Fui polícia militar durante mais de 10 anos. Pedi baixa da corporação quando não aguentei mais ver a violência do nosso país a descontrolar-se. A rua estava cada vez mais pesada e assim que surgiu uma oportunidade de emprego mais tranquila, entreguei a farda. Mas de toda a maldade e gente má que enfrentei nas ruas, o pior trauma que me carrego não veio de um tiroteio com bandidos, e sim de um chamamento muito estranho a meio da madrugada.
Fomos atender a uma ocorrência, o meu parceiro e eu, na nossa viatura. Eram mais ou menos 11 horas da noite e fomos para uma região mais afastada da cidade, numa área cheia daquelas grandes quintas que o pessoal aluga para fazer uma festa de fim de semana. Fomos para lá porque um grupo de jovens ligou para a polícia desesperado.
Eles disseram que tinha alguma coisa no lado exterior da quinta vigiando-os que algo muito mau queria fazer mal a toda a gente ali. E infelizmente não era novidade nenhuma que nessas quintas aparecesse gente mal intencionada. para assaltar o pessoal ou fazer coisas piores. Assim, fomos para lá o mais depressa que a viatura aguentava.
Nessa noite, fomos apenas eu e o meu colega na viatura. Pelo que a central da polícia passou no rádio, os rapazes tinham conseguido trancar-se dentro da casa principal da quinta e estavam a salvo por enquanto. Eles disseram que tinha apenas um sujeito rondando o local. Disseram que ele tinha saltado um muro muito alto e estava lá de cima observando todos eles.
Eles perceberam que o tipo ficou a encarar o grupo. E é aqui que a coisa começa a tornar-se muito bizarra. Por favor, venham rápido, porque este homem tem asas. Foi exatamente isso que a central passou na rádio, dizendo o que o rapaz tinha falado ao telefone. Nós até pensamos que poderiam estar sob o efeito de alguma droga ou muita bebida.
Era uma festa, afinal de contas. Não estou querer julgar ninguém. Nós estávamos indo para lá de qualquer maneira para verificar a invasão, mas um homem com asas simplesmente não era possível. E era precisamente sobre isso que eu e o meu parceiro íamos conversando no caminho. Chegámos depois de uns 10 minutos circulando pela rodovia estadual, bem perto de um cemitério que há por lá.
Quando chegámos, reparamos logo que os muros da propriedade eram demasiado altos. Eu acho que deviam ter facilmente uns 6 m de altura. Talvez o proprietário tivesse construído muros tão altos assim por uma questão de segurança mesmo. O portão principal estava escancarado quando entrámos com a viatura no terreno porque já tinham avisado que não iam sair de maneira nenhum.
Disseram que quando nós chegasse era para entrar diretamente, sem problemas, porque não queriam se arriscar no escuro. Nós olhamos pelas janelas e portas de vidro de correr da casa e vimos um grupo de jovens todos amontoados a olhar para a gente. Eram umas sete ou oito pessoas entre raparigas e rapazes. Quando viram a viatura chegando, abriram a porta de vidro na mesma hora e vieram dois rapazes correndo na nossa direção.
Eles falavam sem parar, virando o rosto a toda a hora para o cimo dos muros, dizendo que até há um minuto aquela coisa estava ali. Perguntámos como era esse homem, se segurava alguma arma de fogo, uma faca, como era a cara e estes detalhes. Mas eles responderam: “Não, polícia, este homem não estava segurando nada.
Ele era totalmente careca. Não sei dizer se ele era muito branco, mas também não usava roupa nenhuma. pode perguntar a qualquer pessoa que esteja aqui dentro. Eles continuaram a explicar apavorados. Todo mundo viu. Quando ele ficou ali de pé em cima do muro, foi aí que nós percebeu. Tinha umas asas grandes, brancas, igual à sua pele, mas não pareciam aquelas asas com penas, entende? O rapaz virou-se e perguntou isso para o outro amigo que tinha saído da casa junto com ele.
Todos eles pareciam ter entre. Não, senhor. Pareciam asas daquele jeito quando as pombas ou os abutres ficam sem penas, sabe? Todas fininhas, só no osso. O rapaz continuou. É a sério, meus amigos e não vos estamos a mentir. A gente estava a beber, sim, mas eu e o meu amigo aqui bebemos apenas uma cerveja. Se o senhor quiser, pode fazer o teste do alcoolímetro em nós.
Todo o mundo viu a mesma coisa, chefe, mas não sabemos para onde ele foi. A única coisa que eu consegui ver bem é que aquele sujeito estava a sorrir para nós lá de cima. Não sabemos de onde saiu, nem como conseguiu subir a um muro tão alto. Olha, nesta vida de polícia, tu aprende a ler as pessoas, a ver quando uma pessoa entrega que consumiu alguma coisa pesada e os olhos dizem tudo.
Eles pareciam perfeitamente lúcidos, só estavam a morrer de medo. Não paravam de olhar para os muros, para os telhados. Mas quando falavam connosco, eles olhavam firmemente nos nossos olhos. Então, dissemos-lhes que íamos dar uma volta ao redor do terreno para verificar o local e fazer uma varredura. Eles agradeceram muito, voltaram a correr para dentro e voltaram a trancar-se, ficando só a espreitar pelas portas e janelas de vidro.
Eu e o meu parceiro saímos, sacamos das armas e fomos dar a volta caminhando. Cada um foi por um lado e íamos encontrar-nos na parte de trás da quinta. Eu fui pelo lado direito. O muro não tinha nada por onde alguém pudesse escalar. Era todo da mesma altura, totalmente liso. Tinha puro mato em redor. Dava para ver muito pouco, porque além de ser de noite, o céu estava nublado e muito escuro.
E quando estava quase a virar a última quina do muro para encontrar o meu colega, ouvi o barulho de alguém a correr. Depois o barulho foi direto em direção ao mato, partindo os ramos e pisando nas folhas secas. E uns segundos depois, ouvi o meu parceiro chegando correndo até mim. Ele parou. Eu olhei bem para a cara dele de perto e o rapaz estava branco como o papel.
Você viu? Perguntou-me quase sem fôlego. Eu respondi que não, que apenas tinha escutado alguém a correr e depois a desaparecer no mato. Só que aquilo não soou a um animal a correr. No início, até achei que fosse o meu colega, mas o barulho foi diretamente para o meio do mato e não beirando o muro.
E o meu parceiro disse-me tremendo: “O que aqueles rapazes disseram era verdade. Eu acabei de ver um homem sem roupa nenhuma, com ossos saindo das costas dele. pareciam asas sem penas. Ele viu-me, parceiro. Ele riu da minha cara e saiu a correr para o mato. Não sei o que acabei de ver, mas uma pessoa normal não era de jeito nenhum.
Sim, saímos a correr de volta para a entrada. O meu parceiro vinha muito nervoso, mas estava fisicamente bem. Ele disse-me que com certeza aquela coisa já tinha ido embora, porque ele viu aquilo a correr a uma velocidade que é impossível para uma pessoa, ainda mais a mexer-se daquele jeito no meio do mato fechado, que foi exatamente como os rapazes tinham descrito.
E quando nós chegámos ao portão, o meu parceiro não quis ficar sozinho na viatura, mesmo eu dando-lhe essa ideia para ele se acalmar. Os rapazes perguntaram se tínhamos visto aquilo. Eu acho que eles perguntaram isso logo depois de verem a cara de pavor do meu companheiro. E foi ele quem confirmou e disse que sim.
Aí os jovens perguntaram se podíamos esperar que eles se vão embora. Nós dissemos que sim, porque pediram o amor de Deus para acompanharmos os carros deles de volta para a cidade. E foi isso que fizemos. Eles demoraram uns 15 minutos para juntar todas as coisas da festa. Estavam com dois carros e fomos escoltando-os de volta para a cidade.
Eles não queriam ficar ali de jeito nenhum. E vendo como o meu parceiro estava nervoso no regresso e olha que nós éramos polícias armados até aos dentes para nos defender, eu não nem consigo imaginar o pavor que aqueles jovens sentiram. O meu parceiro ficou afastado por uns dias, pediu uma licença médica para descansar a mente e depois voltou ao serviço.
Ele confirmou-me tudo o que me disse nessa noite, garantindo que tinha sido real. Ele viu um homem com asas, ou que pareciam ser asas de osso, e sustentou esta história até ao fim. Há certas coisas que a gente encontra na escuridão em que o distintivo e a arma não servem para absolutamente nada. A única coisa que pode fazer é rezar e ir embora.
O medo tem um som muito específico. Para mim é o barulho dos pés descalços correndo no açoalho de um quarto escuro, onde só deveria existir uma estátua de gesso. Aqui na polícia, nestes 15 anos de patrulha, já vi de tudo. A gente é chamado para umas coisas que a maioria das pessoas nem sonha que existe.
Cada ocorrência abre mais a sua cabeça para o que o ser humano é capaz de fazer e pro encontrar ao abrir uma porta. Tenho muita história para contar, mas hoje vou falar de um chamamento que a gente atendeu no estado do México, onde sempre me trabalhei. Hoje já não patrulho aquela região, mas na altura fomos acionado por causa de uma briga na casa de uma senhora.
A nossa colega da rádio não soube explicar bem o que era. Só passou que numa casa ali no bairro de Lomas Verdes estava a haver uma confusão em família e que o negócio estava escalando para o ponto de alguém se magoar de verdade. A gente foi para lá na hora. Chegámos a uma das partes mais tranquilas de Lomas Verdes, uma casinha de dois andares bem arranjada.
A senhora já nos esperava na calçada. Era uma mulher com cerca de 58 anos. Ela tava com uma cara de pânico, muito nervosa, mas a casa olhando da calçada estava num silêncio total. Não tinha sequer vizinho olhando, o que é estranho. Sabe como é? Quando há gritaria em casa, a vizinhança inteira sai para ver o mexericos, mas ali não tinha uma alma.
A gente foi perguntar o que estava apanhando, mas ela ia enrolando. Então eu e o meu companheiro tentamos agilizar, exigindo que ela fosse direta. Ela não parecia não ter qualquer problema da cabeça, só estava mesmo apavorada. Pediu para gente entrar. Nós passamos e na mesma hora a senhora trancou a porta da frente.
Ela viu que nós estranhámos o barulho da chave e logo soltou que fechou a porta para que pudéssemos acreditar nela caso visse a coisa. E claro, ali o alarme já tocou na nossa cabeça. O negócio estava a ficar demasiado esquisito. A mulher falou ainda que um de nós podia ficar à porta para não deixar fugir, embora ela já tivesse deixado trancado lá atrás no quartinho.
Eu cortei logo, senhora. Com todo o respeito, não estamos a entender nada. A senhora vive sozinha ou com mais alguém? Trancou quem aí? Alguém invadiu a sua casa? Fizeram alguma coisa com a senhora? A mulher ficou a olhar para nossa cara, começou a roer as unhas tremendo, e apontou para o corredor da casa.
disse que estava bem, mas que teve que inventar a briga ao telefone, porque senão a polícia nunca ia aparecer para ajudar e implorou paraa gente seguir ela. Eu e o meu parceiro trocamos aquele olhar de quem está habituado com emboscada. O bairro era bom, mas nunca dá para vacilar e a história não estava batendo.
Fomos andando pelo corredor e vimos os outros quartos. Eram normais, muito bonitos, super arranjados. um contraste bizarro com um quarto que ficava bem no fundo. Ela destrancou a porta com uma chave e passámos por um corredorzinho minúsculo de 1 m até dar de caras com outra porta. Lá ela parou e pediu para entrarmos com muito cuidado.
A gente nem sabia o que fazer. Cuidado com o quê? Eu segurei a maçaneta naquele silêncio absurdo e perguntei-lhe quem tava lá dentro. Afinal, lá dentro, oficial, está a santa morte do meu genro. Ela saiu há pouco tempo e queria fazer-me mal. Não é que a as pessoas duvidam das pessoas, mas a gente lida com tanta coisa pesada que não dá para perder tempo com este tipo de história.
A gente não perguntou mais nada. Apenas suspirei, olhei para o meu colega e entramos. O quarto era totalmente diferente do resto da casa. Parecia que não via uma reforma há décadas. As paredes eram de um verde menta todo descascado, caindo aos pedaços. Não tinha uma única janela. O cheiro a mofo e local fechado era insuportável.
Dava um nó no estômago. E lá no fundo, encostado à parede, tinha um colchão largado directamente no chão, imundo, e uma estátua da santa morte, do tamanho de uma pessoa adulta. Ela estava deitada em cima do colchão, com os pés bem virados para onde estávamos. O visual era macabro, não vou mentir.
Era uma estátua bastante velha, com a pintura gasta. A gente rodou a lanterna por tudo, mas não tinha mais nada no quarto. Não tinha outra porta, não tinha móveis, nada. E como não encontramos ninguém, bem, nós não queria julgar a senhora. Mas o que mais íamos pensar? Do lado da cama tinha um monte de vela, tudo vela preta, daquelas grossas, algumas já derretidas até ao fim, dentro num copos de vidro.
E só vimos isso na lanterna porque a luz do teto não ligava. A senhora jurou que a lâmpada deixou de funcionar no dia que trouxeram aquela santa para casa. A gente iluminou cada canto do corredor e do quarto. Nada. Tudo muito bizarro. Claro. Mas fazer o quê? Cada um com as as suas crenças.
Quando a gente estava saindo, a senhora entrou em desespero. Começou a chorar e a implorar-nos ajudar a tirar aquela estátua dali. Antes que o genro dela chegasse. Ela falava que a santa morte tinha levantado porque ficava zangado quando pediam as coisas para ela e esqueciam-se de acender as velas. Que era por isso que ela estava a passear por lá e que não aguentava mais aquilo debaixo do mesmo tecto.
Fomos para o corredor para falar com ela. Beleza, a gente podia quebrar este ramo e levar a estátua para a calçada. Não é que acreditássemos na história, mas já que estávamos ali, não não custava nada ajudar uma senhora apavorada. Decidimos isso ali no aperto do corredor. O meu parceiro fechou a porta do quarto.
A senhora estava tão em pânico que nos bloqueava a passagem. Foi mesmo na hora em que decidimos voltar lá para tirar a estátua que nós dois travamos. Olhei para o meu parceiro e estava pálido, porque do outro lado daquela porta fechada, ouvimos com a maior clareza do mundo, passos rápidos, alguém a correr descalço de um lado para o outro dentro daquele quarto escuro.
“Estás a ver?” “Eu falei para vocês.” A senhora gritou. Ela saiu correndo para o quarto dela, gritando: “Sangue de Cristo!” E rezando alto. Ela foi tão rápido que desapareceu. Eu saquei a arma. O meu parceiro abriu a porta com tudo e nada. A estátua estava ali, deitada da mesma forma, na mesma posição. Vasculhamos as paredes de novo atrás de alguma passagem secreta, mas naquele quartinho velho e sem janela não tinha como.
Nós saímos de lá e, olha, eu tava com o corpo todo arrepiado. O suor esfriou na nuca. Trancamos a primeira porta, depois a segunda. Quando chegamos na sala, ouvimos o barulho de Chaves e a porta da frente se abriu. Um casal estava entrando na casa com cara de assustado, perguntando o que a viatura estava fazendo ali. A senhora saiu do quarto antes da gente conseguir responder e começou a falar um monte de coisa para eles.

Aí a gente entendeu que eram a filha e o genro dela. Deu para sacar na hora a dinâmica. A mulher ficava encolhida, calada e o cara falava por ela. A filha até tentava abrir a boca, mas ele cortava. O cara tratava a sogra igual lixo. Depois virou pra gente levantando a voz cheio de marra, querendo saber o que a gente estava fazendo lá nos fundos.
A senhora tentava falar que a casa era dela, mas ele mandava ela calar a boca. Eu falei bem sério que a gente foi lá para ajudar a dona da casa. Meu parceiro já estava ajeitando a postura para enquadrar o cara, porque o sujeito estava muito folgado. Aí a filha da senhora olhou para baixo, chorosa, e falou que a gente podia ir embora, que não tinha acontecido nada, mas a senhora não aguentou.
pediu de novo pra gente tirar aquela coisa lá de trás, porque eles não conseguiam mais dormir em paz, já que a noite inteira a coisa ficava falando com eles do fundo do corredor. A senhora não era louca, dava para ver nos olhos dela. Ela estava exausta e em pânico. Ela estava falando a verdade dela, mesmo que a gente não conseguisse processar como uma estátua ia fazer aquilo.
E então a casa inteira ficou num silêncio mortal, porque lá do fundo do corredor escuro, enquanto estava na sala, uma voz de mulher soltou um palavrão pesadíssimo pra gente, um grito seco. Meu parceiro e eu engolimos em seco e fomos andando devagar em direção aos fundos. Nisso, o genro surtou.
O cara que estava cheio de marra começou a chorar igual criança, agarrou a farda do meu colega e implorou, pelo amor de Deus pra gente não tocar na menina branca dele. Falava que ela só ficava nervosa daquele jeito quando não acendiam as velas ou quando alguém ria dela. Nós nos olhamos e decidimos que já deu. Não tinha crime ali, não tinha mais o que fazer.
se era brincadeira de mau gosto para fazer a polícia perder tempo, ou se era outra coisa a gente não ia pagar para ver. O rádio já estava chiando, chamando para uma emergência real, que sempre tinha problema com a criminalidade. A gente não ia ficar ali de babá de estátua. Pode até ter sido sacanagem nossa deixar a velhinha na mão com aquilo tudo, mas a rua tava chamando.
Tinha gente correndo risco ali perto. Falamos que se o cara desse mais problema, era só a mulher ligar pra polícia de novo. Fomos pra viatura, ainda com sangue quente. aquele genro era um baita de um babaca. Mas a verdade é que ele entrou em desespero real quando a gente foi na direção do quarto. No caminho, eu e meu parceiro finalmente tivemos coragem de falar sobre o que aconteceu.
E, cara, a gente teve que admitir quem gritou com a gente e quem correu descalço naquele chão frio não era uma pessoa de carne e osso. Mas o que a polícia pode fazer contra algo que nem tá vivo? Fizemos o boletim, esperamos a senhora ligar pra polícia de novo, mas o rádio nunca mais chamou para aquele endereço.
De todas as coisas que eu vi no estado do México, essa é aquela que mesmo anos depois me faz trancar a porta duas vezes antes de dormir e ter certeza absoluta de nunca apagar todas as luzes da casa. O que eu vou compartilhar com vocês agora é algo que me arrepia a espinha toda vez que eu lembro. Eu juro que não entendo como uma bizarrice desse nível nunca passou nos jornais do país inteiro.
Foi uma situação muito estranha que só o pessoal que morava naquele bairro na época ficou sabendo. Isso e claro os policiais que trabalharam no meio daquela confusão toda. Uma dessas pessoas era minha tia. Ela trabalhava na delegacia de polícia civil no estado do Paraná, atuando como investigadora na década de 70, e acabou caindo nas costas dela a responsabilidade de assumir esse caso de frente.
Minha tia, que hoje em dia já está aposentada e descansando faz muitos anos, foi quem me contou tudo isso. Ela me disse que tinha acabado de ser promovida no trabalho para pegar aquelas investigações mais difíceis e complexas em uma região que era praticamente isolada na época, nas beiradas de uma pequena cidade no interior do Paraná.
Foi bem nessa época que as pessoas da região começaram a ligar para a polícia avisando que crianças pequenas com idades entre 8 e 12 anos estavam simplesmente sumindo do mapa. Minha tia me contava que isso pegou todo mundo daquela região totalmente de surpresa, porque era o tipo de coisa que nunca tinha acontecido por lá antes.
Tanto ela como os outros investigadores não faziam a mínima ideia de por onde começar a procurar ou para qual a direção para olhar. Eles começaram a criar as primeiras ideias do que poderia ter acontecido. Saíram para fazer perguntas, montaram buscas e investigações com tudo o que vocês conseguem imaginar. Mas ela dizia-me que não achavam absolutamente nada.
Chegou a um ponto em que eles até começaram a suspeitar que algum bicho do mato estivesse a atacar e a fazer isso, mas a questão é que não encontravam nenhum único rasto no chão, algo que se fosse realmente problema com algum animal selvagem, a cena seria totalmente contrário e cheia de marcas na Terra. E no meio de muitas coisas que eles começaram a ter em consideração, a minha tia falava sempre dessa parte da investigação com muita raiva.
Ela me dizia que, como não tinham muita experiência nesses anos, as atitudes certas não foram tomadas a tempo e mais As crianças pequenas continuavam desaparecendo por lá. Mas voltando ao ponto principal, entre as coisas que iam juntando como um puzzle, a polícia percebeu que todos os rapazes e meninas que desapareceram tinham saído de casa para dar uma volta de bicicleta.
Tinham-se afastado das casas deles por apenas algumas ruas. Ouvindo os testemunhos das pessoas, da minha tia e dos colegas de esquadra sacaram esse detalhe. Só que procuravam, mas não encontravam nenhuma bicicleta sequer atirada pelo caminho. E isso também era algo muito, mas muito estranho. Por causa disso, chegaram à conclusão de que talvez fosse alguma pessoa má que estivesse a raptar as crianças.
Esse criminoso, com certeza, necessitaria usar uma picapicas junto também, algum tipo de veículo de caçamba. E bem, nas investigações que ela contava-me que eles continuavam a fazer com as famílias totalmente destruídas de dor, tiveram de se passar uns dois meses inteiros para que a polícia finalmente descobrisse que se tratava de um rapaz com cerca de 25 anos de idade.
Esse cara trabalhava como ajudante geral em uma loja de materiais de construção ali daquele bairro e utilizava a picap da própria loja para cometer estas maldades. Mas por favor, não vão pensar que o motivo de eu estar a descrever este relato para vocês é apenas focado naquilo que este homem fez.
O caminho não é por aí, porque a forma absurda de como a polícia conseguiu encontrar este tipo é aquilo que até aos dias de hoje, a minha tia me diz que ninguém conseguiu explicar direito como aconteceu, que o negócio foi tão louco que mesmo que na altura tenham sido obrigados a preencher um relatório oficial de papelada, ainda assim ninguém que lê aquilo consegue dar crédito ou acreditar na forma como as coisas se desenrolaram.
O que acontece é que essa pessoa, para dizer a verdade, tinha muito pouco contacto e pouca amizade com os outros. A minha tia contou-me muitos pormenores que por agora não vale a pena estar a comentar, senão não termino o relato hoje. Mas a polícia acabou descobrindo algumas coisas pelas poucas conversas que tinha com os vizinhos ou quando de repente o pessoal puxava assunto com ele na loja de ferragens.
Sabiam que de vez em quando ele fazia-se à estrada para ir visitar os pais e os irmãos que viviam mais para sul, descendo para o estado de Santa Catarina. Ele passava desde um final de semana até aos sete dias completos por lá. Só que ninguém se apercebeu que quando aconteceu o desaparecimento da última criança, ele arrumou as coisas e viajou para lá mesmo antes de os pais do menino avisarem a polícia sobre a situação.
Essa pessoa tinha tudo friamente calculado na cabeça. E quando ele regressou de viagem, depois da minha tia e os seus parceiros já estavam quase com a certeza absoluta de que era ele, eles foram a casa dessa pessoa para investigar, sabendo que ainda estava na estrada de regresso ao Paraná. Chegando à frente da residência deste cara, que vivia numa zona mais isolada, mas que tinha vizinhos a viver um pouco perto, os polícias encontraram um monte de bicicletas atiradas para o passeio e no quintal da casa. A minha tia dizia que
parecia que alguém tinha desenterrado todas elas, porque as bicicletas estavam completamente cheias de terra da lavoura. Só que a polícia revirou tudo e nem no quintal dele, nem nas proximidades, eles encontraram nenhum buraco no chão que pudesse dar alguma pista de que as bicicletas estivessem escondidas por ali em alguma área específica.
não fazia o menor sentido. E exatamente nesse mesmo dia, este homem chegou de viagem mesmo na altura em que a minha tia e os investigadores estavam a analisar tudo aquilo que ninguém conseguia explicar. Ele tentou fugir a correr, mas a minha tia conta que deram voz de detenção e agarraram o sujeito sem terem muito problema. Foi uma perseguição bastante curta.
Quando os polícias chamaram os pais das crianças para ver se reconheciam alguma daquelas bicicletas sujas, muitos deles entraram em choque e afirmaram que sim. Aquelas eram exatamente as bicicletas que tinham comprado para os filhos pequenos, mas ninguém na esquadra entendia quem tinha feito a ação de colocar tudo aquilo ali.
Eles investigaram ainda mais. Ficaram fazendo perguntas, apertando os vizinhos. Minha tia contou-me que ninguém confirmava nada ou dava qualquer sinal de que ele estivesse a fazer aquilo. Somente os investigadores e à minha tia que acompanhavam os passos do tipo. Assim, o povo da rua não sabia de nada do que ele andava a fazer traquinices.
E, por causa disso, ninguém teria como saber quem lá foi, foi buscar as bicicletas e largou tudo ali da noite para o dia. Isso era impossível, uma vez que a minha tia me garantiu que na noite anterior a polícia tinha ido à porta da sua casa para tentar procurar alguma coisa que ajudasse no caso. E não havia nada no terreno.
Eles também tinham conversado com dois vizinhos nessa mesma madrugada e também nada. Esse homem acabou confessando na esquadra que tinha sido ele próprio que cometeu os crimes, mas ele chorava desesperado, dizendo que não foi foi ele quem desenterrou as bicicletas. Ele confessou à polícia que a bicicleta que estava enterrada mais perto dali ficava a quase 40 minutos de viagem de distância, descendo à auto-estrada Sentido Sul.
E as outras bicicletas estavam ainda mais longe daquela cidade do interior do Paraná, no caminho da serra indo para casa dos pais dele em Santa Catarina. Todas elas foram enterradas bem separadas nas margens da auto-estrada, no meio da floresta densa. Não existia condição humana de como aquelas coisas chegarem a casa dele de uma noite para a outra, coisa da qual a minha tia também estava com a certeza absoluta.
Lá na esquadra, os polícias chegaram a uma conclusão que nunca, em hipótese alguma, poderia ser colocada no papel. Acreditavam que o espírito daquelas crianças pequenas, a quem tirou a vida e nunca revelou onde os corpos estavam escondidos, foi quem teve a força de desenterrar as próprias provas. Tinham a certeza disso, até porque a A câmara municipal da cidade oferecia uma pequena recompensa em dinheiro, em troca de pistas, e ninguém apareceu para cobrar nenhum cêntimo.
À minha tia e os seus colegas, esta foi a prova definitivo de que as coisas do além cobram as suas próprias dívidas quando a justiça dos homens demora. No relatório oficial, registaram apenas que algum morador anónimo entregou as bicicletas de madrugada, mas no fundo, todos eles sabiam muito bem quem ou o que tinha percorreu quilómetros de rodovia deserta na calada da noite para apontar o dedo ao assassino. Não.
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