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A Diária do Guincho Era R$9 Mil e Ele Desistiu da Carreta — O Velho Tirou Antes do Almoço

Na manhã de uma quinta-feira de fevereiro de 2024, um guincho pesado de R$ 9.000 R$ 1.000 por noite. Estava parado na berma de uma estrada vicinal do interior da Bahia, com o operador a guardar equipamentos na carroçaria e o cliente ao telefone gritando sobre o valor que tinha sido cobrado sem que o serviço tivesse sido concluído.

A carreta atolada ainda estava ali em pé, porém afundada até à metade dos pneus traseiros numa lama vermelha que tinha resistido a 2 horas de tentativas do guincho moderno. O cliente, proprietário de uma transportadora de médio porte de Vitória da Conquista, tinha enviado a carroça para buscar uma carga numa exploração no município de Itanhaçu.

A estrada vicinal de acesso à quinta tinha sido afetada por uma chuva intensa na madrugada anterior e o reboque tinha entrado no lamaçal logo nos primeiros 800 m depois de sair da estrada principal. O reboque era uma Scania R540 de 2022. Valor de mercado quase R$ 1.100.000, carregada com 29 toneladas de café em sacos.

O condutor, um homem de 52 anos chamado Saulo, conhecia bem a região, mas tinha sido apanhado de surpresa pela rapidez com que a estrada vicinal se tinha transformado em armadilha depois da chuva. Quando percebeu que estava atolando, era tarde demais. O motor da A Scânia tinha potência de sobra, mas a tração não se conseguia manter porque os pneus estavam a patinar no barro saturado.

Quanto mais acelerava, mais fundo afundava. Em poucos minutos, a carreta estava encalhada definitivamente. Saulo tinha acionado o serviço de socorro técnico da própria transportadora. O serviço tinha enviado um guincho pesado de uma empresa terceirizada de Vitória da Conquista, com um valor de mobilização de 6.000$, mais 9.000$ de diária.

O guincho tinha chegado às 7 da manhã, 3 horas depois do atolamento inicial. O operador, um técnico experiente chamado Wagner, tinha avaliou a situação durante 30 minutos antes de iniciar a operação. Tinha aplicado todas as técnicas modernas que conhecia, tinha tentado a tração direta perpendicular, tinha tentado a tração em ângulo lateral, tinha tentado utilizando o sistema hidráulico de elevação parcial do guincho para reduzir parte do peso sobre os pneus atolados.

Nenhuma das tentativas tinha resultado. O problema técnico era específico. A lama daquela região do interior baiano tinha característica peculiar. Era barro vermelho com alto teor de óxido de ferro e argila pesada que quando saturado de água, criava uma adesão lateral extrema sobre objetos enterrados. Quanto mais força lateral era aplicada para tentar arrancar o objeto, mais o barro se contraía e colava-se ao redor do objeto.

Era fenómeno conhecido entre condutores locais, veteranos, mas frequentemente subestimado por equipamentos modernos que tinham sido concebidos para operar com tipos de barro mais convencionais. Weger, depois de 2 horas e meia de tentativas frustradas, declarou tecnicamente que necessitaria de mobilizar um segundo guincho ainda maior para tentar a tração coordenada.

O custo adicional seria estimado em mais R$ 12.000. O cliente ao telefone estava a recusar esta segunda etapa, argumentando que os R$ 15.000, já comprometidos sem qualquer resultado, eram demasiado absurdos. para autorizar valor adicional sem garantia de sucesso. A discussão estava se prolongando-se quando o velho Mercedes-Benz, 1313 de 1969, azul desbotado, parou à beira da estrada.

O motorista que desceu tinha 80 anos. Era o senhor Onésimo Lima. Tinha sido motorista profissional independente durante 62 anos. tinha aposentado tecnicamente há 5 anos, mas mantinha o Mercedes 1313 de 1969, que tinha comprado novo na concessionária de Salvador em 1969, com poupanças de 12 anos de trabalho anterior.

Onésimo tinha rodado mais de 5 milhões de quilómetros em estradas baianas durante toda a sua carreira. conhecia cada troço da região onde a reboque estava atolado, como conhecia o próprio quintal da casa, onde vivia em Vitória da Conquista. Onésimo tinha soube da situação da carreta porque tinha encontrado Saulo no posto de combustível da cidade na noite anterior, antes do incidente.

Os dois tinham conversado brevemente sobre rotas e sobre as condições da estrada depois das chuvas. Quando Onésimo soube pela manhã que o reboque tinha atolado e que o guincho profissional estava a ter dificuldades, decidiu, por conta própria, ir ao local para ver se podia ajudar. Não tinha sido convidado, não tinha sido contratado, ia apenas por solidariedade profissional entre os condutores veteranos.

Quando Onésimo chegou ao local, Wagner estava finalizando o discurso técnico, explicando ao cliente por telefone que ia precisar de abandonar a operação ali e que o cliente teria de pagar os R$ 15.000 comprometidos, mas decidir se queria autorizar a mobilização do segundo guincho ou se preferia esperar até que a estrada secasse mais naturalmente, o que poderia levar três ou quatro dias.

Onésimo desceu do Mercedes 1313 calmamente. Caminhou até onde Saulo estava sentado numa pedra com expressão de derrota acumulada. cumprimentou o conhecido. Não falou muito, apenas perguntou se podia dar uma olhada na situação. Saulo respondeu que, claro, embora a expressão do mesmo indicasse que não esperava grande coisa, Onésimo caminhou até à berma da estrada, olhou para a Scânia atolada durante uns minutos, observou a inclinação, observou a profundidade do atolamento, andou cuidadosamente em redor do veículo, evitando entrar no barro saturado. pegou

um pedaço de madeira que estava por ali, enfiou em pontos específicos do solo para testar a profundidade e a consistência. Estava a avaliar a situação tecnicamente, com um nível de detalhe que apenas seis décadas de experiência prática construíam. Voltou para perto de Saulo e de Wagner, que tinha terminado a ligação telefónica.

Cumprimentou Wagner com cortesia, apresentou-se como motorista veterano local. disse que tinha visto a situação e que talvez pudesse ajudar. Wagner olhou para o velho de 80 anos com aquela mistura específica de profissional moderno, reconhecendo presença de profissional veterano. Não foi arrogante, foi respeitador, mas estava cético sobre o que este velho de Mercedes 1313 de 1969 poderia oferecer onde o equipamento moderno tinha falhado. Onésimo explicou.

disse que o problema técnico que Wagner tinha encontrado era específico do tipo de barro local, com elevado teor de óxido de ferro e barro pesado, que criava adesão lateral extrema quando saturado. Era uma situação conhecida pelos motoristas veteranos da região, mas frequentemente desconhecida pelos operadores de equipamento moderno que vinham de outras regiões.

Wagner reconheceu imediatamente que aquela descrição técnica fazia sentido. Tinha notado durante as tentativas que a lama parecia se contrair à volta dos pneus em vez de se afrouxar. Tinha sido fenómeno que ele não conseguia explicar utilizando os conhecimentos padrão dele. Onésimo continuou. disse que para este tipo de lama a abordagem técnica correta não era forte tração lateral, que era o que os guinchos modernos tendiam a aplicar.

Era tração em movimento elicoidal lento, com força aplicada em ciclos de carga e alívio. O movimento elicoidal contornava a adesão lateral da argila e os ciclos de carga e alívio criavam micromovimentos que progressivamente afrouxavam a contração da argila ao redor dos pneus. Era a técnica que Os motoristas baianos veteranos tinham desenvolvido nos anos 60 e 70, especificamente para o tipo de barro daquela região.

Wagner escutou com atenção crescente. Era explicação técnica que nunca tinha ouvido em nenhum dos cursos de formação que tinha feito ao longo da sua carreira. ésimo disse que ia precisar do Mercedes 1313 dele para fazer a operação. O camião antigo dele tinha sido modificado por ele ao longo das décadas, exatamente para este tipo de situações.

Tinha sistema de guincho mecânico com cabo de aço de boa qualidade. Instalado em 1976. tinha um sistema de polias múltiplas que permitia um controlo preciso da tração aplicada e tinha, principalmente o conhecimento técnico dele operando o conjunto. Era a combinação que produzia resultado em situações específicas em que o equipamento moderno por si só não conseguia produzir resultado.

Paulo, vendo possibilidade real de solução, autorizou imediatamente que Onésimo tentasse. Wagner, com a humildade profissional de quem reconhece competência técnica, proveniente de fonte inesperada, até se ofereceu para ajudar na operação se Onésimo o achasse útil. Onésimo aceitou a ajuda. Disse que ia necessitar de quatro mãos para algumas das ligações técnicas.

Os dois homens começaram os preparativos. Onésimo manobrou o Mercedes 1313 cuidadosamente até posição estratégica que tinha identificado durante a avaliação. Era posição em terreno firme natural, num ângulo específico em relação à Scânia atolada. O ângulo era aquele que ia produzir o movimento helicoidal necessário para soltar a carreta da adesão lateral da argila.

Ancorou o Mercedes a utilizar o sistema de ancoragem dupla, cabos secundários ligados a duas árvores robustas atrás do veículo. O sistema garantia estabilidade adicional durante a operação de tração prolongada. Montou o sistema de roldanas múltiplas. Era equipamento mecânico antigo, mas extremamente eficaz. permitia aplicar tração com força controlada em ciclos precisos de carga e alívio, em vez da força bruta contínua que os guinchos modernos aplicavam.

caminhou até à Scania atolada, pediu para Wagner ajudar a posicionar o cabo de aço principal em ponto estrutural específico do chassis traseiro do veículo. O ponto era escolhido cuidadosamente para aproveitar a geometria interna do chassis e aplicar força no eixo correto para o movimento helicoidal pretendido.

voltou para o Mercedes 1313, verificou todas as ligações duas vezes, ligou o motor do camião antigo. O som que saiu era inconfundível para profissionais que entendiam de camiões dessa geração. Era o ronco grave do motor Mercedes OM352, seis cilindros em linha, naturalmente aspirado. Era som de motor que tinha sido concebido nos anos 60 para operar em condições adversas durante décadas.

engrenou primeira marcha reduzida, soltou a embraiagem com cuidado preciso. O Mercedes começou a aplicar tração gradual no cabo de aço, mas não tração contínua, tração em ciclos. Carga por 5 segundos, alívio durante 2 segundos. Carga durante 5 segundos, alívio durante 2 segundos. A A Scânia não se mexeu imediatamente.

Foram seis ciclos completos antes de qualquer movimento percetível acontecesse. Mas no sétimo ciclo, alguma coisa mudou. A reboque começou a vibrar ligeiramente. A barro à volta dos pneus começou a se afrouxar. No oitavo ciclo, a Scânia começou a mover-se. Não muito, apenas alguns centímetros, mas era movimento real.

Onésimo continuou a aplicar os ciclos com absoluta paciência. Movimento helicoidal lento. Carga e alívio. Carga e alívio. A Scânia foi saindo gradualmente do atoleiro com movimento espiral característico, exatamente como o Onésimo tinha previsto na avaliação inicial. Em 22 minutos, a Scânia estava completamente fora do lamaçal, em terreno firme, os pneus traseiros mostrando claramente as marcas de onde tinham estado atolados, mas o veículo intacto e operacional.

Onésimo parou o motor do Mercedes 1313, desceu calmamente. Wagner já lá estava perto da Scânia, examinando o estado do veículo e do solo. Saulo estava de pé na berma da estrada, com uma expressão que misturava um alívio profundo com incredulidade técnica. Eram 10:45 da manhã. Ainda tinha tempo antes do almoço. Saulo abraçou Onésimo.

Não conseguiu falar nada coerente nos primeiros minutos. Quando finalmente conseguiu expressar-se, perguntou quanto Onésimo queria pelo serviço. Onésimo respondeu com aquela calma característica. Disse que não queria nada. Tinha vindo porque tinha querido vir. Condutor veterano, ajuda. Motorista veterano.

Saulo era profissional honesto que tinha sido apanhado numa situação difícil. Era exatamente o tipo de situação onde a tradição da profissão pedia ajuda gratuita entre profissionais. Saulo insistiu, disse que precisava de pagar de alguma forma. Onésimo aceitou apenas o reembolso do combustível que tinha gasto vindo até o local.

R$ 68, nada mais. Wagner, observando tudo, fez algo inesperado. Caminhou até Onésimo, apresentou-se formalmente, embora os dois já se tivessem cumprimentado antes, disse que precisava de aprender com o velho, que tinha visto nessa manhã técnica que nunca tinha visto em curso formal nenhum e que esta técnica era exatamente o tipo de conhecimento que ele precisava de acrescentar à própria capacidade profissional.

Onésimo escutou com aquela calma de sempre. Disse que se Wagner quisesse aprender, estava disposto a ensinar sem cobrar, como ele tinha aprendido com motoristas mais velhos quando era jovem. A profissão funcionava assim, ou pelo menos tinha funcionado assim durante a maior parte da história dela. Wagner aceitou a oferta de imediato, anotou o telefone de Onésimo, prometeu visitá-lo em Vitória da Conquista nas próximas semanas para começar a aprendizagem.

A história espalhou-se pela região nos dias seguintes. O cliente da transportadora, ao receber o relato completo do que tinha acontecido, ficou tão impressionado que insistiu em enviar ao Onésimo um presente de reconhecimento. Onésimo acabou por aceitar uma cesta básica grande, mas recusou qualquer pagamento monetário direto.

Wagner cumpriu a promessa. visitou o Onésimo em Vitória da Conquista por três vezes durante o mês de março. Os dois conversaram horas sobre técnicas tradicionais que Onésimo tinha aprendido durante 60 anos de carreira. Wagner anotou tudo num caderno específico. Posteriormente começou a aplicar muitas destas técnicas na sua operação, com resultados positivos imediatos em situações que antes eram tratadas como difíceis ou impossíveis.

Mas o efeito mais profundo foi institucional. A empresa de Guincho, onde Wagner trabalhava, ao saber do que tinha acontecido, decidiu investigar mais profundamente o tipo de conhecimento que Onésimo tinha. O dono da empresa, um homem de nome Reinaldo, com 49 anos, foi pessoalmente visitar Onésimo em maio. Os dois conversaram durante 4 horas.

Reinaldo percebeu que o conhecimento que Onésimo transportava era exatamente o que a empresa precisava para se diferenciar competitivamente da concorrência. Reinaldo propôs algo formal a Onésimo. Pediu ao velho para atuar como consultor técnico da empresa, recebendo valor mensal moderado, em troca de disponibilidade para dar formação aos operadores mais novos e participar em operações específicas, onde as técnicas tradicionais fossem necessárias.

Onésimo considerou a proposta cuidadosamente. Tinha 80 anos, estava reformado há 5 anos, mas a ideia de transmitir o conhecimento dele formalmente para a nova geração de profissionais era atraente. Aceitou a proposta com condições simples. Trabalharia apenas dois dias por semana. Não atuaria em operações de campo extremas.

Foco principal seria o treino. A consultoria teve início em junho de 2024. Onésimo passou a frequentar a empresa de Reinaldo dois dias por semana. Conduziu formação formal para os operadores mais novos. Ensinou técnicas tradicionais que tinha aprendido durante 60 anos. acompanhou operações específicos onde a aplicação prática reforçava a aprendizagem teórica.

Em poucos meses, a empresa de Guincho começou a diferenciar-se regionalmente, exatamente pela capacidade de resolver situações que outras empresas não conseguiam resolver. Contratos novos apareceram, a reputação da empresa cresceu. A vantagem competitiva era diretamente atribuída ao conhecimento que Onésimo tinha trazido.

Mas Onésimo continuou a cobrar valor modesto pela consultoria. Recusou aumentos que Reinaldo ofereceu várias vezes. Disse que estava a trabalhar porque gostava, não porque precisasse de dinheiro. O que recebia era suficiente para uma vida confortável. Aos 80 anos, a Scânia, que tinha sido salva naquela manhã de fevereiro, continuou na operação da transportadora para os anos seguintes.

Saulo, o motorista que tinha sido apanhado no lamaçal, tornou-se amigo próximo de Onésimo. Visitava o velho regularmente quando passava por Vitória da Conquista. recebeu ao longo dos meses transmissão informal de muito conhecimento técnico que tinha sido construído por Onésimo durante a sua longa carreira.

Saulo, em 2025 foi promovido a coordenador operacional da transportadora, em parte por mérito profissional próprio, mas em parte também porque tinha desenvolvido capacidade de resolver problemas técnicos operacionais que outros motoristas e coordenadores não conseguiam resolver. Essa capacidade vinha diretamente do que ele tinha aprendeu com Onésimo nos meses depois do incidente do atolamento.

O Mercedes 1313 de 1969 continua no barracão da casa de Onésimo em Vitória da Conquista. Ele liga o motor pelo menos uma vez por semana para manutenção. O camião está pronto para qualquer eventualidade futura. Embora Onésimo espere não precisar de o usar em operações novamente ativas, uma vez que aos 80 anos prefere focar-se em transmitir conhecimento em vez de operar pessoalmente.

A história daquela manhã de fevereiro de 2024 tornou-se referência regional sobre limites técnicos de equipamentos modernos versus conhecimento tradicional acumulado. Wagner, em conversas posteriores com colegas da profissão, descreveu o que tinha acontecido como o momento que mudou completamente a forma como ele compreendia a própria profissão.

Disse que tinha passado 15 anos, pensando que A tecnologia moderna era suficiente para resolver qualquer situação operacional. Nessa manhã, descobriu que estava errado de forma fundamental, que existia conhecimento técnico tradicional que excedia em situações específicas qualquer capacidade que a tecnologia moderna por si só pudesse oferecer.

A diária do reboque era de R$ 9.000 R$ 1.000. E desistiu da carreta porque o equipamento moderno encontrou os seus limites operacionais reais em situação específica que excedia os parâmetros para os quais tinha sido concebido. Não foi falha do equipamento, nem incompetência do operador. Foi reconhecimento honesto de que algumas situações exigiam abordagem técnica diferente daquela que o equipamento moderno conseguia fornecer.

O velho tirou antes do almoço porque transportava décadas de conhecimento técnico específico para o tipo de situação encontrado, aplicado com equipamento que tinha modificado durante 55 anos exatamente para resolver casos como aquele. Não foi sorte, não foi milagre, foi o resultado direto de investimento técnico contínuo num equipamento específico para situações específicas.

combinado com o conhecimento prático construído tentativa a tentativa durante 60 anos de funcionamento profissional ativa e principalmente foi resultado de Onésimo Lima ter aparecido naquele local nessa manhã sem ter sido convidado nem contratado, simplesmente porque tinha sabia da situação do conhecido e tinha decidido que poderia ajudar.

Esse tipo de iniciativa pessoal espontânea, este tipo de solidariedade profissional entre condutores veteranos, este tipo de disponibilidade para resolver problemas sem ganhar nada em troca é exatamente o que está em risco de desaparecer, conforme a geração de Onésimo vai-se aposentando e morrendo.

Wagner aprendeu técnicas que vai aplicar para o resto da carreira dele. Saulo aprendeu lições que mudaram a forma de ele pensar sobre a profissão. Reinaldo construiu vantagem competitiva sustentável para a sua empresa. Mas importante que tudo isto, todos os três tornaram-se canais de transmissão para uma próxima geração de profissionais que vão receber pelo menos parte do conhecimento que Onésimo passou décadas construindo.

Se o conhecimento técnico tradicional vai ou não sobreviver à transição geracional atual no setor da O transporte rodoviário brasileiro, depende de quantos onésimos vão aparecer espontaneamente em situações futuras, oferecendo conhecimento sem cobrar, ensinando profissionais mais jovens dispostos a aprender. E depende também de quantos Wagner, Saulos e Reinaldos vão estar dispostos a reconhecer competência técnica proveniente de fonte inesperada e a aprender, em vez de descartar arrogantemente o que não veio embalado num formato moderno e familiar.

Naquela manhã de fevereiro de 2024, em uma qualquer estrada vicinal do interior baionense, três profissionais modernos reconheceram a competência técnica de um velho de 80 anos e aprenderam com ele. Foi uma vitória pequena no contexto maior da transição geracional, mas foi vitória. E pequenas vitórias acumuladas ao longo do tempo podem somar para preservar conhecimento que, de outra forma, desapareceria completamente quando a geração de Onésimo Lima finalmente partir. Р.

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