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O preço da audácia no crime organizado: As trajetórias brutais de Ratomen e Exu que chocaram o Brasil

O submundo do crime organizado no Brasil é uma engrenagem que consome seus próprios integrantes com a mesma velocidade com que os projeta para o topo. A ilusão do poder absoluto, alimentada pela ostentação nas redes sociais e pelo controle de territórios, costuma cobrar um preço definitivo e sem retorno. Duas histórias marcantes ocorridas em estados diferentes mostram que desafiar as forças de segurança pública e cruzar a linha da violência extrema contra o Estado é um caminho que termina, invariavelmente, sob o som de disparos e o silêncio de um necrotério.

As trajetórias de Gabriel Gomes Faria, o Ratomen, uma das lideranças mais temidas do Comando Vermelho no Rio de Janeiro, e de Edson de Jesus Carvalho Júnior, o Exu, homem de confiança do Bonde do Maluco na Bahia, ilustram perfeitamente essa dinâmica. Ambos transformaram comunidades inteiras em palcos de terror, ostentaram armamentos de grosso calibre na internet e acreditaram que a impunidade seria eterna. Contudo, a caçada policial que se seguiu aos seus atos violentos provou que a justiça tarda, mas fecha o cerco de forma implacável.

A ascensão de Ratomen e o domínio do Bairro 13 na Cidade de Deus

A favela da Cidade de Deus, localizada na zona oeste do Rio de Janeiro, foi o cenário onde Gabriel Gomes Faria construiu seu nome no crime organizado. Nascido em São Gonçalo, ele não era apenas mais um integrante na hierarquia do tráfico de drogas. Conhecido pelo apelido de Ratomen ou Hatomen, ele ganhou espaço e o respeito das lideranças da facção Comando Vermelho ao se voluntariar e participar das ações mais arriscadas da organização criminosa. Essa agressividade fez com que ele assumisse o comando do Bairro 13, uma área considerada estratégica para a expansão dos negócios ilícitos na comunidade.

Sob o comando de Ratomen, o grupo criminoso impôs um regime de medo e controle absoluto sobre a população local. As investigações da Polícia Civil apontam que os criminosos monitoravam cada passo dos moradores e controlavam rigidamente a entrada e saída de pessoas na comunidade. Barricadas pesadas feitas de concreto e ferro foram reforçadas em pontos estratégicos para impedir ou dificultar o acesso de viaturas policiais em dias de operação. Além disso, uma rede de olheiros ficava espalhada pelas esquinas e telhados, equipada com rádios transmissores para alertar sobre qualquer movimentação suspeita das forças de segurança.

A ostentação digital como armadilha para a própria queda

Para financiar o arsenal de guerra e fortalecer a presença do Comando Vermelho na zona oeste, a facção diversificou suas atividades e passou a explorar economicamente outras modalidades ilegais dentro da Cidade de Deus. Enquanto gerenciava esse império criminoso, Ratomen fazia questão de alimentar uma imagem de poder e invencibilidade no ambiente digital. Ele utilizava perfis nas redes sociais para publicar fotografias exibindo pistolas, fuzis, maços de dinheiro em espécie, motocicletas esportivas de alta cilindrada e joias de ouro maciço.

Vídeos em que ele aparecia caminhando livremente pelas vielas da comunidade, cercado por seguranças fortemente armados, eram divulgados para demonstrar força perante as facções rivais. No entanto, o que os criminosos viam como propaganda de poder, o setor de inteligência da polícia utilizou como uma rica fonte de informação. Os agentes da Polícia Civil passaram a analisar cada imagem, mapeando os hábitos de Ratomen, seus locais de esconderijo preferidos, suas amizades e os seus deslocamentos. A notoriedade também fez com que ele passasse a ser requisitado para liderar invasões em outras favelas do Rio, participando diretamente de confrontos sangrentos por disputa de território contra milicianos e traficantes de grupos rivais.

A emboscada fatal contra a Core e a morte do policial Lourenço

O ponto de não retorno na vida de Ratomen ocorreu em maio de 2025. Naquele período, a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro conduzia uma investigação sigilosa para desarticular uma rede de fábricas clandestinas de gelo que operavam ilegalmente no interior da Cidade de Deus. O esquema contava com a proteção armada dos traficantes locais, que recebiam vantagens financeiras para garantir o funcionamento do negócio ilegal e impedir a fiscalização do Estado. Munidos de mandados judiciais, agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais, a Core, a unidade de elite da Polícia Civil, entraram na comunidade para cumprir as ordens de prisão e busca e apreensão.

Ao perceber a entrada dos policiais, Ratomen decidiu orquestrar uma resistência armada violenta para frear o avanço das equipes táticas. Ele montou uma emboscada nas vielas escuras, contando com o apoio direto de Matué e Mangabinha, dois de seus homens de maior confiança dentro do Comando Vermelho. Os criminosos foram posicionados em pontos elevados e atrás de muros estratégicos. Assim que os policiais da Core avançaram, os traficantes iniciaram uma chuva de disparos de armas de fogo automáticas. No meio do tiroteio intenso, o inspetor de polícia José Antônio Lourenço Júnior foi atingido gravemente pelos projéteis. O agente chegou a ser socorrido pelos colegas e levado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu.

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A caçada humana ao trio e a vulnerabilidade de Ratomen

A morte do policial Lourenço Júnior transformou a captura dos envolvidos em uma questão de honra para a segurança pública fluminense. Uma força-tarefa de grande porte foi criada imediatamente para caçar os responsáveis pela emboscada. Ratomen passou a figurar na lista dos criminosos mais procurados do estado. O setor de inteligência fechou o cerco, monitorando familiares, interceptando comunicações e vigiando os passos de pessoas ligadas ao núcleo do tráfico na Cidade de Deus. Foi no decorrer dessa investigação que os agentes descobriram uma vulnerabilidade física do chefe do tráfico: Ratomen havia sofrido um acidente grave de motocicleta semanas antes e estava com sérias dificuldades para andar e se locomover de forma rápida.

Essa limitação física reduziu drasticamente as chances de fuga de Ratomen pelos becos labirínticos da comunidade. Após semanas de monitoramento constante, os investigadores receberam uma denúncia precisa indicando que o chefe do Bairro 13 passaria a noite escondido em uma casa específica dentro da favela. Equipes policiais se deslocaram em silêncio e cercaram o perímetro do imóvel, bloqueando as saídas térreas e as rotas de fuga pelos telhados das residências vizinhas.

O confronto final e o segredo guardado no celular

Segundo o relatório oficial apresentado pelas autoridades policiais, os agentes tentaram realizar a abordagem na residência, mas Ratomen preferiu não se entregar. Ele abriu fogo contra os policiais, dando início a um novo confronto em espaço fechado. O traficante foi baleado no revide da equipe tática. Os policiais chegaram a prestar socorro e o encaminharam para a unidade de saúde mais próxima, mas ele foi declarado morto pouco tempo depois de dar entrada no hospital. No local do confronto, a polícia apreendeu a arma do criminoso e o seu telefone celular.

A morte de Ratomen não encerrou a operação. Os peritos criminais conseguiram acessar os dados do smartphone apreendido, encontrando um vasto material que incluía conversas de aplicativos de mensagens, vídeos de execuções de rivais e relatórios financeiros da facção. Essas informações serviram de base para identificar dezenas de outros integrantes do Comando Vermelho e abrir novas frentes de investigação.

Nos meses seguintes, o destino dos outros dois envolvidos na morte do policial da Core foi igualmente trágico. Matué foi localizado e morreu em decorrência de ferimentos sofridos em outro confronto com a polícia. Já Mangabinha, identificado como o autor do disparo que matou o policial Lourenço, tentou se esconder em outras favelas, mas ao retornar para a Cidade de Deus, foi localizado pela Polícia Civil, reagiu à prisão e também faleceu no confronto.

Exu e o reinado de terror do Bonde do Maluco na Bahia

Enquanto as forças de segurança do Rio de Janeiro desarticulavam o grupo responsável pela morte do agente da Core, no estado da Bahia, outro criminoso de alta periculosidade trilhava um caminho semelhante de violência e exibição na internet. O personagem central da criminalidade baiana era Edson de Jesus Carvalho Júnior, que atendia no submundo pelo apelido de Exu. De acordo com as informações fornecidas pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia, Edson era apontado como uma das lideranças do Bonde do Maluco, facção conhecida pela sigla BDM, que disputa o controle do tráfico de entorpecentes em Salvador e no interior do estado.

Exu concentrava suas operações criminosas no Calabar, um bairro com histórico de conflitos urbanos na capital baiana. Ele era considerado o braço direito e o homem de total confiança de Averaldinho, um dos traficantes mais influentes da organização. O histórico criminal de Exu era extenso, acumulando passagens registradas na polícia por tráfico de drogas, porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, receptação de mercadorias roubadas e formação de quadrilha. No entanto, foi a sua postura desafiadora e violenta na internet que fez com que ele se tornasse um dos alvos prioritários do governo baiano.

As provocações nas redes sociais e o pânico no Calabar

Assim como Ratomen no Rio de Janeiro, Exu utilizava as redes sociais como uma ferramenta de intimidação e propaganda criminosa. Ele publicava constantemente vídeos e fotos cercado por seus comparsas de facção, todos encapuzados e portando fuzis de assalto e submetralhadoras. Nas gravações, Exu fazia provocações diretas e ameaças de morte aos integrantes de facções rivais, como o Comando Vermelho, deixando claro que estava pronto para a guerra e que considerava a região do Calabar como um território impenetrável.

Em uma de suas transmissões em vídeo mais conhecidas, Exu aparecia gritando palavras de ordem, afirmando que o Bonde do Maluco estava no comando e que qualquer tentativa de invasão dos rivais seria respondida com violência extrema. Ele se autodenominava o caçador de almas e desafiava inclusive as operações policiais na área. Essa conduta espalhava o pânico entre os moradores locais, que eram obrigados a conviver com o toque de recolher, com a presença ostensiva de homens armados nas calçadas e com o risco constante de balas perdidas resultantes dos tiroteios entre os grupos criminosos rivais.

O cerco da Rondesp e o desfecho no hospital de Salvador

A postura audaciosa de Exu acelerou os trabalhos do setor de inteligência da Polícia Militar da Bahia. O nome do traficante foi incluído nas principais ordens de missão das equipes táticas que operavam na capital. O desfecho de sua trajetória criminosa ocorreu durante uma grande operação deflagrada em uma tarde no bairro do Calabar, conduzida por policiais do Batalhão de Patrulhamento Tático Móvel, a Rondesp. As equipes realizavam incursões a pé pelas áreas de rampa e becos do bairro quando se depararam com um grupo de homens armados.

Conforme o relato oficial emitido pelo comando da Polícia Militar, os criminosos começaram a disparar contra as guarnições assim que notaram a aproximação dos policiais. Os militares revidaram a agressão, iniciando um tiroteio em meio às moradias. Durante a troca de tiros, Exu foi baleado várias vezes. Ele foi recolhido pelos próprios policiais e levado com vida ao Hospital Geral do Estado, em Salvador, mas a gravidade dos ferimentos provocados pelos projéteis impediu a sua sobrevivência. Com ele, os policiais apreenderam uma pistola calibre 9 mm com numeração raspada e uma quantidade expressiva de entorpecentes prontos para a comercialização. A notícia de sua morte espalhou-se rapidamente pelas redes sociais, encerrando a trajetória de uma das principais vozes da facção na capital baiana.

A semelhança das trajetórias e a lição do crime organizado

Apesar de terem operado em cenários geográficos distantes e sob as bandeiras de organizações criminosas rivais, os casos de Ratomen no Rio de Janeiro e de Exu na Bahia guardam uma semelhança evidente em sua essência. Ambos representam uma geração de criminosos que buscou legitimar sua liderança por meio da espetacularização da violência, do uso de armamentos pesados e da ilusão de que as redes sociais poderiam servir para intimidar não apenas os seus inimigos do crime, mas também as próprias instituições do Estado.

A tentativa de criar zonas autônomas de criminalidade, onde a lei do tráfico se impõe sobre o direito dos cidadãos, gera uma resposta inevitável das forças de segurança pública. O uso da tecnologia forense, o cruzamento de dados digitais fornecidos involuntariamente pelos próprios criminosos e a persistência das investigações de campo demonstraram que nenhum território é inacessível para a polícia. As mortes de Ratomen, Matué, Mangabinha e Exu encerram capítulos de violência nas crônicas do crime organizado brasileiro, servindo como um lembrete real de que a vida no crime é uma ilusão que cobra o preço mais alto possível: a própria vida.

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