Enterrei o meu filho de 15 anos no dia 10 de Março de 1999 no cemitério municipal de Cascavel, no Paraná. E quando todas as pessoas já tinham ido embora e eu continuava ali parado ao lado do túmulo dele, lembrando de uma das últimas coisas que ele me disse antes de morrer, foi quando uma mulher que nunca tinha visto se aproximou-se, perguntou se eu era o pai daquele menino.
E quando respondi que sim, ela disse que tinha uma mensagem dele para mim. O meu nome é Wagner Lima, tenho 68 anos e esta é a minha história em minutos. O meu filho chamava-se Thago. Era um menino calado, de poucas palavras, mas de olhar firme. A mãe dele, a minha primeira mulher, morreu quando ele tinha apenas 4 anos.
foi cedo demais para perder a mãe, mas ele guardava a sua recordação. Isso eu sei, porque ele próprio me contava de vez em quando com aquela voz baixa de quem sente saudades. Mas alguns anos depois voltei a casar. Minha segunda esposa chamava-se Regina. Ela nunca levantou a mão para o meu filho, mas ela tinha uma maneira de falar com ele que era diferente, por vezes.
Era a rispidez disfarçada de brincadeira. Era comparação, era aquele tipo de comentário que magoa. Eu via aquilo acontecer, percebe? Não era cego. Via os dois a estranharem-se quase todo dia. Via o meu filho ficar quieto depois de uma resposta seca dela. Via-o afastar-se para o quarto sem dizer nada. E toda vez que ele vinha queixar-se comigo, eu conversava.
Eu sentava-me do lado dele, ouvia o que ele tinha para dizer e dizia que aquilo ia passar, que era uma coisa de convivência, que madrasta e entiado demoravam sempre um tempo para aprender a se entender. Eu acreditava mesmo naquilo. Eu pensava mesmo que era uma fase, que com o tempo os dois se iam acertar.
Eu amava demais aquele menino para querer vê-lo a sofrer. E talvez seja por isso mesmo que não consegui ver o tamanho real do que estava acontecendo dentro da minha própria casa. Um pai que ama, por vezes prefere acreditar no que é mais fácil de aceitar. Cada vez que Regina falava mais grosso com ele, prometia-me mesmo que ia ter uma conversa séria com ela, que ia sentar os dois, explicar como me sentia.
pedir para ela ter mais cuidado com as palavras, mas esta conversa nunca acontecia no dia certo. Ficava sempre para depois, para o fim de semana, para o momento em que todos estivesse mais calmo. E esse momento, por algum motivo, nunca chegava da forma que eu esperava. Foi assim durante meses, talvez até mais de um ano. Meu filho a queixar-se baixinho, eu prometendo resolver e a vida a seguir do mesmo jeito, sem mudar quase nada de verdade.
Eu não via aquilo como um problema grave. Para mim era apenas um atrito comum destas coisas que acontecem em qualquer casa, onde há pessoas de sangue diferente tentando conviver debaixo do mesmo tecto. Houve uma tarde, porém, que ficou diferente de todas as outras. Foi um sábado, lembro-me bem, porque eu estava em casa sentado na sala, a cuidar de umas contas do mês.
Regina e Thago começaram a discutir na cozinha por causa de uma louça que tinha deixado suja no lava-loiça. Não era nada de mais, mas a discussão foi crescendo gradualmente. Ela levantou a voz, disse umas coisas duras, comparou-o com outros meninos da idade, diz que era folgado, que não ajudava em nada dentro de casa.
Meu filho respondeu também, e a sua voz já já não era a de um menino a tentar se defender. Era outra coisa, uma voz cansada de quem já não tinha mais paciência para aguentar aquilo tudo. Eu levantei-me da cadeira e fui até à cozinha, mas quando lá cheguei, o meu filho já estava virado para mim, com os olhos cheios de lágrimas.
E foi aí que ele gritou aquela frase que nunca mais Consegui esquecer, nem depois de tantos anos. Ele disse: “Ela não é minha mãe, nunca vai ser. Como não consegue ver isto? Aquelas palavras apanharam-me de uma maneira que não sei explicar direito até hoje. Não foi raiva o que senti. Foi mais um aperto, uma sensação de que alguma coisa importante estava a acontecer ali à minha frente e eu não sabia bem o que fazer com aquilo.
Fiquei parado, a olhar para o meu filho, sem saber o que responder. E Regina ficou calada também, talvez surpreendida com a força daquele grito que não era comum vindo dele. E eu, no meio dos dois, escolhi não dizer nada. Não porque concordasse com ela longe disso. Fiquei calado porque na minha cabeça aquela discussão ainda podia ser resolvida com calma num outro momento, quando os ânimos estivessem mais tranquilos e todos pudesse pensar melhor.
O meu filho me olhou por mais alguns segundos, à espera de alguma coisa que eu não consegui dar naquela altura. Depois, sem dizer mais nada, virou-se e foi para o quarto dele. Fechou a porta devagar, sem bater com força, o que, de certa doeu ainda mais do que se ele tivesse bateu com a porta com toda a raiva que devia estar a sentir naquele momento.
Eu Fiquei ali parado no meio da cozinha, sentindo aquele silêncio esquisito. A Regina foi para a sala, ligou a televisão como se quisesse apagar aquele momento da cabeça. Eu não sabia naquela noite que o tempo que eu pensava que tinha de sobra estava prestes a acabar de um forma que eu jamais podia imaginar.
Não sabia que aquela seria a última conversa de verdade entre mim e o meu filho, a última oportunidade de eu lhe mostrar que estava do lado dele. Alguns dias depois daquela briga, a vida seguiu. Eu ia trabalhar de manhã, regressava à tarde e em casa falávamos pouco sobre o que tinha acontecido.
Regina agia como se nada tivesse ficado marcado e o meu filho também não tocava mais no assunto. Eu achava que aquilo era um bom sinal, que as coisas se estavam a ajeitar sozinhas, da forma que eu sempre esperava que acontecesse. Eu trabalhava numa oficina de automóveis perto de casa, um serviço que eu fazia há mais de 15 anos.
Naquela manhã eu estava debaixo de um carro a resolver um problema quando ouvi alguém a chamar-me. Era o gerente. Disse que tinha um telefonema para mim e que parecia urgente. Eu me Levantei-me rapidamente, limpando as mãos numa flanela, sem compreender bem o que estava a acontecer, mas já sentindo aquele aperto no peito que sentimos quando pressente alguma coisa de mal.
Quando atendi o telefone, era a Regina do outro lado da linha. A voz dela estava diferente, tremida, quase sem conseguir formar as palavras direito. Ela disse que Thago tinha subido a uma árvore do quintal, que era uma coisa que ele fazia de vez em quando, desde pequeno, e que desta vez tinha escorregado de um galho mais alto e bateu com a cabeça no chão com força.
Disse que ele estava muito mal, que já tinha chamado uma ambulância e que precisava de ir para o hospital o quanto antes. Não me lembro bem como sair da oficina. Lembro-me só de pegar a minha bicicleta e pedalar o mais que consegui, com o coração a bater forte e a cabeça cheia de perguntas que não conseguia responder. Como ele tinha caído? De que altura, se estava consciente? Eram perguntas que iam e vinham sem parar.
Quando cheguei ao hospital Ofegante, ofegante, fui directamente para a recepção perguntar por Thiago Lima. Uma enfermeira disse-me que ele já tinha sido levado para dentro, que os médicos estavam a examiná-lo e que eu precisava de esperar numa sala ali perto. Foi nesse momento que Regina apareceu. Já tinha chegado antes de mim, sentada numa cadeira de plástico, com o rosto pálido e as mãos a tremerem.
Eu sentei-me do lado dela, sem saber bem o que dizer. A gente esteve um tempo em silêncio, só esperando, ouvindo o barulho do hospital em redor, os passos apressados dos enfermeiros, o som distante de algum aparelho. Meu filho estava lá dentro e a única coisa que eu podia fazer era esperar e torcer para que tudo corresse bem.
Depois de um tempo que pareceu não ter fim, um médico veio até nós e disse que o Thago estava em estado grave, mas estável, e que ia necessitar de alguns exames para saber o dimensão real do problema. Disse que a gente precisava de ter paciência, que eles estavam a fazer tudo o que era possível. Aquilo deu-me um pequeno alívio, uma esperança de que o meu filho ainda tinha hipótese de sair daquilo bem.
Foi depois que o médico saiu que aconteceu o que eu menos esperava naquele momento. Regina, ainda abalada, começou a falar sozinha, meio para si própria, dizendo que não tinha culpa de nada, que menino daquele idade sobe a uma árvore mesmo, que ela não podia ficar a vigiá-lo o tempo todo. e alguma coisa dentro de mim que eu vinha segurando há muito tempo, simplesmente não aguentou mais aquele momento.
Virei-me para ela e falei com uma voz que nem parecia a minha, que talvez se ela tivesse tratado o meu filho com mais carinho, com menos rispidez, talvez não estivesse ali dentro daquele hospital a lutar pela vida. Foram palavras duras, eu sei, e talvez injustas no meio de tanto desespero, mas foi a primeira vez em anos que deixei sair tudo o que vinha aguardando desde as primeiras brigas entre os dois.
Regina ficou vermelha de raiva e de choro ao mesmo tempo. Disse que eu sempre fui omisso, que nunca a ajudei a compreender como lidar com um ente a aceitava, que eu ficava calado enquanto ela fazia o papel de vilã sozinha dentro daquela casa. Cada palavra que ela dizia parecia um murro, porque no fundo eu sabia que também havia ali uma parte de verdade.
A discussão foi crescendo ali mesmo no corredor do hospital entre gente que passava e olhava assustada para nós. Foram anos de silêncio, de coisas engolidas, de conversas que deixei sempre para depois. Tudo a sair de uma vez, sem controlo, no pior momento possível, com o meu filho a lutar pela vida a poucos metros dali.
No fim, Regina levantou-se, pegou na sua bolsa e disse que não aguentava mais aquela situação, que estava cansada de levar a culpa por tudo o que se passava naquela família. Disse que ia embora, que eu podia ficar à espera sozinho e que desta vez não ia voltar mais. Eu fiquei parado, sem forças para a impedir, vendo-a afastar-se pelo corredor até desaparecer à saída do hospital.
Aquela foi a última vez que a vi. Ela realmente não voltou mais, nem nessa noite, nem nos dias que vieram depois. Eu fiquei sozinho numa cadeira dura de plástico, num corredor de um hospital, sem esposa, sem ninguém ao meu lado. Só eu e à espera por notícia do meu filho, tentando perceber como é que uma noite podia mudar tanta coisa de uma só vez.
O tempo naquele corredor passava de uma forma estranho. Ora demasiado depressa, ora devagar demais, como se as horas não soubessem comportar-se direito. Eu ficava a olhar para a porta por onde os médicos entravam e saíam, tentando ler alguma coisa nos rostos deles, sem conseguir compreender nada mais do que o cansaço de quem trabalha a noite inteira.
Foi nesse tempo de espera que a frase do meu filho começou a voltar à minha cabeça do nada sem eu chamar. Ela não é minha mãe, nunca vai ser. Como é que não consegue ver isso? Eu ia repetindo aquilo mentalmente, tentando perceber porque é que aquela frase pesava tanto agora, mais do que tinha pesado, no dia em que gritou que para mim.

Era uma inquietação a crescer lentamente dentro de mim, uma sensação esquisita de que aquela frase guardava alguma coisa maior do que eu tinha conseguido perceber na hora. Eu tentava afastar aquele pensamento, focar apenas na esperança de que o meu filho ia ficar bem. Mas a frase continuava a voltar, teimosa, da mesma forma que uma dor de dente que não passa.
A noite foi caindo devagar, do lado de fora daquelas janelas altas do hospital. O corredor foi ficando mais vazio, mais silencioso e eu continuava ali sentado, sozinho, à espera de qualquer notícia que fosse. E eu fiquei ali naquela cadeira dura, olhando para o corredor vazio, esperando o tempo passar, sem imaginar o quanto aquela noite ainda ia mudar dentro de mim.
Deviam ser umas duas ou três da madrugada, quando senti a primeira coisa estranha daquela noite. Foi um frio que me passou pelo braço rápido, como uma corrente de ar, só que as janelas do corredor estavam fechadas e não tinha ventilador nenhum ligado por perto. Esfreguei o braço com a outra mão, pensando que era coisa da minha cabeça, do cansaço, de tantas horas sentado nesse mesmo lugar, sem mexer direito. Tentei não dar importância.
A vida inteira fui um homem de acreditar apenas no que os olhos vêm, no que a mão consegue tocar. Então, achei melhor esquecer aquele frio, atribuir ao cansaço e voltar a olhar paraa porta fechado, onde o meu filho estava a ser cuidados pelos médicos. Mas alguns minutos depois, o frio voltou e desta vez mais forte, subindo pelas costas de um jeito que me fez sentar mais direito na cadeira.
Juntamente com o frio, veio uma sensação esquisita, como se tivesse alguém parado bem perto de mim do meu lado, mesmo o corredor estando praticamente vazio àquela hora da madrugada. Eu olhei para os dois lados devagar e não estava ali ninguém para além de mim mesmo. Aquilo deixou-me incomodado de uma forma diferente das outras vezes. Não era mais fácil de ignorar.
Eu fiquei olhando para o corredor vazio, tentando compreender o que estava a sentir. E por mais que tentasse encontrar uma explicação simples, nenhuma fazia sentido completo naquele momento. Nunca tinha sentido nada parecido antes na a minha vida, em nenhum momento difícil que eu já tivesse passado. Eu me levantei-me da cadeira, caminhei um pouco pelo corredor, passei a mão pela cara, respirei fundo algumas vezes e voltei a sentar no mesmo lugar.
Pensei que talvez fosse apenas o desespero da situação a mexer com a minha cabeça, o medo de perder o meu filho, fazendo a minha mente pregar partidas estranhas comigo naquela madrugada tão longa. Fiquei ali mais um pouco, olhando pro relógio na parede, vendo os ponteiros andarem devagar. Cada minuto pareceu um minuto e meio.
Cada meia hora parecia o dobro do tempo real. E enquanto o tempo ia passando daquele jeito estranho, a sensação de presença ao meu lado ia e vinha sem nunca ir embora de verdade dali. Numa dessas idas e vindas, percebi ainda uma coisa que me deixou mais atento. Parecia que o ar ao redor daquela cadeira onde eu estava sentado tornava-se mais pesado por alguns instantes, como se alguma coisa tivesse chegado mais perto ainda de mim.
Eu não conseguia ver nada, não conseguia não ouvir nada além dos sons normais do hospital, mas sentia aquilo do mesmo forma como sentimos quando alguém está mesmo atrás de nós a observar. Eu já estava física e mentalmente exausto. Tinha sido um dia inteiro de trabalho antes de tudo aquilo começar, seguido daquela correria até ao hospital, da briga forte com a Regina e agora daquelas horas de espera, sem fim, sem notícia nenhuma, que trouxesse alívio.
O meu corpo estava a pedir descanso. Havia tempo, mas eu resistia, achando que precisava manter-se acordado, alerta, caso alguém viesse chamar-me com notícia do meu filho. Mas o corpo da gente tem um limite e o meu já tinha chegado ao dele. Sem aperceber-me bem, encostei a cabeça na parede fria daquele corredor e os olhos foram fechando lentamente contra a minha vontade.
Tentei lutar contra o sono, voltar a abrir os olhos, mas o cansaço foi mais forte do que a minha vontade de ficar acordado à espera de notícia. Foi nesta sesta, sentado naquela cadeira que comecei a sonhar. No sonho, eu via o meu filho parado à minha frente, num lugar que não reconhecia. Ele estava a olhar para mim com aquele mesmo olhar firme de sempre, mas desta vez sem a raiva do dia da briga que tivemos na cozinha.
A boca dele mexia-se, formando palavras que não consegui ouvir. Ele parecia estar a tentar me dizer alguma coisa importante, algo que precisava de sair, mas nenhum som chegava até mim, nenhum sussurro sequer. Eu tentava aproximar-me dele dentro daquele sonho, mas parecia que os meus pés estavam presos, que não me conseguia mexer na direção dele, por mais que tentasse com todas as forças.
Aquilo deixava-me angustiado, mesmo a dormir. Eu queria perceber o que ele estava a tentar falar. Via a boca dele a mexer mais rápido, quase desesperada, como se o tempo estivesse a acabar para ele dizer aquilo que necessitava. Eu tentava gritar para ele que eu não estava a conseguir ouvir, mas a minha própria voz também não saía presa na garganta, da mesma forma que os meus pés estavam presos no chão daquele lugar sem nome.
Foi nesse ponto do sonho que acordei de repente, com o coração disparado, sentindo o susto percorrer todo o corpo. Abri os olhos rápido, ainda confuso entre o sonho e a realidade, tentando perceber onde é que eu estava. demorou alguns segundos para eu me situar de novo naquele corredor de hospital com a luz branca das lâmpadas ainda acesas sobre a minha cabeça.
E foi exatamente nesse momento, ainda a tentar recuperar o fôlego depois do susto, que ouvi um barulho de passos vindos na minha direção. Eram passos calmos, mas firmes. O tipo de passo de quem está vindo dizer alguma coisa importante e já sabe o peso do que vai dizer. Eu levantei a cabeça e vi um médico se aproximando-se, ainda vestido com aquela roupa branca de serviço, com o rosto sério, cansado, de quem tinha acabado de sair de um turno difícil.
Eu levantei-me da cadeira à mesma hora, todo o corpo tenso, à espera de alguma palavra que trouxesse alívio depois de tantas horas de espera. Mas bastou-me olhar para a cara daquele médico, para aquela expressão que ele transportava, para eu perceber, antes mesmo de ele abrir a boca que a notícia não era boa.
Tem certos rostos que aprendemos a ler sem precisar de palavra nenhuma. E o rosto daquele médico era um desses rostos. Ele parou à minha frente, respirou fundo e começou a falar com aquela voz baixa e cuidadosa que os médicos utilizam nestas horas difíceis. Eu ouvia as palavras dele uma a uma, mas era como se elas chegassem até mim, de longe, abafadas.
E foi ali, naquele corredor vazio de madrugada que recebi a notícia que mudou a minha vida para sempre. Meu filho O Tiago não tinha resistido. O coração dele tinha parado durante a madrugada, mesmo com todo o esforço dos médicos para o salvar. Fiquei parado, sem reação nenhuma, sentindo o chão desaparecer debaixo dos meus pés, enquanto aquela frase ficava a girar na minha cabeça, juntamente com a imagem do sonho que tinha acabado de ter ali mesmo sentado naquela cadeira.
O funeral do meu filho aconteceu dois dias depois daquela madrugada no hospital. Muita gente apareceu para se despedir de Thago. Vizinhos, colegas da sua escola, alguns familiares que viviam na cidade. Todo mundo vinha ter comigo, apertava-me a mão, dizia palavras de conforto que eu ouvia, sem realmente escutar bem. Eu estava ali no meio de tanta gente, mas me sentia-se completamente sozinho, como se existisse uma distância entre mim e todo o mundo em redor.
Durante a cerimónia, eu não conseguia parar de pensar naquela frase que o meu filho tinha gritado para mim dias antes. Ela não é minha mãe, nunca vai ser. Como não consegue ver isto? As palavras vinham e voltavam na minha cabeça, agora com um peso diferente de tudo o que já tinha sentido antes. Foi ali, diante daquele caixão, que finalmente compreendi o tamanho real do que o meu filho tinha tentado dizer-me durante tanto tempo.
Não era só uma queixa de um adolescente cansado de brigar com a madrasta. Era um pedido de socorro, um apelo para que eu visse o que estava a acontecer mesmo à minha frente e eu tinha deixado passar dia após dia, acreditando sempre que ainda haveria tempo para resolver aquilo com calma. Aquele entendimento chegou tarde demais e isso doía como nenhuma outra dor tinha doído.
Não era mais só a dor de perder o meu filho, era a dor de saber que tinha tido a possibilidade de mudar alguma coisa e não tinha feito nada mais do que prometer a mim mesmo que ia resolver mais tarde. O depois nunca chegou e agora já percebia o preço real dessa espera. O padre conduziu a cerimónia com palavra simples, falando sobre a curta vida do meu filho, sobre o descanso eterno, sobre o conforto que Deus podia trazer às famílias enlutadas.
Eu ouvia aquelas palavras de longe, como se elas passassem por mim, sem realmente tocar no que estava sentindo naquele momento. O caixão foi baixado lentamente, com aquele barulho de corda esticando que nunca vou conseguir esquecer. A terra foi cobrindo o caixão aos poucos, pá a pá, e eu Fiquei ali parado à beira daquela cova, sentindo cada punhado de terra como um peso a mais dentro do meu peito.
Fiquei só a olhar, incapaz de mexer, com as pernas fracas e o coração apertado de um forma que nunca tinha sentido antes. Aos poucos, as pessoas foram-se despedindo-se e saindo do cemitério. Um por um apertavam-me a mão pela última vez. Diziam que estavam disponíveis para qualquer coisa que eu precisasse e iam embora pelo caminho de terra batida em direcção ao portão.
Eu agradecia com a cabeça, sem grande voz para responder corretamente, e continuava ali parado, sem vontade de sair daquele lugar. Depois de um tempo, o cemitério ficou praticamente vazio. Só restavam alguns coiros terminando o serviço mais longe dali. E eu sozinho diante daquele túmulo ainda com a terra fresca por cima.
Fiquei ali parado, tentando despedir-me do meu filho pela última vez, sem saber bem que palavras utilizar para um momento daquele tamanho. Foi então que me apercebi de uma mulher a aproximar-se devagar, com cuidados, vindos de outra parte do cemitério. Eu não a conhecia de lugar nenhum. Nunca tinha visto aquele rosto antes em toda a minha vida.
Ela caminhava lentamente, olhando-me de um jeito respeitoso, como quem não quer invadir um momento delicado, mas também não quer deixar passar a hipótese de se aproximar. Quando chegou perto, ela parou e perguntou com voz baixa e cuidadosa, se eu era o pai daquele menino. Eu respondi que sim, ainda sem perceber o que ela queria comigo naquele momento tão difícil.
Ela explicou então que ali estava a visitar o túmulo do O marido, que também tinha falecido havia pouco tempo. Ela contou que enquanto estava parada diante do túmulo do marido, um rapaz tinha-se aproximado dela ali mesmo entre os túmulos, e pedido que ela entregasse um recado ao pai dele. E só quando ela me viu parado diante daquela cova ainda com terra fresca, foi que ela compreendeu quem era este pai de quem o menino tinha falado.
Fiquei paralisado, sem conseguir dizer nada, ouvindo aquilo com uma mistura de descrença e uma vontade enorme de acreditar. Ela percebeu a minha hesitação e diz que compreendia se eu achasse tudo aquilo demasiado estranho para fazer sentido, mas que precisava entregar aquelas palavras. Então ela disse o recado, disse que o meu filho queria que eu soubesse que ele estava com a mamã agora e que não precisava ficar triste.
Foram poucas as palavras simples ditas com o mesmo cuidado de quem sabe o peso do que está a falar. E aquela mulher não tinha como saber que a mãe do meu filho, a minha primeira mulher, já tinha partido há mais de 10 anos. Ninguém ali sabia disso, só eu. Mas aquelas palavras atravessaram-me de um maneira que nunca soube explicar até hoje.
Na mesma hora, lembrei-me do sonho que tinha tido no hospital poucas horas antes de receber a notícia. Meu filho parado à minha frente, a boca se mexendo, tentando dizer alguma coisa que não conseguia ouvir de todo. Nunca vou saber se era exatamente aquilo que ele me tentava dizer naquela madrugada, mas desde esse dia no cemitério, nunca mais consegui acreditar que fosse apenas uma simples coincidência.
As minhas pernas fraquejaram e eu segurei-me na lápide fria para não cair ali mesmo. As lágrimas vieram sem eu conseguir controlar. Chorei ali na frente daquela mulher desconhecida, sentindo pela primeira vez em dias um pequeno alívio dentro de tanta dor. A culpa que eu carregava desde essa briga não desapareceu naquele instante. Ela continuou ali dentro de mim, do da mesma forma que continua até hoje.
Mas alguma coisa mudou na forma como eu Passei a carregar aquele peso, como se aquelas palavras tivessem aliviado um pouco a carga, sem a tirar completamente dos meus ombros. A mulher ficou ali comigo mais uns instantes em silêncio, respeitando aquele momento. Depois despediu-se com um gesto simples de cabeça e foi-se embora pelo caminho de terra na direção do portão do cemitério.
Hoje, com os meus 68 anos e 27 anos de distância daquele dia, ainda penso muito no que se passou naquele cemitério de Cascavel. Nunca mais me casei, nunca Tive outros filhos. Até hoje culpo-me por não ter visto h tempo o que o meu filho vinha tentando mostrar-me durante tanto tempo. Mas aquele recado que a mulher entregou-me naquele dia ajudou-me a viver com essa culpa de uma forma mais leve.
Se já perdeu alguém e sentiu que essa pessoa de alguma forma ainda tentou dizer-te alguma coisa, um sonho, um sinal, uma sensação que nunca conseguiu explicar bem, deixa aqui nos comentários. Um acredito. Às vezes não recebemos a resposta na hora certa, mas isso não quer dizer que ela não chegue. Fiquem com Deus e até ao próximo relato.
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