O Plano Macabro da Churrasqueira: O Caso de Ganância e Traição Familiar que Chocou o Rio Grande do Sul
O Domingo que Escondeu o Horror
Um domingo ensolarado de verão, uma rua residencial pacata onde quase nunca nada de extraordinário acontece. As imagens capturadas pela câmera de segurança de uma residência vizinha registram uma movimentação aparentemente banal na manhã de 27 de fevereiro de 2022. Um carro de vidros escurecidos aproxima-se de um portão. A moradora sai, abre a passagem e o veículo entra. No entanto, o que se segue nos minutos posteriores foge completamente à normalidade de uma recepção familiar.
O motorista manobra repetidamente, indo para a frente e para trás, subindo na grama até posicionar a traseira do veículo em marcha ré, diretamente voltada para o interior da garagem. Logo em seguida, colchões são carregados e escorados estrategicamente na entrada do espaço, bloqueando de forma cirúrgica a visão de qualquer pessoa que estivesse transitando pela via pública. No meio dessa movimentação incomum, uma das visitantes caminha até o muro e, de maneira amigável, entrega uma garrafa de cachaça para o vizinho ao lado. Um gesto aparentemente cortês, sem contexto imediato, que passou completamente batido naquele dia quente.
Guarde bem esses detalhes: o carro manobrando, os colchões bloqueando a visão e a garrafa de bebida oferecida por cima do muro. Aquela coreografia esquisita e calculada não era uma simples arrumação de domingo. Por trás daquela barreira improvisada de tecidos e espumas, um dos episódios mais perturbadores da crônica policial do Rio Grande do Sul estava em pleno andamento. O que aquelas paredes esconderam naquele final de semana desencadeou um mistério cujos desdobramentos ecoam com indignação até os dias atuais.

O Sumiço Silencioso e as Primeiras Desconfianças
O cenário deste crime estarrecedor é a cidade de Cachoeirinha, localizada na região metropolitana de Porto Alegre. Com uma população estimada em cerca de 140 mil habitantes de acordo com o censo de 2022, o município pacato foi chacoalhado pela história do casal de moradores que residia na casa vigiada pelas câmeras. Ali vivia Ruben Afonso Eger, um idoso de 85 anos que enfrentava graves problemas pulmonares, dependendo diariamente de medicação contínua e do suporte de um cilindro de oxigênio instalado em seu quarto para conseguir respirar. Ao seu lado estava a esposa, Marlene dos Passos Stafford Eger, de 53 anos.
Naquele fatídico dia 27 de fevereiro, pouco antes do meio-dia, o casal recebeu uma visita inesperada. Bateram à porta a filha do senhor Ruben, Cláudia de Almeida Eger, acompanhada de seu filho, Andrew, neto do idoso. Os dois residiam na cidade vizinha de Canoas e apareceram sem qualquer aviso prévio. De acordo com relatos fornecidos por familiares à imprensa da época, o relacionamento entre pai e filha era marcado pelo distanciamento. Cláudia raramente visitava o idoso, o que fez com que os parentes mais próximos estranhassem profundamente aquela aparição repentina justamente no final de semana de Carnaval.
A partir daquele domingo, Ruben e Marlene desapareceram do mapa. Não foram mais vistos na calçada, não atenderam telefonemas e sumiram da rotina do bairro. Inicialmente, a ausência não chamou a atenção do público geral, mas quando os primeiros questionamentos surgiram no seio familiar, Cláudia já tinha uma justificativa pronta na ponta da língua: ela assegurou a todos que o pai e a madrasta haviam decidido, por livre e espontânea vontade, passar uma temporada em sua residência na cidade de Canoas.
Os Sinais de Alerta: O Quintal que Falava
A versão apresentada por Cláudia começou a desmoronar à medida que os dias avançavam e ninguém conseguia estabelecer contato direto com os idosos. Preocupado com o silêncio prolongado do avô, outro neto de Ruben, chamado Rafael, decidiu ir pessoalmente até a residência em Cachoeirinha para averiguar o que estava acontecendo. O cenário que encontrou no interior do imóvel contradizia frontalmente a narrativa de uma viagem planejada de férias.
No interior da casa, os remédios essenciais de Ruben estavam intocados sobre a mesa. Mais alarmante ainda: o cilindro de oxigênio, equipamento vital do qual o idoso não podia se separar sob o risco de morte, permanecia montado no mesmo lugar. Seria biologicamente impossível para aquele senhor de 85 anos viajar sem o aparato que garantia sua sobrevivência. Para fechar o quadro de horror e estranheza, o cachorro de estimação do casal foi localizado morto no terreno da propriedade.
Diante de evidências tão contundentes, a família percebeu que não se tratava de um afastamento voluntário e acionou a Polícia Civil, registrando uma ocorrência de desaparecimento. O caso, que inicialmente corria sob o protocolo de paradeiro desconhecido, rapidamente mudou de figura devido à gravidade dos indícios encontrados dentro da propriedade abandonada. Os próprios parentes documentaram o estado da casa em fotografias, convictos de que algo terrível havia acontecido ali dentro.
A Teia da Premeditação Impressa em Notas Fiscais
A equipe de investigação debruçou-se sobre as imagens da câmera de segurança vizinha, identificando o exato momento em que Marlene abriu o portão para Cláudia e Andrew. Os policiais constataram que os suspeitos permaneceram mais de quatro horas trancados na residência. Quando saíram, já no período da tarde, fecharam o portão e partiram no Ford Fiesta de Cláudia, sem que as lentes revelassem se o casal de idosos estava ou não no interior do veículo.
Em maio de 2022, três meses após o sumiço, a polícia obteve mandados para apreender os telefones celulares de mãe e filho. No interior dos dispositivos, analistas encontraram fotografias de diversas áreas ermas, isoladas e de difícil acesso na região metropolitana. Em paralelo, a perícia técnica foi enviada à residência de Cachoeirinha. Utilizando reagentes químicos em uma área anexa localizada nos fundos do terreno, os peritos criminais detectaram vestígios de sangue na parede. O confronto genético posterior foi implacável: o DNA confirmou que o sangue pertencia ao senhor Ruben.
Para adensar o cenário criminoso, cães farejadores foram utilizados para vistoriar o veículo Ford Fiesta pertencente à filha do idoso. Os animais treinados deram um sinal claro e inequívoco para os condutores: havia forte odor de putrefação cadavérica no interior do automóvel. Mesmo sem a localização de nenhum corpo até aquele momento, o sangue na parede e o cheiro de morte no carro consolidaram a tese policial de que o casal fora brutalmente assassinado.
A reviravolta mais impressionante ocorreu quando os investigadores rastrearam as atividades financeiras e comerciais dos suspeitos nas semanas anteriores ao crime. A polícia descobriu um rastro documental de insensibilidade e premeditação materializado em notas fiscais:
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9 de fevereiro de 2022: Quase três semanas antes do crime, Cláudia comprou em uma loja de ferragens uma lona de caminhão de alta resistência, braçadeiras plásticas e fita crepe.
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11 de fevereiro de 2022: O Ford Fiesta foi levado a uma oficina especializada para a instalação de películas de escurecimento nos vidros, no padrão mais escuro disponível no mercado.
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16 de fevereiro de 2022: Foram adquiridas novas braçadeiras de nylon, latas de tinta spray e rolos adicionais de fita adesiva.
O Ministério Público baseou-se nessa cronologia para oferecer a denúncia, sustentando que mãe e filho planejaram meticulosamente a execução. Segundo a acusação, a dupla utilizou o falso pretexto de realizar uma faxina doméstica para conseguir entrar na casa sem levantar suspeitas. Após o duplo homicídio, os réus teriam removido inclusive toda a forração interna do automóvel para tentar apagar qualquer vestígio biológico das vítimas, configurando o crime de fraude processual. No entanto, duas perguntas fundamentais seguiam atormentando os investigadores: como eles morreram e onde estavam os corpos?
A Delação do Neto e o Horror na Churrasqueira
As respostas para o mistério só vieram à tona às vésperas do julgamento popular, programado para ocorrer em novembro de 2024. Em uma reviravolta processual, o neto do idoso, Andrew, decidiu assinar um acordo de colaboração premiada com o Ministério Público. Em seu depoimento detalhado, o jovem jogou toda a responsabilidade pelo planejamento intelectual sobre os ombros de sua mãe, Cláudia, e descreveu o horror que se sucedeu no interior da residência.
Andrew revelou que as mortes não decorreram de uma discussão calorosa de momento, mas sim de uma execução fria à mesa. Durante a visita, Cláudia teria servido uma refeição ao pai e à madrasta contendo uma substância oculta misturada aos alimentos. O neto afirmou não saber precisar a natureza exata do produto químico utilizado. Pouco tempo após ingerirem a comida, Ruben e Marlene começaram a passar mal e adormeceram profundamente. Ao questionar a mãe sobre o estado dos dois, Andrew ouviu uma resposta seca e categórica: eles não iriam mais acordar.
Foi a partir deste ponto que a coreografia captada pelas câmeras entrou em execução. Os corpos foram colocados no porta-malas do veículo ocultados pelos colchões e transportados até a residência de Cláudia, situada em Canoas. Ali, o plano atingiu o ápice do macabro.
Segundo a delação de Andrew, os corpos de Ruben e Marlene foram colocados inteiros, sem desmembramento, no interior de uma churrasqueira residencial comum no quintal da casa. Sob ordens da mãe, que abastecia o local com lenha e carvão, o jovem admitiu ter mantido o fogo aceso por cerca de 36 horas seguidas. Testemunhas vizinhas confirmaram em juízo terem avistado fumaça e fogo ativo na propriedade por até três dias consecutivos.
Após a total redução das vítimas a cinzas e fragmentos, Cláudia teria utilizado uma pá para recolher os resíduos, armazenando-os em potes plásticos de cozinha. Posteriormente, os recipientes com os restos mortais foram descartados em uma área de mata densa, junto a um córrego nas imediações do Rio Gravataí. Essa destinação explica o motivo pelo qual as autoridades nunca conseguiram localizar os restos físicos das vítimas. Uma perícia realizada nas cinzas coletadas tardiamente na churrasqueira de Canoas resultou inconclusiva, sendo incapaz de extrair perfis de DNA devido à total destruição térmica.
Motivação Fútil e as Linhas Tortas da Justiça
A razão por trás de tamanha barbaridade foi classificada pelo Ministério Público como puramente financeira e mesquinha. Cláudia nutria uma profunda insatisfação com o pai pelo fato de o idoso ter cortado uma ajuda financeira em dinheiro que fornecia mensalmente a ela. Além disso, ela tinha conhecimento de que Ruben guardava em sua posse uma quantia superior a R$ 70 mil em espécie, oriunda, em parte, da venda recente de um caminhão pelo valor de R$ 40 mil, montante que o idoso ainda não havia depositado em nenhuma conta bancária.
A ficha policial de Cláudia revelou um histórico antigo de ganância familiar. A promotoria demonstrou que, no ano de 2016, a mulher — que possuía formação superior em Direito — havia forjado o próprio sequestro com o intuito de extorquir dinheiro do pai idoso, respondendo criminalmente por aquele ato. A farsa do falso sequestro azedou de forma definitiva o convívio familiar, plantando as sementes da discórdia que culminaram na tragédia de 2022.
Apesar da robustez das investigações, o encerramento do caso tomou rumos frustrantes. Cláudia de Almeida Eger nunca sentou no banco dos réus para responder pelo duplo homicídio do pai e da madrasta. Logo após sua prisão em 2022, sua defesa obteve o benefício da prisão domiciliar alegando, por meio de laudos médicos, que a ré sofria de paraplegia e não possuía mobilidade nas pernas. No entanto, ela foi flagrada caminhando normalmente nos corredores de um hospital durante uma internação e, posteriormente, foi vista conduzindo um automóvel convencional sem adaptações ao chegar para uma audiência judicial.
Diante da fraude médica constatada, a justiça determinou o seu retorno ao regime fechado em maio de 2023. Em março de 2025, enquanto aguardava o julgamento em uma penitenciária feminina, Cláudia sofreu uma crise severa de saúde decorrente de complicações de diabetes, obesidade extrema, hipertensão e um quadro infeccioso agudo. Transferida para um hospital de custódia em Porto Alegre, ela faleceu no dia seguinte, aos 51 anos de idade. Com o óbito, sua punibilidade foi legalmente extinta. Ela teve direito a velório, cremação e despedida familiar — rituais de dignidade que negou categoricamente ao próprio pai e à madrasta.
O Desfecho Recente e a Pergunta que Fica
Restou então o neto, Andrew, cujo processo seguiu de forma individualizada. Após passar por detalhada avaliação psiquiátrica forense devido a alegações da defesa de que sofria de transtornos mentais e agira sob severa coação moral da mãe, o Conselho de Sentença do Tribunal do Júri rejeitou a tese de inimputabilidade. No dia 6 de agosto de 2025, Andrew foi formalmente condenado a uma pena total superior a 53 anos de reclusão em regime inicialmente fechado pelos crimes de duplo homicídio qualificado, ocultação de cadáver, fraude processual, maus-tratos a animais e resistência à prisão.
O cumprimento da pena, contudo, sofreu o revés mais recente e inacreditável desta longa novela jurídica. Em junho de 2026, o poder judiciário emitiu uma ordem determinando que o jovem deixasse o Instituto Psiquiátrico Forense e fosse transferido para uma penitenciária de segurança comum. Contudo, antes que a transferência fosse operacionalizada, na terça-feira, 9 de junho de 2026, Andrew conseguiu escapar da instituição prisional.
A fuga foi confirmada publicamente pela Polícia Penal dias após o ocorrido, desencadeando a emissão de um mandado urgente de recaptura. Até o presente momento, o paradeiro do homem condenado a mais de meio século de prisão por participar da morte e incineração do próprio avô permanece um mistério absoluto, deixando a comunidade local em constante estado de alerta e os familiares sobreviventes desamparados na sua busca por justiça definitiva.
Diante de um caso que envolveu premeditação fria, falsidade médica, destruição completa de corpos em uma churrasqueira doméstica e uma fuga inacreditável do sistema prisional, fica a reflexão sobre os limites da ambição humana. Como lidar com a realidade de que o perigo, muitas vezes, compartilha a mesma mesa de almoço? Deixe sua opinião sobre as reviravoltas deste caso nos comentários e compartilhe este registro para que crimes dessa natureza não caiam no esquecimento.
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