabeça. Era o meu avô morto que estava a falar comigo. Cada vez que ele chamava pelo meu nome, eu ouvia a voz dele mais perto das minhas costas.
E isso deixava-me com mais arrepios ainda. Pior do que isso, eu já estava a começar a escutar o som seco dos seus passos pisando a terra. O medo que sentia dele não era à toa. Ele nunca tinha gostado de mim quando era vivo. Vivia a dar-me bronca por qualquer parvoíce. Uma vez até disse que teria sido muito melhor se nem sequer tivesse nascido.
Nunca tratava nenhum dos os meus primos daquele jeito mau. Acho que por causa do meu desespero, sentia que a casinha estava cada vez mais longe, como se não saíssemos do lugar de maneira nenhuma. E, enquanto isso, a voz continuava a aproximar-se. Ele já devia estar muito perto de nós e comecei a sentir que as minhas pernas estavam a ficar fracas e simplesmente não queriam andar mais.
A minha avó estava sempre a pedir-me para eu não assustar-me. Ela dizia que enquanto ela estivesse do meu lado, ninguém, nem mesmo o meu avô, ia conseguir encostar em mim. Mas, de repente, uma coisa muito estranha aconteceu. A minha avó olhou fundo nos meus olhos e disse: “Corre, meu filho!” E largou-me o braço.
Eu tentei correr o mais rápido que podia, mas a sensação era de que eu estava a correr em câmara lenta, pesado. Mesmo com toda a dificuldade, eu consegui chegar ao quartinho. Eu entrei tropeçando nas coisas, puxando o ar com muita força para tentar respirar e caí sentado em cima da cama. Eu fiquei ali paralisado, à espera que o meu avô fosse aparecer à porta a qualquer segundo e tinha a certeza de que a aparência dele ia ser pavorosa.
Alguns minutos depois, a minha avó entrou no quarto. Dava para ver no rosto dela que estava muito assustada também. Ela levantou a voz e mandou-me ir embora dali imediatamente. Mas logo nessa altura as coisas estavam tornando-se muito perigosas pelo cemitério. Eu não disse nada, não fiz nenhuma pergunta e nem esperei que ela mandasse de novo.
Assim que passei pela porta da casinha, senti uma presença muito pesada nas minhas costas. Eu senti um olhar cravado em mim e eu sabia lá no fundo do meu coração que era o meu avô. Ele estava ali parado, a olhar fixamente para mim. Eu saí do cemitério e saí a correr em direção à minha casa. O caminho já estava num breu total.
Quando passei por aquele pedaço frio da pequena estrada de terra, a sensação de que tinha alguém me vigiando foi ainda mais forte. Eu acho que isso acabou por me dar mais energia para fugir, porque corri como nunca tinha corrido na minha vida inteira. Eu usei toda a força que as minhas pernas ainda tinham.
Eu nunca tinha sentido um pavor tão grande e real como daquele vez. Eu cheguei a casa totalmente sem fôlego e da maneira que deu, eu disse para minha mãe que tudo o que elas diziam era a mais pura das verdades. O meu avô morto aparecia realmente no cemitério. Eu contei tudo o que tinha acabado de acontecer comigo.
Ela tentou acalmar-me, dizendo que talvez fosse só coisa da a minha imaginação, mas tinha a certeza absoluta do que tinha escutado e sentido nessa noite. Eu acho que nem É preciso dizer que aquela foi a última vez que pisei aquele cemitério. Depois desse dia 21 de setembro, eu nunca mais duvidei do que os mais velhos contavam, principalmente daquela história de que a minha avó passava as madrugadas inteiras a falar com o fantasma do meu avô.
Hoje, tantas décadas depois, ainda sinto a minha pele arrepiar-se inteira só de lembrar, porque aprendi da pior maneira que no sertão os mortos não descansam. Muitos dizem que o silêncio da noite traz paz, mas quem diz isso com certeza nunca passou a madrugada sozinho entre os túmulos. A minha curiosidade falou mais alto que o bom senso e eu quis desafiar o perigo apenas para descobrir se as lendas que rondavam a minha família eram reais.
O pavor da escuridão consumia-me por dentro e eu lutava muito para não adormecer. As histórias que o meu avô contava costumavam deixar-me com os nervos à flor da pele. Ele era o velho coveiro lá do nosso povoado. Nessa noite, tentando viver uma aventura, pedi-lhe que me permitisse dormir no cemitério. Não Eu disse isso de uma forma direta, mas a verdade é que eu queria comprovar se o espírito da minha prima aparecia à noite, assim como ele nos tinha garantido tantas vezes.
Eu até sorri quando ele disse que eu podia ficar, mas não imaginava que aquela seria a pior noite de toda a minha vida. Segundo o meu avô, o coveiro, a sua neta, a minha prima Teresa, saía do seu túmulo nas noites de 21 de Setembro, data em que fazia aniversário. Não o seu corpo físico, mas sim o seu fantasma.
Então, ela passava o tempo a brincar entre as lápides. De facto, ela até fazia algumas travessuras, derrubava flores ou tirava as cruzes do lugar. Ele descreveu-a exatamente como a tinham sepultado 5 anos antes, quando ela tinha acabado de fazer 8 anos, com um vestido branco, o cabelo comprido e solto, e as suas sandálias macias, daquelas que não fazem barulho ao caminhar.
Mas sobretudo, o principal pormenor era que os seus olhos estavam abertos. Ela estava sempre com um sorriso, como se não soubesse que já estava morta e que, por alguma razão, andava a penar no cemitério. Enquanto conversávamos sentados à entrada do cemitério, ele me dizia que já estava habituado a vê-la. Eu olhava constantemente para os túmulos porque imaginava que de repente a minha prima ia sair do meio de toda aquela escuridão, muito devagar, sem fazer barulho.
Perto das 12 da noite, o meu avô pediu-me que o acompanhasse para dar a a sua primeira ronda e de quebra já me levaria a visitar o túmulo de Teresa. Embora nessa altura já estivesse com medo, eu disse que sim, porque não ia ficar sozinho naquele lugar de jeito nenhum. Nós caminhamos iluminando o caminho com uma lanterna que, na verdade, iluminava muito pouco.
Então, isso fazia com que o cemitério parecesse ainda mais tétrico. As cruzes, a maioria delas brancas e de madeira, nunca me pareceram tão macabras como naquela ocasião. Talvez fosse impressão minha, mas ouvia o vento assobiar de um jeito muito estranho. Parecia até que chorava. De vez em quando miavam alguns gatos.
Os sons deles eram muito semelhantes ao choro de uma criança. Tudo isto já me deixava arrepiado. No entanto, fazia-me de forte. Depois de uns minutos a caminhar devagar, nós parámos em frente a um túmulo num setor bastante escuro. Ele iluminou a cruz para que eu lesse o nome. Era o túmulo de Teresa. Fiquei surpreendido ao vê-la. O lugar encontrava-se muito descuidado e com muito mato.
O meu avô, que me tinha contado que todos os dias limpava a lápide, garantiu-me que não sabia porque aquilo acontecia. Todos os dias era igual. O local aparentava sempre ter muitos anos de abandono. Ele olhou para o relógio. Em seguida, murmurou que tínhamos de voltar. Nós apanhámos um corredor que nos levava diretamente à entrada do cemitério.
Ele disse-me que tínhamos que entrar no quartinho que tinha ali, porque já ia estar frio. Uns 5 minutos depois, foi exatamente o que aconteceu. Começou a ventar um pouco e as telhas de zinco começaram a mexer. Ouvia-se um barulho tão feio, porque era como se alguém andasse a caminhar em cima do telhado. Até esse momento, eu só me apercebi dos cães que o Iivavam muito ao longe.
O meu avô tinha ido até ao área livre no terreno para acender uma fogueira, colocar umas brasas e assim aquecermo-nos um pouco. Era plena madrugada. Sentei-me no velho sofá e me cobri com o cobertor. O som do vento era cada vez mais forte. Assim que fechei os olhos, senti uma presença. Em seguida, alguém se sentou ao meu lado. Ao sentir aquilo, percebi logo que não era o meu avô.
A pessoa estava gelada, assim como dizem que os mortos são. O cheiro no ambiente mudou de repente, lembrando terra húmida e flores murchas. A minha respiração condensava no ar escuro. Eu tentava engolir em seco, mas a garganta parecia lixa. O peso no sofá afundou mais um pouco, estalando as molas velhas. O silêncio absoluto tornava cada batida do meu coração ensurdecedora.
A primeira coisa que pensei foi que era o fantasma da Teresa. Não podia negar. Eu tremi de medo. Era minha prima, mas ela já estava morta. Eu quis levantar-me. Tentei várias vezes sem o conseguir. Quis gritar, mas estava travado. Eu nem sequer conseguia abrir os olhos. Quem quer que ali estivesse não se movia.
Era terrível pensar que um cadáver estava junto a mim. Eu lembro-me que estava a tremer muito. A única coisa que fiz foi começar a rezar. Então, quem estava ao meu lado levantou-se. Naquele momento, eu abri os olhos. Para meu espanto, não havia ninguém. Olhei ao longe para o meu avô. Ele continuava em frente à fogueira.
Saí do quartinho, olhando para todos os lados, ainda com o arrepio no corpo. Disse ao meu avô que talvez minha prima tivesse aparecido para mim e contei tudo o que senti no sofá. Mas ele me garantiu que não era assim, porque Teresa se manifestava por volta das 4 da madrugada. Era a hora em que havia falecido e ainda faltava cerca de meia hora para isso.
Ele me garantiu que o que eu havia sentido era outro morto que de vez em quando perambulava por todo o cemitério. Ele me fez uma limpeza com umas ervas para que eu não fosse levar aquela energia negativa para casa. Enquanto ele me limpava, eu ouvi gritos e choros. Além disso, batiam nas paredes do pequeno quarto.
O estranho é que só eu ouvia tudo aquilo. Não soube se o fantasma de minha prima se manifestou depois, porque não saí de lá até o amanhecer. Sempre ouvi dizer que o maior erro do ser humano é brincar com o desconhecido. Aconselho do meu avô, nunca mais passei uma noite num cemitério. O grande problema é que desde aquela madrugada, sempre que fecho os olhos e ouço o vento assobeiar, o colchão da minha cama afunda um pouco, como se aquele corpo gelado estivesse sentando bem ao meu lado de novo.
O turno da noite sempre carrega uma energia muito pesada. Não importa onde você trabalhe, mas quando o seu local de trabalho é um campo cheio de covas, o escuro costuma esconder segredos que a gente nunca deveria descobrir. Meu nome é Francisco Filho. As pessoas que estavam naquele enterro, não sei se eram parentes ou amigos de quem morreu, só saíram de lá quase uma hora depois que a gente terminou de jogar a terra por cima do caixão, pregar a cruz e arrumar aquele punhado de flores que deixaram.
Logo comentei que aquele enterro estava esquisito demais, sabe? Ninguém derramou uma gota de lágrima. O clima no ar estava pesado, de cortar com uma faca. Durante todo o tempo em que ficamos ali, nenhuma daquelas pessoas fez uma oração, nem soltou um único som boca. Foi desse jeito, naquele silêncio total, que eles começaram a ir embora, caminhando um atrás do outro.

O outro rapaz que trabalha comigo também percebeu que as coisas não estavam normais. Ele chegou perto e comentou que todo mundo ali estava com o rosto branco, sem cor nenhuma. Eles pareciam duros, não piscavam os olhos de jeito nenhum e se mexiam como se estivessem em transe, ou pior ainda, como se fossem pessoas mortas andando.
Esse meu colega ainda falou que ninguém ali mostrou um pingo de tristeza ou qualquer emoção, mas a gente decidiu que o melhor a fazer era ignorar tudo aquilo e seguir o trabalho. Pouco tempo depois, o turno dele acabou e ele foi para casa. Quando deu um pouco depois das 6 horas da tarde, passei o cadeado no portão principal trancando tudo.
O cemitério inteiro já estava completamente vazio. Foi aí que comecei a escutar umas vozes vindo de muito longe. Eram vozes que saíam lá de dentro. Fiquei parado alguns minutos, apertando os olhos, tentando enxergar se alguém aparecia. Pensei: “Vai ver esse pessoal nem percebeu que a hora passou e que a gente já fechou a saída. Mas os minutos iam correndo e ninguém aparecia.
Então, tomei a decisão de ir lá ver o que estava rolando de verdade, porque aquela falação não parava nunca. Muito pelo contrário, começou a fazer um barulho de muito mais gente se mexendo, quase como se estivessem fazendo um outro enterro ali na mesma hora. Fui andando atrás daquele som e ele me levou direto para a mesma parte onde aquele sepultamento esquisito tinha acabado de acontecer.
Já conseguia enxergar o túmulo de longe. Ouvia os sussurros, mas não tinha uma única alma viva na minha frente. Parei de andar, ficando uns 20 m de distância, porque aquilo ali não era natural. Pirei o rosto para todos os cantos. O cemitério inteiro, até onde a minha vista conseguia alcançar, era uma escuridão solitária.
Dei mais uns passos para a frente. Procurei com toda a atenção do mundo. Vai que tinha alguém se escondendo atrás dos outros túmulos, né? Mesmo sabendo que era uma ideia sem muito sentido, cheguei a pensar que aqueles doidos podiam estar trepados nos galhos das árvores, porque, afinal de contas, eu escutava as vozes. Em algum canto daquele lugar, eles precisavam estar.
Nunca, em todos os meus anos de profissão, tinha passado por uma situação de tanto terror assim. conforme ia dando cada passo para a frente, aqueles sussurros, e falo sussurros, porque não dava para entender uma única palavra do que diziam, iam ficando cada vez mais fortes no meu ouvido. Mas quando cheguei bem de frente para a cova que tínhamos acabado de fechar, tudo ficou num silêncio absoluto.
Fiquei chocado com o que vi. Tinha muitas marcas de pegadas no chão. E não era só em volta do túmulo. Eles também tinham pisado bem em cima da terra fresca. Para completar o cenário bizarro, a cruz de madeira estava torta, quase caindo. Só que tinha um detalhe ainda pior. Conseguia sentir uma energia ruim, uma coisa pesada no ar, uma sensação de que aquilo não pertencia ao nosso mundo.
Pensei que o melhor era sair correndo daquele lugar, principalmente quando comecei a enxergar uma coisa muito horrível. Havia restos esquisitos jogados ali. Não conseguia saber se eram de algum bicho ou para o meu desespero de seres humanos. Tinha vários ossos espalhados, umas duas ou três espinhas dorsais, umas mãos muito sinistras e crâneos.
Na parte de trás do túmulo vi um saco cheio de mais restos assim. E junto disso tudo tinham velas acesas e um monte de mato e ervas. Parecia muito que eles tinham acabado de fazer ou iam começar a fazer. um daqueles trabalhos de magia obscura, onde se invoca o próprio demônio. Com muito medo de me envolver naquilo ou até de virar piada, decidi não chamar a polícia nem avisar ninguém naquela noite.
Deixei tudo do jeitinho que estava, pensando que no outro dia de manhã a gente dava um jeito de enterrar aquilo em qualquer canto. Saí de lá andando bem rápido, pois só o céu ficar totalmente escuro para aqueles sussurros começarem tudo de novo. e a cada instante pareciam mais assustadores e sinistros.
Chegou num ponto que escolhi ficar abrigado lá na guarita do portão principal mesmo. Não tinha a menor vontade de dar a volta no cemitério, muito menos de chegar perto daquele túmulo amaldiçoado. Coloquei na cabeça que aquilo ali poderia ser muito perigoso e os minutos foram correndo. Várias vezes tentei forçar a vista para ver alguma coisa, uma luzinha que fosse ou o clarão de algo, mas não vi absolutamente nada.
Era tudo uma escuridão de dar pânico no meio daqueles murmúrios. Eram muitos murmúrios juntos. Parecia que tinha mais de 20 pessoas fazendo orações estranhas ou chamando alguma coisa lá das trevas. Desse jeito, o tempo foi se arrastando devagar. Quando já tinha se passado umas duas horas de tormento, escutei que os barulhos estavam vindo na direção da saída.
Na mesma hora me tranquei dentro do quartinho. Fiquei num silêncio mortal e com todas as luzes apagadas. Algum tempo depois, eles começaram a passar na minha frente. Quer dizer, pelo menos as vozes passaram. Falo desse jeito porque teve um momento em que tomei coragem e espiei pela fresta da janela. E para a minha surpresa total, não tinha ninguém andando ali.
Na hora que a minha mente entendeu que aquelas eram coisas do maligno mesmo, cheguei a prender a respiração. Os sons daquelas vozes foram se perdendo devagarzinho lá na distância. Só depois disso é que juntei coragem para sair do quarto. A primeira coisa que vi foi um rastro enorme de terra suja no chão. Não estava inventando nada na minha cabeça.
Um monte de pessoas vivas ou mortas tinha acabado de atravessar aquele caminho. O detalhe assustador é que o portão principal continuava trancado com o cadeado. No dia seguinte, quando os outros coveiros chegaram para o serviço, contei tudo o que tinha acontecido de madrugada. Logo em seguida, pedi para me ajudarem a enterrar aquelas sobras todas de ossos.
Só que a surpresa veio quando a gente chegou na frente do túmulo. Não tinha mais nada lá, nem o saco de ossos, nem velas, nem nenhuma daquelas marcas de passos no chão. Com medo de que os meus colegas fossem achar que imaginei a história toda ou que estava ficando louco, naquela noite pedi para um deles me fazer companhia.
E como se o destino quisesse zombar da minha cara, por muita sorte, nada aconteceu naquela madrugada. Até hoje, quando o turno da noite começa, evito olhar para aquela parte do cemitério. Nunca descobri quem eram aquelas pessoas de rosto branco, o que foram fazer no escuro, ou pior, quem realmente nós tínhamos enterrado naquela cova.
Às vezes, quando o vento bate nas árvores, ainda sinto que estou sendo vigiado. A única coisa que vejo pelo canto do olho é uma sombra preta e pesada, deslizando em silêncio entre as cruzes. O cemitério pode até ser o lugar do descanso eterno, mas tenho certeza absoluta de que naquela noite a coisa que nos visitou estava muito mais viva do que eu.
Meu nome é Paulo Varela. O pesadelo que eu vivia em pleno dia enquanto limpava o túmulo do meu pai me fez jurar nunca mais pisar em um cemitério na vida. O dia dos pais estava se aproximando, então decidi ir até o cemitério municipal dar uma ajeitada no local de descanso dele. Levei algumas flores e aproveitei para retocar a tinta do nome na lápide.
Já fazia um pouco mais de um ano do falecimento dele. Ficar ali sozinho me bateu uma saudade doída e o pensamento inevitável que sempre vinha nesta altura do ano tomou conta de mim. O meu pai sempre disse que queria ser cremado. Ele implorou por isso em várias ocasiões em vida. Mas quando ele se foi, os meus irmãos e principalmente a mim, por ser o mais velho, fomos totalmente contra o pedido.
Quebramos a promessa e enterramos o corpo, seguindo a velha tradição da nossa família. Por causa desta decisão, a família rachou e ficou um clima horrível de mágoa e ressentimento guardado. Ali em frente da sepultura, apercebi-me do tamanho do meu erro, mas já era tarde. Nada mais podia ser feito. A gente até evitava ir ao cemitério à mesma hora para não dar briga.
Aquela era apenas a terceira vez que eu visitava. Logo que pisei o cemitério nesse dia, senti uma energia pesada. Sabe aquela sensação agoniante de ter alguém a andar nas suas costas com muita maldade? Era exatamente isso. Eu olhava para trás a toda a hora porque a sensação de perigo alertava o corpo inteiro, mas via-me totalmente sozinho.
Fui caminhando assim pelos corredores por muitos metros até chegar diante do túmulo solitário. Eu estava ali afundado nas minhas recordações, quando ouvi passos rápidos a raspar no chão a poucos metros nas minhas costas. Olhei e não vi nada. Tentei acalmar-me pensando que era apenas algum cão ou gato de rua que vive pelo cemitério. Voltei a limpar a lápide.
Poucos segundos depois, o ruído voltou. Algo passou a correr de novo. Desta vez eu me Virei na mesma hora. Consegui apanhar um vulto preto enorme a esconder-se atrás de uma estátua de Cristo. Pelo tamanho do vulto, poderia garantir que não era um bicho, era uma pessoa. Fiquei paralisado a encarar.
Pensei que pudesse ser um dos meus irmãos tentando se esconder para brincar comigo. Para ter certeza, caminhei firme até à imagem religiosa, mandando a pessoa sair porque já tinha visto. Dei a volta à estátua e olhei por trás. Não tinha absolutamente nada, nem ninguém. A única coisa que encontrei e que me deixou arrepiado até à espinha foram umas marcas no chão.
Eram pegadas perfeitas de um pé humano, mas pareciam feitas de carvão puro ou de cinzas queimadas. Um O desespero surdo tomou conta de mim, porque tinha a certeza de que estava sendo vigiado, mas simplesmente não conseguia ver por quem. Olhei ao redor. O cemitério estava completamente vazio por causa do horário. Comecei a juntar as minhas coisas depressa para ir embora dali o mais rapidamente possível.
Foi então que a situação se descontrolou. O vulto escuro começou a correr de um lado para o outro entre as sepulturas. A velocidade era tão absurda, tão anormal, que só conseguia ver um borrão rápido pelo canto do olho. De uma coisa, eu tenho a certeza absoluta. Ser humano nenhum consegue correr daquela maneira. O meu coração disparou e o nervosismo tornou-se pavor.
Eu não podia ficar ali plantado a ser caçado. O medo deu-me uma injeção de adrenalina. Peguei na primeira ferramenta pesada que encontrei para me defender e comecei a procurar atrás de todos os monumentos para compreender o que era aquilo. Mas a única coisa que eu achava eram mais pegadas de cinzento espalhadas pela terra.
Não dava para garantir se eram recentes, mas quem mais estaria a deixar aquele rasto senão aquela criatura? O túmulo do meu pai estava no meio de dois anjos de pedra, quatro estátuas de Cristo, uma Virgem Maria e algumas pequenas criptas. O vulto escondia-se atrás de cada uma delas, desaparecia num piscar de olhos e aparecia do outro lado num silêncio mortal.
A única prova de que estava ali era o rasto preto no chão. Prestando atenção na direção daquelas marcas, Apercebi-me de uma coisa que me fez o sangue gelar de vez. Todas as pegadas saíam directamente de dentro do túmulo do meu pai. Nessa altura, a minha cabeça deu um nó. Pensei que o local de descanso dele tinha-se tornado um esconderijo para alguma criatura do além ou que aquelas sombras bizarras tinham a ver com ele.
Fiquei sem saída, totalmente encurralado. Queria sair a correr sem olhar para trás, mas parecia não ter para onde fugir. Uma ideia fixa dominou a minha mente. Era o meu pai. fazendo aquilo. Ele devia estar furioso porque não cumprimos o desejo da cremação ou por causa das quezílias da família. Ele podia estar ali a castigar-me por não o visitar.
Depois de alguns minutos a tentar respirar, entendi que precisava de falar com ele. Com as pernas bambas e a voz tremendo, olhei para o túmulo e implorei por perdão por ter falhado no seu último desejo. Prometi a chorar que faria as pazes com os meus irmãos e que passaria a levar flores com muito mais frequência.
Assim que fechei a boca, senti um frio na barriga. Olhei para trás lentamente. O vulto estava lá, mostrando apenas a cabeça por detrás de uma lápide. Encarei aquilo fixamente. Não tinha nada do meu pai ali. O formato, a energia sombria, não era ele. A única reação que o meu corpo paralisado teve foi levantar a mão trémula e benzer-me.
Com isto, depois de alguns minutos de puro terror, aquela coisa simplesmente desapareceu no ar. Saí a correr daquele cemitério, jurando que nunca mais voltaria e cumpri. Aquela foi a última vez que me aproximei do túmulo. E não foi por medo do meu pai, mas porque tive a certeza de que a coisa que rondava os restos mortais dele não pertencia a este mundo.
O meu terror era que aquele demónio de cinzas me seguisse até minha casa. O tempo passou. Engoli o meu orgulho e fiz as pazes com os meus irmãos. Eles continuam indo para lá, mas nunca viram as sombras que caçaram-me. Hoje sei que quebrar o último desejo de quem está no leito de a morte tem um preço.
Se eu pudesse voltar no tempo, eu teria cremado o seu corpo. Agora carrego essa maldição de arrependimento todos os dias, sabendo que algo terrível se apoderou do lugar onde ele descansa.
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