O asfalto da BR101 parecia uma fita negra e derretida, tremeluzindo sob um sol que não dava tréguas. Dentro da cabine do meu Scania, o Estrelão, o ar condicionado, soprava um vento que era mais morno do que frio, uma batalha perdeu-se contra o calor de Santa Catarina. O cheiro era o habitual, uma mistura de gasóleo, do couro já gasto do banco e do café que tinha entornado na noite anterior.
No painel, uma foto amarelada da minha falecida mulher, um terço pendurado no retrovisor e o pó de mil estradas. O motor roncava baixo, uma melodia constante e grave que para mim é mais calmante do que qualquer música. É a banda sonora da minha vida há mais de 30 anos. O meu nome é Júlio, tenho 52 anos e se esta estrada falasse, ela contaria mais história minha do que eu até me consigo lembrar.
Eu vinha de Itajaí, carregado com uma peça de navio, um frete bom, mas pesado que só o diabo. A cabeça, como sempre, estava longe. Pensava no preço do gasóleo que não para de subir, na saudade de um alimento caseira, naquela mistura de cansaço e solidão que é a companheira fiel de todo o o estradeiro.
A gente habitua-se, mas nunca gosta. Foi nesse devaneio, nesse piloto automático da alma que a vi parada na berma, perto de uma daquelas entradas de quinta que parecem não levar a lado nenhum. Uma rapariga nova, devia ter os seus 20 e poucos anos. Usava um vestido simples, florido, de um tecido leve, que dançava com a brisa quente que subia do asfalto.
Segurava uma mochila pequena, coçada, como se ali dentro estivesse tudo o que ela tinha no mundo. O sol batia-lhe forte, mas ela não parecia importar-se. estava ali parada com uma tranquilidade que não combinava com aquele cenário. Meu primeiro instinto, o instinto treinado por anos de perrengue e histórias de terror foi seguir em frente.
A gente aprende a ser desconfiado neste trecho. A estrada não é lugar para anjo e a gente já ouviu de tudo. Golpe da donzela, assalto disfarçado, gente que entra na cabine e anuncia o inferno. Mas algo me fez tirar o pé do acelerador. Talvez o forma como ela olhou quando o camião se aproximou-se, sem desespero, sem acenar com afobação, só com uma esperança serena no rosto. Não sei explicar.
Senti uma coisa no peito, uma picada, uma voz que não era a minha, mas que soava familiar, dizendo para parar. Era quase uma ordem. Encostei o estrelão uns bons metros à frente, o ruído do freio a ar cortando o silêncio do mormaço. Olhei pelo retrovisor. Ela caminhou sem pressa, com uma leveza que contrastava com o peso do o meu camião.
Abri a porta do pendura, o ar quente a invadir a cabine. “Boa tarde. A senhora está a precisar de ajuda?”, perguntei, tentando manter a voz firme de quem está no controlo. Ela sorriu. E que sorriso! Juro por Deus, parecia que alguém tinha acendido uma luz no interior da cabine. Um sorriso que não pedia nada, só agradecia. Só de uma boleia se não for incómodo.
Vou até ao próximo posto, o Estrela do Sul. Eu conhecia o posto. Ficava a uns bons 80 km dali, uma distância considerável para se esperar debaixo daquele sol. Olhei para ela de novo, tentando encontrar algum sinal de malandragem, alguma coisa fora do lugar. Não encontrei nada. Parecia uma estudante, talvez uma rapariga simples indo visitar a família.
Pode subir, mas o ar não está a gelar muito, viu? A coisa está fraca. Não há problema. Agradeço a gentileza. Ela disse, subindo com uma agilidade surpreendente. Ela se ajeitou-se no banco, colocou a mochila no colo e ficamos em silêncio durante algum tempo enquanto manobrava o gigante de volta para a pista.
O camião pegou velocidade de novo e o roncar do motor encheu o espaço. Ela olhava a paisagem a passar, os montes verdes, o céu azul sem uma nuvem, com um fascínio que eu, de tanto ver, já já nem notava. “Como se chama?”, perguntei para quebrar o gelo e a minha própria desconfiança. “Pode chamar-me de Lia?”, respondeu ela, virando o rosto para mim.
A voz dela era calma, suave, trazia uma paz. que não sentia há muito tempo. Sou o Júlio. Conversamos um pouco, coisa parva sobre o calor, sobre o movimento da estrada, sobre como a colheita parecia boa este ano. A voz dela era mansa e a conversa fluía sem esforço. Passados uns 10, 15 km, o silêncio voltou. Mas não era um silêncio estranho, era confortável, como se a gente se conhecesse de outras viagens.
Foi então que do nada ela se virou para mim, aquele mesmo sorriso enigmático no rosto e disse a frase que arrepiou até ao último pelo meu braço e fez com que o meu pé tremer no acelerador. Espero que você esteja pronto, Júlio. O camião deu uma ligeira balançada. Olhei para ela confuso, o coração começando a bater mais forte, como um motor desregulado. Pronto.
Para quê? O que queria aquela rapariga dizer com aquilo? A estrada à nossa frente parecia a mesma, mas de repente tive a certeza absoluta de que aquela viagem, aquele frete que era para ser só mais um, tinha acabado de mudar de rumo. E lá, o meu amigo e a minha amiga da estrada, gostaram do início desta história? Fica aqui comigo para descobrir o que esta rapariga misteriosa queria dizer.
Se já sentiu um arrepio na estrada ou tem uma história semelhante, deixa aqui nos comentários. Quero muito saber o que encontraram e não se esquece, se subscreve o canal, ativa o sininho que todas as semanas tem história nova pra gente rodar junto neste Brasilzão. Valeu. Pronto. Pronto para quê, menina? – perguntei, tentando que a voz saísse firme, mas ela saiu meio falhada, traindo o nervosismo que subia pela a minha espinha.
As minhas mãos calejadas de tanto segurar aquele volante apertaram o couro com mais força. A gente ouve cada história neste excerto, que a primeira coisa que me vem à cabeça é problema. Assalto, golpe, rapto, relâmpago. A minha mente disparou, calculando rotas de fuga, pensando no machete que eu guardava debaixo do banco. Lia não desfez o sorriso.
Ela continuou a me olhando com aqueles olhos claros que pareciam saber de coisas que eu nem imaginava que existiam. para viagem de verdade. Ela respondeu de uma forma simples, como se estivesse a falar do tempo, da chuva, que talvez viesse mais tarde. Aquilo não me acalmou nem um pouco. Pelo contrário, olha, menina, com todo o respeito do mundo, não estou compreendendo essa sua conversa.
A viagem aqui é uma só. Pegar nessa carga em Itajaí e deixar em Porto Alegre. Não tem mistério, não tem segredo, é asfalto, diesel e braço. Tentei trazer a conversa de volta para o meu mundo, para a realidade concreta do frete, do camião. Toda a viagem tem um destino que conhecemos, Júlio, e outro que a gente só descobre no caminho.
Ela disse e com a mesma naturalidade voltou a olhar pela janela, como se tivesse dito a coisa mais óbvia do mundo. Fiquei quieto. O que eu ia responder a uma coisa dessas? A cabeça começou a trabalhar, tentando encontrar uma explicação lógica. Tentei lembrar-me se tinha dito o meu nome para ela. Sim, tinha dito. Mas a forma como ela falava parecia que conhecia-me de outros carnavais, de outras vidas.
O suor começou a escorrer pela minha testa e desta vez não era só o calor. Eu estava com medo. Não sei dizer. Era mais uma estranheza profunda, uma sensação de que não estava no controlo da situação. E para um camionista, não ter o controlo do seu bruto e da sua viagem é o pior que existe. É como um marinheiro sem leme no meio do oceano.
Decidi testar, tentar perceber quem ela era. Escuta, Lia, este posto que vai, o Estrela do Sul, tem lá um parente seu, alguém à sua espera, seu marido, namorado. Ela demorou um pouco para responder, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. Não exatamente. Tenho um encontro marcado com uma recordação.
A cada resposta a coisa ficava mais esquisita. Encontro com uma recordação. Que raio de conversa era aquela? Comecei a pensar seriamente que talvez ela não estivesse bem da cabeça. A gente encontra todo o tipo de gente por aí, gente sofrida, que o mundo maltratou e deixou meio fora do eixo. Talvez fosse só uma coitadinha a falar coisa com coisa.
Tentei ser mais amável, alterar o tom. Entendo. A vida na estrada é cheia de recordação mesmo. A gente passa por um local e lembra-se de um amigo, de um caso, de um tempo bom que não volta mais. Cada curva tem uma história, certo? Ela voltou a virar-se para mim e dessa vez o sorriso tinha desaparecido. O olhar dela era profundo, quase triste e parecia atravessar a minha pele.
E de um tempo mau também, não é, Júlio? Tem cargas que nós levamos que não estão no manifesto de frete, cargas que não vão na carroçaria, pesam mais do que qualquer contentor, pesam na alma. Aquilo me atingiu como um murro no estômago, um golpe baixo, inesperado. Como é que ela podia saber? Eu nunca fui de abrir a minha vida para ninguém, muito menos para uma estranha que apanhei na beira da estrada, mas era a mais pura das verdades.
Eu carregava um peso, um peso que já durava quase 10 anos, um peso chamado culpa. A imagem da minha filha Mariana veio na a minha cabeça, clara como o dia lá fora, o sorriso dela, os olhos a brilhar e a última vez que a vi a acenar-me à porta de casa enquanto saía com o camião para mais uma viagem. Uma viagem da qual regressei, mas ela não me esperava mais.
“Não sabe de nada da a minha vida”, disse eu. A voz mais rouca e baixa do que eu queria. Era uma defesa fraca. E ambos sabíamos disso. Eu sei que és um homem bom, Júlio, mas que esqueceu-se de ser bom consigo mesmo. Ela falou baixinho, quase um sussurro. Às vezes precisamos de alguém para lembrar o caminho de regresso a casa. Mesmo que já estejamos na estrada há muito tempo, o silêncio que se seguiu foi pesado, denso.
O ronco do estrelão parecia mais alto, o ar na cabine mais difícil de respirar. Eu não sabia o que pensar daquela moça, se era um anjo, uma louca ou só alguém muito esperto que sabia ler a tristeza nos olhos das pessoas. Mas uma coisa era certa, ela tinha tocado na minha ferida. A ferida que eu tentava esconder de todo o mundo e, principalmente, de mim mesmo, debaixo de milhares e milhares de quilômetros de asfalto.
Continuei dirigindo, mas era como se outra pessoa estivesse no comando. Meu corpo estava ali, as mãos no volante, os pés nos pedais, mas minha cabeça estava a mil. As palavras da Lia ecoavam dentro de mim, misturadas com o barulho do motor, cargas que pesam na alma. Ela tinha me lido como um livro aberto, um mapa rodoviário que ela conhecia de cor.
Tentei me concentrar na estrada, nas placas, no movimento dos outros carros, mas era como se a presença dela ao meu lado mudasse a própria paisagem. O sol parecia mais forte, as sombras na pista mais longas e ameaçadoras. Eu, que conhecia cada curva daquele trecho como a palma da minha mão, que sabia onde cada buraco se escondia, de repente me senti um estranho no meu próprio território, um novato na primeira viagem.
Estávamos nos aproximando da Serra do Azeite, um trecho que todo caminhoneiro respeita. O nome já diz tudo. A pista fica escorregadia com qualquer garoa e as curvas são fechadas, traiçoeiras, com precipícios que não perdoam. É um lugar que exige atenção total, onde a gente prende a respiração na descida e só solta lá embaixo.
Qualquer vacilo ali pode custar caro. Já vi muito colega bom ficar por aquelas bandas. Eu reduzi a marcha, o som grave do freio motor, ajudando a segurar as 40 toneladas do estrelão. O caminhão balançava suavemente, obedecendo aos meus comandos. Era o meu mundo, o único lugar onde eu sentia que tinha algum controle, pelo menos até aquele dia.
Enquanto eu me preparava para entrar na primeira curva fechada, uma daquelas que a gente não enxerga o que vem depois, que a gente faz na fé, Lia falou de novo. A voz dela continuava calma, mas tinha uma firmeza, uma urgência que me fez prestar atenção imediatamente. Júlio, diminui mais, bem mais.
Tem um caminhão parado logo depois da curva. Um pneu do lado esquerdo estourou e ele está atravessado na pista. Parei por um segundo. Olhei para ela incrédulo. Como ela podia saber disso? Não tinha como ver. Não tinha rádio ligado. O celular estava sem sinal naquela área. Era impossível. Minha primeira reação foi de desconfiança, de irritação.
Como é que você sabe? Você tem bola de cristal agora? Eu só sei. Por favor, vai com calma”, ela insistiu, o olhar fixo na estrada à frente, como se estivesse vendo através da montanha de pedra. Confia em mim. Uma parte de mim, a parte calejada e racional do caminhoneiro velho de guerra, queria ignorar, queria acelerar e provar que era bobagem, coisa da cabeça dela.
Mas a outra parte, a que tinha se arrepiado com as palavras dela antes, a que sentia que aquela carona não era por acaso, essa parte me dizia para escutar. Lembrei do que meu pai, que também foi do trecho, dizia: “Na dúvida, meu filho, pisa no freio. É melhor chegar atrasado nesse mundo do que adiantado no outro”.
Uma sabedoria simples, mas que já tinha me salvado de algumas. Respirei fundo e obedeci. Reduzi ainda mais a velocidade. Joguei uma terceira marcha quase parando. Entrei na curva devagar, com o pé no freio, esperando a qualquer momento uma buzinada de alguém com mais pressa atrás de mim. O estrelão contornou a pedra lentamente, o pneu cantando baixo no asfalto e quando a pista se abriu de novo na minha frente, eu gelei. Meu sangue virou água.
Lá estava, exatamente como ela disse, uma carreta bitrem carregada de toras de madeira parada bem na saída da curva, ocupando metade da pista. A roda dianteira do lado do motorista estava no chão, os pedaços do pneu espalhados pelo asfalto como se uma bomba tivesse explodido ali. O motorista estava do lado de fora, com as mãos na cabeça, o rosto pálido de pavor, olhando o estrago.
Se eu viesse na minha velocidade normal, a uns 60 ou 70 por hora, eu não teria tempo de frear. teria que jogar o caminhão pro acostamento, que era um barranco, ou bater em cheio na traseira dele. De qualquer um dos jeitos, o estrago ia ser feio, muito feio. Passei devagar pelo caminhão parado, o coração batendo na garganta. O motorista me olhou com um aceno de agradecimento por eu ter diminuído.
Eu só consegui balançar a cabeça ainda em choque, a imagem do que poderia ter acontecido passando em câmera lenta na minha mente. Depois que passamos o perigo e a estrada se abriu, olhei para Lia. Ela estava tranquila, olhando a paisagem, como se nada tivesse acontecido. Como? Como você sabia? Gaguei, a voz falhando.
Ela virou para mim e, pela primeira vez o sorriso dela parecia um pouco triste, carregado de uma compaixão que eu não compreendia. Às vezes, só precisamos prestar atenção nos sinais da estrada, Júlio. Estão sempre lá para quem quer ver. Eu não disse mais nada. Que sinais. Não tinha sinal nenhum. Aquilo não era normal.
Não era uma intuição, era uma certeza. Ela sabia. E se ela sabia daquilo, que mais poderia ela saber? O medo que senti antes deu lugar a um espécie de assombro, de respeito profundo. Aquela rapariga sentada ao meu lado não era uma boleia comum e tive a sensação de que o pneu rebentado na curva era apenas o primeiro aviso.
A viagem estava muito, muito longe de terminar. O episódio do pneu rebentado deixou-me mudo. Eu conduzia em automático, o corpo fazendo os movimentos que conhecia de core, mas a minha cabeça estava noutro lugar, rodando em parafuso. Quem era aquela mulher? Como é que ela podia saber das coisas? Cada teoria que tentava criar parecia mais absurda que a outra.
Tentei me convencer de que foi uma coincidência incrível, um palpite de sorte. Talvez ela tenha ouvido algo na rádio antes de eu apanhá-la, mas no fundo do meu peito, na boca do estômago, sabia que não era isso. Havia ali algo mais, algo que não conseguia compreender, e isso me assustava mais do que qualquer curva perigosa.
A tensão na cabine era palpável. O sol lá fora continuava forte, mas para mim era como se um nuvem escura tivesse parado em cima do estrelão. Aquele quase acidente na serra, aquele vislumbre da morte desbloqueou uma gaveta na minha memória que mantinha trancada as sete chaves. Uma gaveta que nunca abria, cheia de dor, pó e teias de aranha.
10 anos atrás. A imagem veio sem pedir licença. Eu estava num posto de abastecimento de combustível em algum lugar de Minas Gerais. A noite fria, o cheiro a café requentado no ar, a chamada a meio da madrugada, a voz do o meu cunhado embargada, partida do outro lado da linha. Julho aconteceu uma coisa com a Mariana, a minha filha, a minha única filha, a minha princesa do asfalto, como eu chamava-a.
Tinha acabado de fazer 17 anos, cheia de sonhos, a querer ser veterinária. Um condutor embriagado na contramão, numa pequena estrada perto de casa. Ela regressava da casa de uma amiga. Morte instantânea. A palavra instantânea nunca me pareceu tão cruel. Eu não estava lá. Eu estava a mais de 1000 km de distância correndo para entregar uma carga a tempo, preocupado com a comissão, com o tempo, com a porcaria do dinheiro.
Lembro-me de ter desligado o telemóvel nessa noite para poupar bateria. Lembro-me da minha esposa ter-me ligado mais cedo, dizendo que a Mariana queria falar comigo, que era importante, mas eu disse que regressava mais tarde, que estava com pressa. Depois ligo, meu amor. O pai está na correria, eu disse, este depois nunca chegou.
A culpa corroeu-me desde então, como ferrugem no chassis. E se eu estivesse em casa? E se eu tivesse atendeu o telefone? E se eu não tivesse escolhido essa vida, essa profissão que mantinha-me longe da minha família na maior parte do tempo? São questões que rodam na minha cabeça toda a noite em cada quilómetro solitário. A estrada que dava-me o pão de cada dia foi a mesma que me tirou a hipótese de dar um último abraço à minha menina, de ouvir o que ela tinha de tão importante para me dizer.
Perdido nesses pensamentos, nem Percebi que as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Grossas, quentes, silenciosas. Um soluço seco escapou-me da garganta, um som feio, de dor engasgada. Foi a primeira vez em anos que chorei à frente de alguém. Lia ficou em silêncio. Ela não disse: “Não chores” ou “Vai correr tudo bem”. Estas frases feitas que não consolam ninguém.
Ela apenas estendeu a mão e tocou-me no ombro de leve. Um toque simples, mas que pareceu ter um peso enorme, uma energia que me acalmou. Não a culpa foi tua, Júlio, disse ela. A voz tão suave que quase se misturava com o ronco do motor. Como não foi? Explodi, a dor e a raiva a vir tudo de uma vez, como uma inundação. Eu devia estar lá.
Eu era o pai dela. A minha obrigação era proteger a minha filha. E eu estava aqui neste camião maldito, correndo atrás de dinheiro. Desabafei, contei tudo sobre a chamada perdida, sobre a pressa, sobre a culpa que me esmagava todo o santo dia. Falei sem parar, as palavras saindo atropeladas, como se eu estivesse abrindo uma comporta que segurava uma inundação durante uma década.
Falei da minha esposa, que adoeceu de tristeza e me deixou dois anos depois, partindo em silêncio. Falei de como me afundei no trabalho, na estrada, fugindo de uma casa vazia e de um silêncio que gritava o nome da Mariana em cada divisão. Louviu tudo sem me interromper uma única vez. Os teus olhos nunca deixaram os meus, mesmo quando a olhava com o rosto desfigurado pelo choro.
Ela não me julgou. Ela não sentiu pena, apenas ouviu com uma presença que parecia absorver a minha dor. E quando eu terminei exausto, com o rosto molhado e a alma revirada, ela voltou a falar: “A gente faz as escolhas que pode com as ferramentas de que dispõe. Você estava a trabalhar, Júlio, estava a cuidar da a sua família da forma que sabia, do jeito que aprendeu.
O amor de um pai não se mede pela presença física, mas pela intenção do coração. E a sua intenção sempre foi a melhor. As palavras dela eram simples, mas entraram no meu coração como um bálsamo, como um remédio. Nunca ninguém me tinha dito aquilo. Todos diziam sempre: “Foi uma fatalidade! Deus assim o quis, mas ninguém nunca tinha validado a minha dor e ao mesmo tempo me ofereceu uma outra perspectiva, uma outra estrada.

Eu não sabia quem era Lia, mas naquele momento, naquela cabine quente, no meio do nada, ela era a única pessoa no mundo que parecia compreender o tamanho do peso que eu carregava. E pela primeira vez em muito tempo, senti uma fagulha minúscula de algo que já nem me lembrava mais o que era. A possibilidade do perdão, o perdão a mim mesmo.
Depois do desabafo, um silêncio diferente tomou conta da cabine. Não era mais um silêncio de tensão ou estranheza, mas de esgotamento, como a acalmia que vem depois de uma violenta tempestade. Eu me sentia vazio, mas no bom sentido. como se tivesse tirado um enorme peso das costas e o deixado para trás em alguma curva daquela serra.
Continuei a conduzir, mas agora a estrada parecia mais leve, as cores da paisagem mais vivas. Era como se o choro tivesse lavado não só o meu rosto, mas também os meus olhos. Preciso de parar para beber uma água e esticar as pernas, disse eu. A voz ainda um pouco rouca. Tem um paradouro bom aqui perto.
Comida caseira, café forte. Chama-se Recanto do Viajante. A gente aproveita e almoça se quiser. Por minha conta é uma boa ideia, Júlio. Eu aceito. Lia concordou com um sorriso gentil. Alguns quilómetros à frente, avistei a placa de madeira envelhecida. Entrei no pátio de terra batida do Recanto do Viajante. Era um lugar antigo que eu conhecia desde miúdo, quando viajava com o meu pai no seu velho Mercedes.
Tinha um restaurante simples, com varanda, uma borracharia nas traseiras e uma capelinha de santo, pequena e branca, logo à entrada. Parei o estrelão à sombra de uma mangueira enorme e desliguei o motor. O silêncio que se seguiu foi quase total, quebrado apenas pelo canto de alguns pássaros. e pelo zumbido de uma mosca preguiçosa. Descemos do camião.
O cheiro a mato e de comida a ser feita no fogão. A lenha trouxe-me uma sensação boa de familiaridade, de um tempo mais simples. Fomos em direção ao restaurante. Era um salão amplo, com mesas de madeira e paredes enfeitadas com fotos antigas, a maioria de camiões e motoristas que por ali passaram ao longo dos anos um verdadeiro museu da estrada.
Enquanto esperávamos pela comida, fui-me levantei-me para ver as fotos na parede. Era um hábito meu. Gostava de ver os rostos dos colegas, alguns conhecidos, outros anónimos, todos com a mesma marca de sol e cansaço nos olhos. Eram retratos a preto e branco, amarelados pelo tempo, rostos de homens e mulheres do excerto, gente com história para contar. E então o meu coração parou.
Minha a respiração ficou presa na garganta. Num canto mais escuro da parede, entre o foto de um FNM dos anos 60 e o calendário de uma borracharia de 1992, havia uma foto de uma festa junina que tinha acontecido ali no pátio do restaurante há muitos e muitos anos. E na foto, no meio da multidão, estava eu, uns 15 anos mais novo, mais magro, um sorriso rasgado no rosto, sem as rugas de preocupação que tenho hoje.
E ao meu lado, segurando a minha mão com força, com um vestido de chita, trancinhas no cabelo e as bochechas pintadas de batom, estava ela, a minha Mariana. Devia ter uns sete ou 8 anos na altura. Eu tinha-me esquecido completamente desse dia. Tínhamos parado ali numa viagem de férias paraa Bahia. Lembro-me agora.
Ela adorou a festa. comeu canjica, dançou quadrilha toda desengonçada, puxando-me para dançar junto. Lembro-me do sorriso dela, da alegria pura de criança, uma alegria que contagiava toda a gente. Fiquei parado, a olhar para aquela imagem como se tivesse sido transportado no tempo. A saudade veio com uma força que me deixou sem ar, mas pela primeira vez não era uma saudade que doía, era uma saudade que aquecia.
Senti uma presença ao meu lado. Era a Lia. Ela também olhava para a fotografia em silêncio. “Uma bela menina tinha uma luz especial”, disse ela baixinho. “Era a a minha vida”, respondi. A voz embargada passando o dedo sobre a imagem desbotada da minha filha. Eu já nem me lembrava desta foto, já nem me lembrava que a gente tinha parado aqui nesse dia.
As as recordações são como âncoras ou como velas, Júlio, ela falou sem tirar os olhos da foto. Elas podem prender-te no mesmo lugar, no fundo do mar da tristeza, afogando-te na culpa, ou podem ajudar-te a navegar, a seguir em frente, usando a força dos ventos do passado para te impulsionar. Você decide o que faz com as suas.
Olhei para ela e depois de volta para a foto. A Mariana da foto sorria para mim e pela primeira vez, ao em vez de sentir apenas a dor da perda, eu senti a alegria da recordação, a gratidão imensa por ter tido aqueles momentos com ela. A âncora que durante tanto tempo me manteve-se afundado, pareceu um pouco mais leve.
Talvez, só talvez pudesse transformá-la numa vela. Almoçamos em silêncio. A comida, que sempre achei boa, hoje parecia ter um sabor especial. O sabor de uma memória redescoberta. Quando regressámos ao camião, eu me sentia diferente. Aquele paradouro não era mais apenas um ponto na estrada, era um portal para o meu passado, um lugar que lia de alguma forma me fez revisitar.
Eu não sabia como, mas sentia que ela estava a guiar-me por um mapa que só existia dentro do meu próprio coração. E o destino final era ainda um completo mistério. O céu azul que nos acompanhou durante toda a manhã começou a mudar de cor quando voltamos a fazer-nos à estrada. Nuvensadas, cinzentas como chumbo, vieram do nada rolando do horizonte e cobrindo o sol.
Uma escuridão de fim de tarde caiu sobre nós em pleno meio-dia. O vento começou a soprar forte, abanando as árvores na beira da estrada e levantando poeira. Eu conhecia aquele tempo. Era sinal de temporal e dos bravos. O ar ficou pesado, elétrico. Chuva de verão. Vem forte, mas passa logo. Comentei mais para me tranquilizar do que para informar a Lia.
Era o que a gente sempre dizia, uma reza a São Cristóvão disfarçada de previsão do tempo. Mas a chuva que vinha não era uma chuvinha qualquer. O céu abriu-se. A água caía com tanta força que parecia que o mundo se estava a desfazer. Os limpa-para-brisas na velocidade máxima, não davam conta. A pista virou um espelho de água em segundos e a visibilidade desceu para quase zero.
Era como conduzir dentro de um rio. Reduzi a velocidade para uns 30 à hora. Acendi os faróis e o pisca alerta e agarrei-me ao volante com as duas mãos. Dirigir um veículo de 40 toneladas nestas condições é como tentar domesticar um monstro cego e furioso. Cada poça de água era um risco de aquaplanagem.
Cada farol que vinha na direção contrária era um clarão que cegava-nos por um instante. A estrada, que era a minha casa, de repente tornou-se um lugar hostil e perigoso. Comecei a pensar em parar no próximo posto, esperar que a tempestade passe. Era o mais prudente o que qualquer camionista com juízo faria. Foi quando Lia, que estava surpreendentemente calma ao meu lado, olhando para a cortina de água. à nossa frente.
Falou: “Não pares, Júlio, e não segue por aqui.” Olhei para ela sem compreender, a testa franzida. Como assim? Não tem outro caminho. A BR é esta aqui. O resto é mato. Tem um desvio. Uma estrada de terra batida, a cerca de 2 km à frente à direita. “Apanhem-na!”, disse Lia, com a mesma firmeza de antes, na curva da serra.
A voz dela era um ponto de acalmia no meio do caos da tempestade. Estrada de terra batida com essa chuva. Lia, isso é uma loucura. Eu quase gritei incrédulo. O camião vai atolar até ao eixo. Não há como passar. É demasiado perigoso. O certo é parar e esperar. O meu pai ensinou-me a não brincar com a chuva na estrada. Meu instinto de camionista, os meus 30 anos de experiência, tudo em mim.
gritava que aquela era a pior decisão possível. Era pedir para ficar encalhado no meio do nada durante dias. Confia em mim, Júlio. O perigo maior está à frente, na ponte. Por favor, toma o desvio. O jeito que ela disse à ponte deu-me um calafrio. O dilema instalou-se dentro de mim. Uma guerra entre a razão e algo que eu nem sequer sabia nomear.
De um lado, a lógica, a experiência, a prudência, tudo o que aprendi na vida. Do outro, a voz daquela mulher misteriosa que até agora se tinha provado certa em tudo. Lembrei-me do pneu rebentado, lembrei-me da sensação de que ela estava a guiar-me. Era uma escolha, um teste de fé, talvez. seguir o que eu conhecia e achava seguro, ou dar um saltar no escuro, confiando naquela sensação estranha que me acompanhava desde que ela subiu para a cabine.
A placa indicando o desvio, apareceu na minha frente, quase engolida pela cortina de água. “Fazenda boa esperança”, dizia. Era uma pequena estrada de quinta mal sinalizada, o tipo de lugar que nós passa a vida inteira sem sequer reparar que existe. Tinha segundos para decidir. A minha mente gritava: “Não é loucura!” Mas o meu coração, ou talvez aquela voz que não era minha, sussurrava: “Vai!” Respirei fundo, senti um frio na barriga e no último segundo virei o volante com força.
O estrelão saiu do asfalto seguro e entrou no mar de lama da estrada de terra. As rodas traseiras patinaram, o motor em protesto e o camião inteiro abanou como um navio atingido por uma onda. A cabine era sacudida pelos buracos e pela lama. O barulho da chuva no teto era ensurdecedor. Eu lutava com o volante, tentando manter o bruto na trilho estreito, cercada por cercas de arame farpado de ambos os lados.
Cada metro era uma vitória. Eu estava com medo, suando frio, perguntando-me que loucura tinha feito. Olhei para a Lia. Ela continuava serena, olhando para a frente, como se estivéssemos a passear num parque num dia de sol. Aquela calma dela, de alguma forma deu-me forças para continuar. Eu não sabia para onde aquela estrada de terra batida me ia levar, mas sabia que estava nela por um motivo e a ponte, a tal ponte que ela referiu, não me saía da cabeça.
Que perigo poderia haver ali. Foram os 20 km mais longos e difíceis da minha vida. A estrada de terra batida, que se transformou num rio de lama parecia não ter fim. O estrelão, meu guerreiro de tantas batalhas, gemia e sofria a cada buraco, a cada poça funda. A lama espirrava até para o pára-brisas e por várias vezes, achei que íamos atolar de vez.
Senti a traseira derrapar, o camião ameaçando fazer um L e precisei de toda a minha perícia para manter o gigante em linha reta. Eu estava exausto, com os braços doridos de segurar o volante com uma força descomunal, mas continuei em frente, movido por uma força que não era a minha. Era a confiança cega que eu tinha depositado nas palavras de Lia.
Uma confiança que desafiava toda a lógica. Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, avistei de novo o asfalto. A estradinha de terra batida desembocava de volta na BR101. Bem mais à frente de onde tínhamos saído. Quando as rodas do camião tocaram o piso firme e seguro da auto-estrada, soltei um suspiro de alívio tão grande que pareceu que tinha descarregado o camião inteiro ali mesmo.
Os meus ombros, que estavam tensos perto das orelhas, relaxaram. A chuva tinha diminuído, tornou-se uma chuva miudinha. O céu ainda estava cinzento, mas já era possível ver alguns rasgões de azul no horizonte. O pior tinha passado. Conseguimos, disse eu, mais para mim mesmo do que para ela. A voz rouca de tensão.
As minhas mãos ainda tremiam um pouco no volante. Liguei o rádio mais por hábito do que por qualquer outra coisa. Queria ouvir uma música, relaxar, tirar a cabeça daquele sufoco. Sintonizei numa rádio local, mas a primeira coisa que ouvi não foi música, foi a voz de um locutor num tom urgente no meio de um boletim de notícias extraordinário.
Repetindo a informação para os condutores que circulam pela região, a ponte sobre o rio Capivari, no qum 345 da BR101, acaba de ceder. As fortes chuvas fizeram o rio subir muito rapidamente e a cabeceira da ponte ruiu há poucos minutos. Há relatos de que alguns veículos, incluindo um autocarro de turismo e pelo menos um reboque, caíram ao rio.
As equipas de resgate já estão a caminho do local. A rodovia está completamente interditada nos dois sentidos. Eu gelei. O sangue fugiu-me do rosto. O qu fiz as contas de cabeça. Era exatamente onde estaríamos se tivéssemos seguido em frente. A ponte, o perigo que A Lia falou. Se não fosse ela, se eu não tivesse acreditado e apanhado aquele desvio louco, o Estrelão e eu poderíamos estar agora no fundo daquele rio, esmagados, afogados.
A imagem me veio-me à mente, nítida e terrível. Desliguei o rádio e encostei o camião na berma, o coração batendo descontrolado no peito, um tambor na caixa torácica. O motor ficou a funcionar em marcha lenta, mas o único som ouvia era o do meu próprio sangue pulsando nos ouvidos. Virei-me para a Lia. O O seu rosto estava sereno como sempre, mas os seus olhos pareciam carregar toda a sabedoria e a tristeza do mundo.
Ela sabia. Ela sabia o tempo todo. Não havia mais dúvidas. Não era coincidência, não era intuição, não era sorte. Era algo a mais, algo que não conseguia explicar com as palavras que eu conhecia. “Quem é você?”, perguntei. A voz a sair num sussurro, quase sem som. Você não é uma pessoa normal, és um anjo.
Quem é você de verdade? A Lia olhou para mim com uma ternura que me desmontou, que quebrou a última barreira de medo e desconfiança que eu tinha. Um pequeno sorriso brotou nos seus lábios. Eu sou apenas uma boleia, Júlio. Alguém para te lembrar que às vezes o caminho mais difícil é o que te leva para casa em segurança e que nem toda a tempestade vem destruir a sua vida.
Algumas vêm limpar o seu caminho. Ela olhou pela janela para o estrada à frente. Pode deixar-me ali na frente, naquela capela. O meu destino é ali. Olhei na direção para onde ela apontava. Há cerca de 200 m na berma estrada havia uma capelinha pequena, branca, com uma cruz de madeira no topo. A mesma capela que ficava na entrada do paradouro Recanto do Viajante, onde tínhamos almoçado.
Mas nós já tínhamos passado por ali há horas. Estávamos a dezenas de quilômetros de distância. Como poderíamos estar ali de novo? Minha cabeça deu um nó. A geografia, o tempo, a lógica, nada mais fazia sentido. Sem dizer uma palavra, engatei a primeira e dirigi lentamente até a capela. O caminhão parecia se mover por conta própria.
A viagem tinha chegado ao fim, pelo menos a dela, e eu sentia que a minha estava prestes a recomeçar. Parei o estrelão em frente à capela. A garua fina tinha parado completamente e um raio de sol tímido, mas forte furou as nuvens, iluminando a igrejinha branca e fazendo a grama molhada brilhar como se estivesse coberta de diamantes.
O ar estava limpo, com aquele cheiro bom de terra molhada e mato fresco. Parecia que o mundo tinha sido lavado, purificado pela tempestade. Lia pegou sua pequena mochila no colo. Antes de abrir a porta, ela se virou para mim. Seus olhos encontraram os meus e eu senti como se ela estivesse olhando diretamente para a minha alma, para aquele lugarzinho escuro e empoeirado onde eu guardava a minha dor.
A culpa não era sua, Júlio! Ela disse com a voz firme, mas cheia de uma doçura que desarmava. O que aconteceu com a Mariana não foi sua culpa. Foi uma daquelas coisas da vida que a gente não controla, não explica. Ela sabe disso. E onde quer que ela esteja, ela só quer que o pai dela encontre a paz. Ela quer te ver sorrindo de novo, lembrando das festas juninas.
Está na hora de você saber disso também. Solta essa carga. Ela não é sua. Nunca foi. Cada palavra dela foi como uma chave, abrindo uma fechadura enferrujada dentro de mim. a carga, a culpa, o peso que eu carregava há 10 anos, que me curvava as costas e me enchia de amargura. Naquele momento, eu senti esse peso se desfazendo, se tornando mais leve, se dissipando como a neblina da manhã.
Foi uma sensação física, real, como se toneladas de pedra tivessem sido retiradas de cima de mim. As lágrimas voltaram aos meus olhos, mas dessa vez não eram de dor ou de raiva. Eram lágrimas de alívio, de libertação, de uma gratidão tão imensa que não cabia no peito. Obrigado. Foi a única coisa que consegui dizer. A palavra saiu fraca, num sussurro, mas carregada de um significado que valia por uma vida inteira. Obrigado, Lia. Lia sorriu.
O sorriso mais bonito e sereno que eu já vi. Um sorriso que parecia conter toda a paz do universo. Se cuida, Júlio, e olha mais para o céu. Às vezes, as respostas que a gente procura no asfalto estão lá em cima. Ela abriu a porta, desceu os degraus do caminhão com a mesma leveza de quando subiu e caminhou em direção à capela.
Eu fiquei ali parado, observando-a. Ela subiu os degraus da igrejinha, abriu a porta de madeira e, antes de entrar olhou para trás uma última vez e acenou para mim. Um aceno de adeus. Eu acenei de volta com a mão trêmula. Ela entrou e fechou a porta. Fiquei alguns minutos ali parado, o motor do caminhão em marcha lenta, tentando processar tudo o que tinha acontecido, o encontro, a conversa.
os avisos, a ponte, a revelação. Quem era Lia? Um anjo, um espírito ou apenas uma pessoa iluminada que cruzou o meu caminho no momento em que eu mais precisava? Eu talvez nunca tenha a resposta. E no fundo acho que não preciso ter. A fé não precisa de explicação. Decidi descer do caminhão. Precisava esticar as pernas e colocar a cabeça no lugar. Caminhei até a capela.
Senti uma necessidade de entrar, talvez de agradecer, não sei. Subi os degraus, girei a maçaneta de ferro fria e abri a porta. A capela estava vazia. Era um lugarzinho simples, com uns poucos bancos de madeira e um altar pequeno com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A luz do sol entrava por uma pequena janela lateral, iluminando as partículas de poeira no ar, criando um efeito sagrado. Não havia ninguém.
Olhei atrás do altar nos cantos. Nada. Liava lá. Era como se ela tivesse se desfeito no ar, como se nunca tivesse existido. Voltei para o meu caminhão, me sentei no banco do motorista e chorei. Chorei como uma criança. Chorei pela minha filha, pela minha esposa, pelos anos de dor que carreguei sozinho, mas principalmente chorei de gratidão.
Terminei minha viagem, entreguei a carga em Porto Alegre e peguei o caminho de volta para casa. A estrada era a mesma, o caminhão era o mesmo, mas eu era outro homem. O peso nos meus ombros tinha sumido. A culpa tinha dado lugar a uma saudade serena, uma paz que eu não conhecia. Hoje eu continuo na estrada, mas dirijo diferente.
Presto mais atenção nas pequenas coisas, nos sinais. Às vezes, quando o sol bate de um jeito certo no para-brisa ou quando vejo uma borboleta voando ao lado da janela, eu sorrio, lembro de Lia e de vez em quando eu olho para o banco do carona, meio que esperando vê-la ali sentada. Ela nunca está, mas sei de alguma forma que a boleia dela nunca termina.
Ela me ensinou que podemos sim encontrar anjos à beira da estrada e que a viagem mais importante não é a que está no mapa, mas a que fazemos por dentro. E esta foi a história de hoje, pessoal. Uma viagem que começou com uma simples boleia e terminou com uma grande lição. O que acharam? Já passaram por alguma situação inexplicável neste trechão? Acreditam que existem encontros que não são por acaso? Deixa a tua opinião aqui nos comentários.
Vamos trocar uma ideia. A sua participação é o melhor combustível para esse canal. Se você gostou, não se esqueça de deixar aquele joinha, subscrever e ativar o sino para não perder nenhuma história. Um grande abraço a todos, fiquem com Deus e até à próxima. M.
Disclaimer : This content may be created by AI for entertainment purposes. Any resemblance to real persons, events, or places is coincidental.