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A Traição do Ganso: Como Zóio de Gato Vendeu o PCC à Polícia e Acabou Servindo de Exemplo no Tribunal do Crime

O submundo do crime na Grande São Paulo é regido por leis invisíveis, onde a lealdade é a moeda de maior valor e a traição é punida com a própria vida. Durante anos, um homem circulou livremente por esse universo de sombras, transitando entre os becos dominados pela maior facção criminosa do país e os gabinetes de agentes públicos de moral duvidosa. Roberto Hipólito Rut Causcas, conhecido nas ruas pelo apelido de Zóio de Gato devido aos seus chamativos olhos claros, acreditou que poderia enganar o sistema.

Após construir uma trajetória de confiança dentro do Primeiro Comando da Capital, o PCC, ele tomou a decisão de trilhar o caminho mais perigoso do crime: transformou-se em informante. Ao vender segredos estratégicos da organização para policiais civis corruptos, ele deflagrou uma guerra silenciosa que culminou em sua caçada, em um julgamento sumário e em uma execução bizarra cujo rastro de sangue foi exibido com requintes de crueldade nas redes sociais.

A ascensão do motorista de confiança na zona norte de São Paulo

Morador da zona norte da capital paulista, Roberto iniciou sua caminhada na criminalidade de forma discreta. Ele não ostentava o status de uma liderança de primeiro escalão, mas sua frieza ao volante e o amplo conhecimento das rotas de fuga da metrópole fizeram com que ele ganhasse espaço dentro da facção. Ele passou a exercer a função estratégica de motorista do grupo, sendo o responsável direto por transportar os integrantes da organização antes e depois da realização de assaltos e cobranças, além de garantir a rota de escape em operações de altíssimo risco contra as forças estatais.

Foi justamente no cumprimento dessa função que Roberto carimbou sua ficha criminal com um caso de extrema gravidade. No mês de janeiro de 2019, ele participou ativamente da logística que resultou no sequestro e na morte de Cléberson do Santo Santana. Dias antes do crime, Cléberson havia intervindo em uma discussão familiar para defender sua própria irmã das agressões do cunhado. O agressor, contudo, possuía fortes ligações com a cúpula da facção e decidiu levar a briga para ser resolvida pelas leis das ruas. A sentença decretada foi a morte.

Roberto foi o homem incumbido de buscar Cléberson em sua casa, conduzindo-o sob o pretexto de que iriam apenas conversar. A vítima entrou no carro sem desconfiar que o motorista de olhos claros o estava levando direto para uma emboscada em uma estrada isolada da zona norte, onde os carrascos já aguardavam para o fuzilamento. A investigação da Polícia Civil identificou a participação de Roberto na movimentação, resultando em seu indiciamento e no decreto de sua prisão preventiva.

A metamorfose na prisão: o surgimento do ganso do outro PCC

O período passado atrás das grades modificou completamente as ambições de Roberto. Em maio de 2023, ao obter o benefício da liberdade condicional, ele já havia estruturado uma nova e lucrativa forma de ganhar a vida no submundo. Roberto assumiu o papel de ganso, o termo utilizado para designar os informantes que coletam dados sigilosos para repassar às autoridades. Ele passou a mapear o funcionamento detalhado dos pontos de venda de drogas, a localização exata de cargas roubadas e a verdadeira identidade dos criminosos que operavam na zona norte e no município vizinho de Guarulhos.

O grande diferencial desse negócio era o destino das informações. Roberto não abastecia os canais oficiais da corregedoria ou delegacias íntegras, mas sim uma estrutura criminosa formada por policiais civis corruptos, apelidada no submundo de o outro PCC. Esses agentes públicos utilizavam as dicas valiosas enviadas pelo informante para realizar extorsões milionárias contra os próprios traficantes da facção e roubar carregamentos inteiros de substâncias ilícitas para revenda posterior. Em troca do serviço de espionagem, Roberto recebia pagamentos financeiros frequentes diretamente em sua conta bancária por meio de transações via Pix, deixando um rastro documental definitivo de sua atividade ilícita.

O excesso de confiança fez com que Roberto rompesse as barreiras da prudência. Ele passou a utilizar o seu perfil aberto e público na rede social Facebook para coletar novas denúncias. Em postagens públicas, o informante oferecia recompensas em dinheiro para qualquer internauta que enviasse detalhes, nomes e endereços de gerentes do tráfico da região. Essa exposição escancarada atraiu os olhos da inteligência da facção. Os comentários de suas fotos foram inundados por xingamentos de X9 e cagueta, acompanhados por promessas explícitas de morte que Roberto, de forma arrogante, optava por ignorar.

O confronto na madrugada: a gravação do vídeo e a promessa de beber sangue

A contagem regressiva para a execução de Zóio de Gato começou na noite de 3 de setembro de 2023. Roberto, acompanhado de sua companheira e do filho do casal, um bebê de apenas 2 anos, deslocou-se até o Armazém Maia Gastrobar, uma conhecida casa noturna localizada em Guarulhos, para comemorar um aniversário. A família acomodou-se em uma mesa no primeiro pavimento do estabelecimento, e a noite transcorreu sem novidades até a madrugada.

Por volta das duas horas e trinta minutos da manhã, a companheira de Roberto afastou-se temporariamente da mesa para levar a criança até a praça de brinquedos do local. Aproveitando a ausência de testemunhas familiares, dois homens desceram silenciosamente do segundo andar do bar e realizaram uma abordagem agressiva contra Roberto. Os indivíduos queriam a confirmação imediata se ele era o famoso informante conhecido como Zóio de Gato. O homem negou o apelido e tentou afastar as acusações de traição. Para proteger a integridade do filho e da esposa, Roberto pediu que a mulher permanecesse na mesa e acompanhou os dois desconhecidos até a calçada, na porta do estabelecimento.

Do lado de fora do bar, o clima esquentou. Da janela do piso superior, a companheira de Roberto assistiu a uma cena aterrorizante: um dos homens sacou o celular e posicionou a câmera diretamente contra o rosto do informante, gravando um vídeo de 40 segundos onde exigia explicações. Pressionado e temendo ser baleado ali mesmo, Roberto confrontou os homens verbalmente, afirmando de forma ríspide que era contra as diretrizes do Primeiro Comando da Capital. O homem que operava a gravação encerrou o vídeo com uma promessa macabra: garantiu que Roberto iria morrer nas próximas horas e que ele faria questão de beber o sangue do informante como se ele fosse um inseto. Assim que o vídeo foi finalizado, os criminosos viraram as costas e deixaram o local.

A paranoia dos treze dias e a emboscada na rodovia Presidente Dutra

Roberto retornou para o interior do bar completamente abalado e com o semblante desfigurado pelo medo. Ele pegou o próprio telefone e fez uma ligação de emergência para uma pessoa de sua total confiança para relatar o teor da ameaça. Em seguida, ordenou que a esposa recolhesse a criança, avisando que eles não poderiam retornar para a residência da família sob o risco de serem chacinados. Naquela madrugada, o trio buscou abrigo em um hotel de Guarulhos. A preocupação do informante tinha fundamento técnico: poucas horas após o confronto no bar, o vídeo de 40 segundos já havia sido disparado em grupos de WhatsApp que reuniam a liderança da facção, funcionando como a prova material de que Zóio de Gato havia falado demais.

Nos 13 dias que se sucederam, a paranoia destruiu a rotina de Roberto. Ele passou a viver como um animal acuado, alternando o local de repouso todas as noites entre hotéis baratos e sua casa, monitorando as janelas diante do medo constante de estar sendo seguido por veículos com vidros escuros que passaram a rodar a sua rua. Em um ato de desespero e empáfia, na véspera de seu sumiço, Roberto publicou o vídeo da discussão na sua própria página pública do Facebook, desafiando abertamente os criminosos com uma legenda afirmando que sua foto já circulava há 8 anos no crime e que as coisas não terminariam daquela forma.

No dia 16 de setembro de 2023, o casal e a criança saíram para jantar. Por volta das vinte e duas horas e trinta minutos, eles acionaram um veículo de aplicativo para retornar ao lar. Apenas cinco minutos após o início do trajeto, Roberto percebeu através do retrovisor que uma caminhonete Tucson de cor preta e vidros totalmente opacos seguia o automóvel em cada conversão. Entrando em pânico, ele ditou os caracteres da placa da Tucson para a esposa e ordenou que o motorista do aplicativo desviasse a rota e entrasse em um posto de combustíveis para testar a suspeita. A Tucson preta acompanhou o movimento e parou logo à frente, sem que nenhum ocupante desembarcasse.

Roberto ordenou que o motorista acelerasse rumo à Rodovia Presidente Dutra. A Tucson preta avançou em alta velocidade e colidiu propositalmente contra a traseira do carro de aplicativo para forçar a parada. O motorista do aplicativo, acreditando tratar-se de um acidente de trânsito comum, fez menção de encostar no acostamento, mas Roberto gritou desesperadamente do banco de trás para que ele não parasse, pois tratava-se de uma perseguição de morte. A Tucson realizou uma manobra de zigue-zague na pista, cortou a trajetória do automóvel e atravessou a carroceria na pista, bloqueando qualquer chance de avanço.

Três homens armados e usando balaclavas para cobrir os rostos desembarcaram rapidamente, enquanto um quarto cúmplice permaneceu na direção do veículo de fuga. A companheira de Roberto, agarrando o filho de 2 anos no colo, abriu a porta lateral e jogou-se no matagal escuro do acostamento para salvar a vida do bebê. Roberto tentou correr na mesma direção, mas foi alcançado pelos criminosos, dominado fisicamente e jogado para o banco traseiro da Tucson, que arrancou em alta velocidade em direção à Favela da Funerária, zona norte de São Paulo.

O tribunal do crime na viela e a condenação por Michael, o Neymar do PCC

A logística da execução exigiu uma troca rápida de veículos para despistar o rastreamento policial. Roberto foi transferido do interior da Tucson preta diretamente para o baú de carga fechado de uma picape Fiorino. O veículo utilitário adentrou o perímetro de uma favela e freou na entrada de uma viela estreita e escura. Do compartimento de carga, desembarcou Jeferson Rodrigues Alexandre, de vinte e nove anos, conhecido pela alcunha de Irmão Jó ou G, criminoso que exercia a função de disciplina dentro daquela comunidade, sendo o responsável por aplicar os castigos e guiar os presos da facção.

Uma testemunha ocular presenciou o momento em que Jeferson retirou Roberto do interior do baú da Fiorino. O informante já estava totalmente rendido, de cabeça baixa e com os braços amarrados para trás. Ele foi guiado pelas vielas até alcançar um paredão improvisado de concreto. No local, a estrutura para o julgamento sumário estava montada. Alisson Alexandre Borges, de trinta e dois anos, conhecido pelo apelido de TK, atuou de forma direta na contenção física da vítima, utilizando a sua força para imobilizar Roberto contra o solo e impedir qualquer esboço de defesa ou fuga.

A sessão do tribunal do crime foi presidida por Michael da Silva, conhecido no submundo como o Neymar do PCC, um dos homens fortes da organização responsável por capitanear os julgamentos e validar as execuções em nome da cúpula da facção. No vídeo gravado pelos próprios criminosos para prestar contas aos chefes, Michael aparece rapidamente vestindo uma camiseta da seleção brasileira e uma bermuda azul.

Assim que o veredito de morte recebeu o aval do resumo da facção via telefone, Alisson segurou Roberto com força contra o chão, e os atiradores desferiram múltiplos disparos de arma de fogo contra o informante, ceifando a sua vida de forma bizarra. O vídeo contendo as cenas explícitas do fuzilamento foi amplamente distribuído em grupos de WhatsApp e, de forma acintosa, deixado pelos criminosos nos comentários da própria página de Facebook da vítima. O corpo de Roberto nunca foi localizado, tendo sido ocultado pela organização.

A mãe que reconheceu o filho no vídeo da execução e o desfecho das prisões

O caso passou a ser investigado pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil, que utilizou as imagens da execução espalhadas na internet como a principal prova material para identificar a autoria do crime. Ao realizarem uma análise frame a frame da gravação do assassinato, os peritos conseguiram isolar o rosto do homem que segurava Zóio de Gato contra o solo. Tratava-se de Alisson Alexandre Borges, o TK. Munidos com o arquivo de vídeo em alta definição, os policiais civis deslocaram-se até a residência da família do suspeito e exibiram as cenas da execução diretamente para a mãe de Alisson. Ao assistir à brutalidade do ato cometido pelo próprio filho, a mulher desabou em prantos e confirmou a identidade do rapaz, desfazendo qualquer possibilidade de álibi ou defesa jurídica.

O reconhecimento materno permitiu que a polícia civil traçasse a rota de fuga de Alisson, que foi localizado e capturado em uma operação secreta na cidade de Jacobina, localizada no interior do estado da Bahia. Atrás das grades, o homem confessou que integrava as fileiras da facção desde o ano de 2019 e admitiu que participou da missão cumprindo ordens superiores.

Através do depoimento da testemunha que presenciou o desembarque na viela, os investigadores também confirmaram o indiciamento de Jeferson Rodrigues Alexandre, o Irmão Jó, como o responsável por capitanear a Fiorino e entregar o informante para a morte. Jeferson teve o mandado de prisão preventiva decretado, mas conseguiu permanecer foragido do radar policial por um longo período. Exatamente um ano após a morte de Roberto, demonstrando o seu alto grau de periculosidade, Jeferson coordenou um assalto armado que roubou o valor impressionante de 1,1 milhão de reais em medicamentos caros utilizados no tratamento de pacientes com câncer de uma distribuidora de saúde.

Ele acabou sendo capturado em agosto de 2025 e agora acumula acusações pelos dois crimes. No dia 17 de setembro de 2025, a justiça também decretou a prisão preventiva de Michael da Silva, o Neymar do PCC, fechando o cerco contra a liderança do tribunal. Assim terminou a história de Zóio de Gato, o homem que tentou lucrar vendendo informações da facção para policiais corruptos, mas acabou caindo na mesma armadilha de morte que um dia ele ajudou a construir para os seus próprios inimigos.

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