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1973: Ele Visitou o TÚMULO da Esposa… Mas Já Havia MORRIDO há 28 Anos…

O meu nome é Cristino Alves de Oliveira, Tenho 85 anos. Nasci e criei-me em Remanso, pequena cidade à beira do rio São Francisco, no norte da Baía. Passei a vida inteira a trabalhar na lavoura, plantar cebola e melancia na terra húmido da beira do rio, daquele jeito que plantamos no sertão, quando a vasante baixa e deixa o chão preto e fértil.

But durante 22 anos, entre 1968 e 1990, fui também o responsável pelo cemitério do Remanso. Comecei novo com 27 anos, quando o antigo zelador morreu e não tinha ninguém para assumir. Eu já trabalhava no campo desde menino, tinha força nas costas e respeito pelos mortos. O padre chamou-me, perguntou se eu queria o serviço e aceitei. Naquele tempo, a gente não escolhia muito. O que aparecia a gente fazia.

Não era bem um cemitério, era um campo santo, pequeno, rodeado de estacas de madeira e arame farpado, que estava num descampado a cerca de 2 km da cidade. Não tinha capela, não tinha muro de pedra, não tinha nada além de terra batida, cruzes tortas e um pé de um buzeiro gigante que dava sombra à entrada. Os mortos do Remanso eram ali enterrados e eu tratava de tudo. Abria as covas, fechava as covas, mantinha o mato baixo, acendia uma vela quando aparecia alguém que não tinha família para acender.

Não sou homem de inventar história. Sempre achei que o mundo já tem coisa a mais que a gente não entende para ficar criando mais. Mas o que vivi em julho de 1973, isso não posso guardar. Já tentei esquecer, já tentei encontrar uma explicação que servisse, não encontrei. Então vou contar. Vou contar da maneira que aconteceu, sem enfeitar, sem aumentar, sem tirar.

Naquele tempo, o Remanso era uma cidade de cerca de 3.000 almas. Todo mundo se conhecia. Eu conhecia cada pessoa que entrava naquele cemitério para visitar um familiar, cada mulher que levava flor no dia de finados, cada velho que acendia a vela no túmulo de um filho. Conhecia os nomes, as famílias, as histórias. Por isso, quando um homem que nunca tinha visto apareceu no portão do cemitério numa tarde de Julho, reparei na hora.

Era um rapaz jovem, uns 22 anos no máximo, pele morena queimada pelo sol, cabelo escuro cortado, rente, barba por fazer. Vestia uma camisa de botões, daquelas de algodão cru que o povo da lavoura usa e umas calças de brin escuro gasta nos joelhos. Nas costas, uma pequena trouxa amarrada com corda. Nas mãos, nada. Não tinha flor, não tinha vela, não tinha terço, só a trouxa e o chapéu de palha que tirou quando me viu.

A a sua voz era baixa, mas não era fraca. Era uma voz de quem está cansado, mas não derrotado. Saudou-me com educação e disse que queria visitar o túmulo de uma rapariga. Perguntei o nome. Hesitou por um segundo, como se tinha que puxar o nome de um lugar muito fundo. Depois respondeu: “Francisca das Dores.” O nome pareceu-me vagamente familiar, mas não soube de onde. Conhecia tanta gente enterrada ali, tantas Franciscas, tantas Marias. tantas Anas, mas alguma coisa nesse nome, Francisca das Dores, me fez prestar atenção.

Perguntei se ele era parente. Ele demorou a responder. Olhou para o chão, para o umbuzeiro, para o céu e disse então que foi marido dela há muito tempo. Abri o portão. Ele entrou e foi aí que reparei na primeira coisa estranha. Ele não me perguntou onde ficava o túmulo, não olhou em redor, procurando. Não esperou que eu guiasse. Foi direito, passou pelo umbuzeiro, dobrou à direita no caminho de terra batida, passou pela fileira das cruzes de madeira, foi até ao fundo do cemitério, onde o mato era mais alto e as cruzes eram mais velhas, e parou em frente a uma lápide que eu próprio já me tinha esquecido.

Fiquei parado a olhar. Aquele túmulo ficava no pior canto do cemitério. Era uma área que raramente limpava, porque nunca ninguém lá ia. As cruzes estavam tombadas, os nomes apagados pelo sol e pela chuva, mas ele foi direto. Não hesitou um segundo, não olhou para os lados, não leu os nomes nas outras lápides. Foi como se uma corda invisível estivesse a puxá-lo pelo peito.

Sentei-me no banco de madeira que estava debaixo do umbuzeiro e fiquei observando de longe. Ele ajoelhou-se na terra, sem se importar com o pó que sujava as calças, tirou a trouxa das costas e abriu-o por dentro. tirou uma vela branca, um punhado de flores secas de alecrim e um pedaço de pano limpo. Acendeu a vela, colocou as flores na frente da lápide e começou a limpar a pedra com o pano. Devagar, com um cuidado que vi de longe. Passava o pano em cada canto da lápide, tirava o limo, tirava o pó, tirava o mato seco que se colava nas bordas. fazia aquilo com uma calma que não era de quem está a visitar um túmulo, era de quem está a cuidar de alguém, de quem está a passar a mão no rosto de uma pessoa que dorme.

Ficou ali mais de uma hora. Rezou, limpou, ficou em silêncio, depois levantou-se, sacudiu o pó das calças, guardou o pano e o resto da vela na trouxa e veio andando de volta. Quando chegou perto de mim, parou e agradeceu por eu ter deixado-o entrar. Ofereci água. Ele aceitou. Bebeu devagar, olhando para o umbuzeiro.

Perguntei há quanto tempo ela tinha morrido. Ele respondeu: 28 anos. Perguntei se vinha de longe e se ia ficar na cidade. Ele disse que vinha de muito longe, mas que não ia ficar. Disse que só foi ali fazer aquilo e que agora ia embora. Perguntei se tinha família em Remanso, alguém que o pudesse acolher. Ele disse que não. Disse que a família dele era a Francisca e que a A Francisca estava ali. Depois, me agradeceu de novo e estendeu a mano.

Apertei e foi nesse aperto de mão que o mundo parou. A mano dele estava fria. Não era o frio de quem bebia água gelada. Não era o frio de quem passou por um vento. Era um frio que não não tinha nada a ver com a tarde quente de julho na Baía. Um frio que subiu pelo meu braço, passou pelo meu ombro e se instalou-se na minha nuca, como se alguém tivesse encostado um pano molhado e gelado na minha pele.

A mão dele era rígida, os dedos duros, como se não tivessem articulações, como se fossem feitos de uma matéria que não era carne. E juntamente com o frio veio um cheiro, um cheiro a terra molhada, de limo de rio, de coisa que ficou muito tempo debaixo de água, um cheiro que entrou-me pelas narinas e colou-se na a minha pele. Eu tentei soltar, mas a mão dele segurou a minha por mais um segundo. Olhou-me nos olhos e nesse olhar, por uma fracção de segundo, vi uma coisa que não era de homem vivo.

Era um cansaço que não era do corpo. Era um cansaço de quem já tinha atravessado uma distância que não se mede em quilómetros, de quem veio de um lugar onde o tempo não passa. Depois largou, virou costas e foi embora, caminhando lentamente pela estrada de terra, com a trouxa às costas e o chapéu na cabeça, desapareceu na curva que levava para a cidade.

Eu fiquei parado junto ao portão, olhando para o ponto onde ele desapareceu, sem me conseguir mexer. Nunca mais o vi. Fiquei ali por um tempo que não sei medir. A minha mão ainda estava fria. Esfreguei uma na outra. Tentei aquecer, mas o frio não saía. Era um frio que vinha de dentro, como se o gelo tivesse entrado na minha carne e se alojado nos ossos. E o cheiro, o cheiro a terra molhada e a limo de rio continuava na minha pele.

Fui até a torneira, lavei as mãos com sabão, esfreguei com força até a pele ficar vermelha. O cheiro não saiu. Continuei sentindo-o durante o resto da tarde, durante a noite. No dia seguinte ainda estava lá. Um cheiro fraco, mas persistente, que me acompanhou durante quase uma semana. Eu levantava a mão perto da cara e sentia terra molhada, limo de rio, como se tivesse mergulhado a mão no fundo do São Francisco e deixou-a lá durante horas. Às vezes acordava de madrugada com aquele cheiro no almofada, na roupa, nos meus dedos. A minha mulher perguntou o que era aquele cheiro. Eu disse que não sabia. Ela me parecia estranho, mas não insistiu.

Passados ​​uns dias, o cheiro foi desaparecendo lentamente, até desaparecer completamente, mas a recordação daquele aperto de mão, essa nunca desapareceu. Até hoje, quando está frio, sinto um resquício daquela temperatura na palma da mão direita.

No dia seguinte à visita, dirigi-me ao túmulo de Francisca das Dores. A lápide estava limpa como nunca esteve. Dava para ler o nome com clareza. E em baixo, uma data falecida em 1945. Nenhuma flor, nenhum enfeite, nenhuma foto, apenas o nome e a data. O mato ao redor ainda estava do jeito que eu tinha deixado da última vez que limpei. Mas a lápide estava impecável. O pano que ele usou tinha tirado décadas de sujidade acumulada. Dava para ver a cor original da pedra, um cinzento claro que nunca me tinha reparado antes.

Fiquei a olhar para aquele túmulo durante um bom tempo e foi aí que reparei numa coisa. Na base da lápide, do lado direito, tinha uma marca. Não era uma fenda, não era um risco do tempo, não era um defeito da pedra, era uma letra. Um J gravado na pedra com algum objeto ponte agudo, de um modo tosco, mas firme. E do lado do J, um sinal de mais e depois um F. J+ F. José e Francisca. Aquilo não estava lá antes. Eu conhecia aquele túmulo. Já o tinha limpado dezenas de vezes, arrancado mato, tirado pó, passado a mão na pedra. Nunca tinha visto aquela marca. E o rapaz que esteve ali não transportava nada além do pano e da vela, nada que pudesse riscar pedra, nada de metal, nada de ponta, nada.

But a marca estava lá funda, como se tivesse sido gravada com paciência, com tempo, com força, por alguém que não precisava de ferramenta, por alguém que já não estava entre os vivos. Passei o dedo na marca. A pedra estava fria, mais fria do que deveria estar para uma tarde de julho na Baía. Passei o dia com aquilo na cabeça. Não consegui trabalhar direito. Fui varrendo o cemitério no automático, olhando para o chão, repetindo mentalmente o que tinha visto.

Ao fim da tarde, fui até ao cidade. Precisava de falar com alguém que soubesse alguma coisa. Encontrei a dona A Zefa, uma velha com mais de 80 anos que conhecia a história de toda a gente em Remanso. Ela estava sentada na calçada de casa, como fazia toda a tarde, olhando o movimento da rua. Sentei-me ao lado dela e perguntei-lhe se se lembrava de uma rapariga chamada Francisca das Dores.

A Dona Zefa ficou em silêncio durante um momento, depois abanou a cabeça e disse que se lembrava. Sim, fazia muito tempo, mas lembrava-se. Francisca das Dores tinha morrido em 1945, de febre muito nova, cerca de 22 anos. Era casou com um homem chamado José, um lavrador que trabalhava nas roças de cebola. Tinha mais ou menos a mesma idade dela.

Quando ela morreu, ele enlouqueceu de tristeza. Ficou o dia sem comer, sem dormir, sentado à beira do túmulo. Não falava com ninguém, não respondia quando chamavam, não aceitava comida, só ficava ali parado, a olhar para a terra. Depois desapareceu. Um dia simplesmente não apareceu mais. Ninguém soube para onde foi. Uns diziam que tinha-se atirado ao rio, outros que tinha ido embora para nunca mais voltar. O certo é que ninguém no remanso viu José Pereira da Silva desde 1945.

A Dona Zefa olhou para mim e perguntou por eu queria saber isso depois de tanto tempo. Eu disse que era só curiosidade. Ela não acreditou, mas não insistiu. A Dona Zefa era assim. Sabia quando uma pessoa não queria falar.

Voltei para casa devagar. O sol já estava baixo, o céu estava alaranjado e o vento que vinha do rio abanava as folhas das árvores. Fui fazendo as contas à cabeça. Francisca faleceu in 1945, com 22 anos. O José tinha a mesma idade. Se fosse vivo em 1973, teria 50 anos. 50 anos de idade, cabelo grisalhos, rugas, o corpo marcado pelo tempo. Mas o homem que apertou-me a mão naquele cemitério não tinha 50 anos, tinha 22. A mesma idade de quando a esposa faleceu, a mesma idade com que desapareceu, a mesma idade com que parou no tempo, como se o relógio dele tivesse parado no segundo em que o coração de Francisca parou.

Fui dormir com isto na cabeça e acordei no dia seguinte ainda pior. O sol ainda estava baixo, o ar ainda estava frio. Abri o portão do cemitério e fui direito ao túmulo de Francisca. Precisava de ver de novo. Precisava de ter a certeza de que não tinha imaginado nada.

A marca ainda estava lá. J+ F, gravada na pedra como se sempre tivesse estado. Mas agora tinha mais uma coisa. Do lado da marca, em cima da lápide, tinha um punhado de flores frescas de alecrim, com as folhas ainda húmidas, como se tivessem acabado de ser colhidas. Só que ninguém tinha entrado no cemitério depois de eu fechei o portão na noite anterior.

Eu dormia num quarto junto à entrada. A minha cama ficava a menos de 10 m do portão. Eu ouvia qualquer barulho. O ranger do ferro, o som de passos na terra, o vento que mexia nas folhas e não ouvi nada, nenhum passo, nenhum sussurro, nem sinal de que alguém tinha estado ali. Peguei nas flores, estavam húmidas, cheirosas, vivas. O aroma de alecrim subiu pelas minhas narinas e misturou-se com a lembrança do cheiro que me tinha ficado na mão. Terra molhada e limo de rio.

Fechei os olhos por um instante. Quando abri, Olhei em redor. O cemitério estava vazio. O vento balançava os ramos do umbuzeiro. Um cão ladrava ao longe. Nada mais. Só eu, a lápide, as flores e a marca na pedra. Deixei as flores onde estavam. Não tive coragem de o tirar. Virei costas e fui trabalhar.

Nunca contei esta história a ninguém em remanso. Não porque fosse segredo, mas porque não sabia contar. Como se conta uma história em que um homem desaparecido há 28 anos aparece sem ter envelhecido um dia, visita o túmulo da esposa, aperta-lhe a mão com um frio que não é deste mundo, grava as iniciais na pedra sem ter com quê e volta a desaparecer, deixando na sua pele um cheiro a terra e limo que o sabão não tira. Como se explica isso a alguém que nunca sentiu o que eu senti?

Hoje, com 85 anos, ainda penso nisso. Penso no rapaz de 22 anos que veio de muito longe. Penso na trouxa que só tinha uma vela, um pano e alecrm. Penso na marca na pedra que não estava lá antes e que ficou para sempre. Penso no cheiro que ficou na minha mão durante uma semana inteiro e que por vezes em noites frias ainda me parece voltar.

E Pergunto-me se José Pereira da Silva se jogou mesmo no Rio em 1945, no dia em que a esposa faleceu. E o que vi foi um homem que já não era mais homem, um homem que passou 28 anos no fundo do São Francisco à espera do momento de voltar para cuidar do túmulo dela uma última vez, ou se ele simplesmente deixou de existir como gente no instante em que ela fechou os olhos. E o que ficou foi aquilo. Um rapaz de 22 anos preso num corpo que o tempo não tocava, deambulando por aí, esperando o dia em que finalmente poderia despedir-se.

Não sei, não vou saber, mas cada vez que me lembro daquele aperto de mão, sinto o frio de novo e sei que aquilo foi real. Tão real quanto a marca na pedra, tão real como as flores de alecrim que ninguém colocou, tão real como o cheiro de terra molhada que me acompanhou durante sete dias e que de alguma forma nunca foi completamente embora.

Se acredita que algumas pessoas não vão embora completamente, diga-me nos comentários. E se na sua cidade também existe uma história de alguém que desapareceu e nunca mais foi visto, mas que alguns juram ter encontrado, dividem isso comigo. Não te esqueças de deixar o like, partilhar e subscrever o canal para não perder os próximos relatos do interior. Bons sonhos e que Deus abençoe todos vós.

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