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SOB O CHÃO DA NORMALIDADE: Como o “Pedreiro Assassino” Silenciou Sete Vidas e Ocupou Seus Lugares em Campo Grande

SOB O CHÃO DA NORMALIDADE: Como o “Pedreiro Assassino” Silenciou Sete Vidas e Ocupou Seus Lugares em Campo Grande

O Silêncio Perturbador na Vila Naser

Em maio de 2020, a cidade de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, enfrentava o isolamento e o medo silencioso provocados pela pandemia de Covid-19. Com ruas mais vazias e o comércio fechando as portas mais cedo, o isolamento social justificava muitas ausências. No entanto, em uma residência simples localizada na Vila Naser, o silêncio que se instalava guardava uma natureza muito mais sombria. José Leonel Ferreira dos Santos, um comerciante de 61 anos que vivia sozinho, desapareceu repentinamente de sua rotina previsível.

A ausência abrupta de José Leonel acendeu o alerta em sua família. Parentes e conhecidos iniciaram buscas e tentaram compreender o que teria motivado aquele sumiço. O mistério, contudo, não se escondia longe dali; a resposta para o enigma estava localizada dentro dos limites de sua própria propriedade. No dia 7 de maio de 2020, o corpo do comerciante foi localizado enterrado no quintal de sua própria casa. Não se tratava de uma cova profunda, mas sim de uma vala rasa improvisada em um momento de desespero para ocultar o cadáver. Sobre a terra que cobria a vítima, foram jogados entulhos, paletes e latas velhas que já estavam espalhados pelo terreno, em uma tentativa de simular normalidade e desviar qualquer atenção do local.

A Invasão do Espaço da Vítima

A descoberta do corpo de José Leonel revelou um detalhe que transformou o caso em um cenário ainda mais perturbador para os investigadores e para a comunidade local. Logo após o assassinato, Cléber de Souza Carvalho e seus familiares passaram a ocupar ativamente o imóvel pertencente à vítima. Pessoas entravam, saíam, cozinhavam, dormiam e conduziam suas rotinas diárias no interior da residência, enquanto o verdadeiro proprietário permanecia enterrado a poucos metros dali, sob os destroços do quintal.

Essa ocupação imediata não foi um ato casual, mas o reflexo de um padrão de comportamento focado na apropriação patrimonial. De acordo com as investigações policiais, a mudança para a casa da vítima tinha como objetivo principal afastar as suspeitas dos vizinhos, criando a ilusão de que o imóvel havia sido legalmente alugado ou negociado por Cléber. O crime expôs uma engrenagem oculta: a morte da vítima funcionava como a primeira etapa para a tomada de posse de seus bens, incluindo a residência, terrenos e veículos de sua propriedade.

Desenvolvimento Aprofundado: O Perfil e o Modus Operandi

Cléber de Souza Carvalho exercia a profissão de pedreiro, uma atividade técnica que desempenhou um papel central na execução e na ocultação de seus crimes. A profissão conferia a Cléber a justificativa social perfeita para transitar livremente por obras, residências e terrenos sem despertar a desconfiança de vizinhos ou transeuntes. Como operário da construção civil, ele possuía o conhecimento prático necessário para manipular o solo, cavar com precisão, misturar concreto e recompor superfícies de forma a camuflar vestígios de perturbação no terreno.

O modus operandi do homem que viria a ser chamado pela imprensa de “pedreiro assassino” estruturava-se em cinco etapas fundamentais:

  1. Aproximação e Vínculo Prévio: Cléber não escolhia alvos aleatórios em locais públicos. Suas vítimas eram pessoas de seu círculo de convivência, como parentes, vizinhos, colegas de trabalho ou indivíduos com quem mantinha negociações financeiras, o que facilitava o acesso a seus espaços privados.

  2. Conflito Simulado: Em seus depoimentos à polícia, o acusado rotineiramente alegava que os crimes ocorriam após discussões acaloradas sobre dívidas, serviços não realizados ou desentendimentos banais, tentando enquadrar as mortes como atos de legítima defesa.

  3. Execução: Os crimes eram cometidos em ambientes fechados ou propriedades isoladas, utilizando instrumentos de trabalho ou objetos disponíveis no local, ceifando a vida de homens que muitas vezes se encontravam em condições de vulnerabilidade social ou física.

  4. Ocultação Estruturada: O cadáver era escondido de forma a prolongar o status de “desaparecido” da vítima. Cléber utilizava técnicas variadas de ocultação, recorrendo a covas rasas, concretagem de superfícies ou o descarte em poços desativados.

  5. Exploração Patrimonial: Com a vítima fora de cena, iniciava-se a fase de lucrar com a ausência. Cléber vendia motocicletas, anunciava automóveis na internet, utilizava aparelhos celulares e passava a residir ou negociar os imóveis que pertenciam aos falecidos.

Construção da Tensão Narrativa: O Mapa Oculto de Campo Grande

A prisão de Cléber de Souza Carvalho, ocorrida em 15 de maio de 2020, transformou uma investigação de homicídio isolado no desmembramento de uma série de assassinatos em série até então desconhecida pelas autoridades de segurança pública. Ao ser interrogado pela Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídio (DEH), o pedreiro passou a confessar uma sucessão de outros homicídios ocorridos nos anos anteriores, indicando os locais exatos onde os corpos das vítimas haviam sido ocultados.

A partir dessas confissões, a polícia precisou retroceder na linha do tempo para solucionar casos de desaparecimentos que permaneciam sem resposta na cidade. O trabalho das equipes de investigação envolveu escavações complexas em diferentes bairros de Campo Grande, onde ossadas foram removidas e submetidas a exames de DNA para a confirmação das identidades. Cada nova indicação revelava como o espaço urbano escondia crimes sob camadas de aparente normalidade.

A Lista de Vítimas e os Métodos de Ocultação

  • Flávio Pereira Cessé (34 anos): Primo de Cléber, foi uma das vítimas mais antigas da série. Seu assassinato demonstrou que os laços de consanguinidade não impediam a ação do criminoso, que utilizava a confiança familiar para se aproximar e cometer o crime.

  • Hélio Taira (74 anos): Jardineiro de profissão, desapareceu em novembro de 2016. Seu corpo permaneceu ocultado por cerca de três anos e meio sob uma camada de concreto em uma residência na Vila Planalto. Após matá-lo, Cléber retirou a grama do local, cavou a cova, ocultou o corpo, refez a superfície e abandonou a caminhonete da vítima no estacionamento de um supermercado para desviar o foco das investigações.

  • Roberto Geraldo Clariano, o “Cenoura” (cerca de 50 anos): Desapareceu em junho de 2018 após um desentendimento em um terreno. O corpo foi localizado em maio de 2020 em decorrência das indicações feitas pelo pedreiro após sua prisão.

  • Claudio Honor Longo Xavier (47 anos): Sumido desde abril de 2019, teve sua motocicleta vendida por Cléber através da internet logo após o seu homicídio, evidenciando o interesse financeiro direto que motivava a execução.

  • José Jesus de Souza, o “Baiano” (45 anos): Operário que trabalhava diretamente com Cléber em canteiros de obras. Segundo relatos do próprio acusado, os dois discutiram em serviço e a vítima foi morta a pauladas. O corpo foi enterrado em uma vala rasa e coberto com capim.

  • Timóteo Pontes Roman (62 anos): Conhecido de longa data de Cléber, foi assassinado em 2020 em um período muito próximo ao de José Leonel. O corpo de Timóteo foi jogado no interior de um poço desativado na Vila Planalto, reforçando a diversidade de métodos empregados para apagar os vestígios das vítimas.

A Resposta Judicial: Sete Julgamentos e uma Longa Pena

O Poder Judiciário sul-mato-grossense optou por não julgar as ações de Cléber de Souza Carvalho em um único bloco processual. A estratégia consistiu em realizar sete julgamentos distintos perante o Tribunal do Júri, analisando cada caso de forma individualizada, respeitando as especificidades de cada vítima, os laudos periciais correspondentes e os direitos de defesa e acusação.

Os julgamentos estenderam-se entre os anos de 2022 e 2023. O primeiro julgamento ocorreu em fevereiro de 2022, referente à morte de Roberto Geraldo Clariano, resultando em uma condenação inicial de 15 anos de prisão. Em maio de 2023, ocorreu o último dos sete júris, que tratou do homicídio do jardineiro Hélio Taira, no qual Cléber recebeu uma pena de 24 anos e 5 meses de reclusão.

Somadas as sete condenações por homicídio qualificado e ocultação de cadáver, a pena total imposta ao réu fixou-se em 120 anos e 11 meses de reclusão em regime fechado. Defesas anteriores tentaram levantar teses de insanidade mental ou alegar irregularidades nos depoimentos iniciais, mas tais estratégias foram formalmente afastadas ao longo das sessões de julgamento, mantendo o réu detido no sistema prisional do estado.

Conclusão: As Brechas do Tecido Social

O caso do “pedreiro assassino” desperta uma reflexão profunda sobre a segurança e a invisibilidade no ambiente urbano contemporâneo. O aspecto mais alarmante desta série de crimes não reside apenas na quantidade de vítimas, mas na facilidade com que homens adultos, trabalhadores autônomos, idosos e pessoas com redes de apoio reduzidas puderam desaparecer de suas comunidades sem que os seus sumiços gerassem um clamor ou uma investigação imediata.

Cléber de Souza Carvalho soube identificar e explorar as brechas da informalidade e da solidão urbana. Ele se valia de negócios de gaveta, da compra e venda informal de bens, da ocupação rápida de imóveis e da confiança depositada em prestadores de serviços cotidianos para lucrar com a eliminação física de seus semelhantes. Os quintais e as obras de Campo Grande guardaram por anos um silêncio forçado pelo concreto e pela terra rasa. Resta a reflexão: quantas histórias semelhantes podem estar se desenrolando neste exato momento sob a fachada de normalidade de nossas cidades, camufladas pela pressa diária e pelo isolamento social?

Disclaimer : This content may be created by AI for entertainment purposes. Any resemblance to real persons, events, or places is coincidental.